violência doméstica - ou o triste adágio

11 02 2005

O triste adágio é “quanto mais me bates…
… não, não é mais gosto de ti: é mais do género… “mais incapaz me tornas”. E ainda me matas…

Foi divulgado o balanço de 2004 da APAV - Associação de Apoio à Vítima.
Com um total de 10.239 queixas, cerca de 72,6% são de violência doméstica.

Perfil-tipo do agressor:
é homem (93,4%), entre os 36 e os 45 anos , cônjuge ou companheiro, trabalhador de indústrias extractivas e de construção, desempregado, com antendentes criminais relacionados a ofensas à integridade física (0,9%) e ao Código da Estrada devido ao consumod e estupefacientes (0,5%).

Perfil-tipo da vítima:
é mulher (92,6%), idade similar à do agressor, é casada (57,5%), fez o ensino secundário (10%), está empregada (44%) - mas existe uma taxa elevada de desempregadas (19,1%) o que aumenta a dependência face ao agressor -, forte dependência de fármacos (68,1%). As queixas são de maus tratos físicos (30,7%) e psíquicos (32,2%).

Duas conclusões ainda de acordo com o artigo publicado ontem no DN:
- “a violência física é sobretudo vivida no agregado familiar
- o álcool surge como potenciador e multiplicador dos actos de violência” (1/3 dos agressores é alcoólico).

Apesar da faixa etária predominante ser dos 36 aos 45, a faixa entre os 26 e os 35 é também significativa. Aparentemente, a explicação para os agressores e vítimas mais jovens poderá relacionar-se com “desavenças de ordem social, com comprotamentos agressivos e ciúmes”, sendo que “as mulheres desta faixa etária estão mais informadas sobre este tipo de crime e não toleram as agressões”. Abençoadas… penso eu.

Consideremos que estes números estão longe da realidade, pelo menos, por duas ordens de razões: há vítimas podem não se ter queixado; há vítimas que podem ter-se queixado directamente às autoridades (PSP, GNR).

A violência doméstica não é um fenómeno nem novo nem nacional.
Mas é um fenómeno que afecta gritantemente as mulheres.
Há um homem em cada 20 vítimas de violência doméstica, na Europa, de acordo com um estudo do Eurostat. Mais, uma em cada cinco mulheres já foi, pelo menos uma vez, vítima de agressões por parte do companheiro ou marido.

Fico-me por aqui, realçando que a violência doméstica é considerada crime público.
E interrogando-me sobre as crianças afectadas por este meio familiar - quando ambos os pais são agressores, quando vêm o pai a agredir a mãe… Mas fica para outra altura.

Por ora, afirmaria ainda que a violência doméstica é a principal causa de morte e de invalidez das mulheres entre os 16 e os 44 anos (sim, mais que os acidentes de viação ou o cancro).

E recomendo uma olhadela no II Plano Nacional contra a Violência doméstica (2003-2006)
http://www.portugal.gov.pt/NR/rdonlyres/585D7521-A65F-4A05-8124-55BCA0DB5B88/0/PNCVDfinal.pdf


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2 respostas para “violência doméstica - ou o triste adágio”

12 02 2005
Paulo Lopes (10:44:00) :

Triste fenómeno este… ;-(. E se pensarmos - nem quero pensar - que os casos denúnciados são a ponta do iceberg… porque é que a violência gratuíta parece ser forma de resolver problemas para algumas pessoas? E eu quase que encaixo no perfil do agressor (glup!) Deveriam existir tribunais para julgar celeremente estes casos. Enquanto se julga e não, o clima de terror da vítima eterniza-se e o sofrimento também. E há os filhos… ;-(

12 02 2005
LN (12:00:00) :

Triste fenómeno, sim. Do terror do mais bruto.

“E eu quase que encaixo no perfil do agressor (glup!)”
Acho que quase todos encaixamos num e ou noutro.
A questão é não estar no perfil, mesmo com um traço comum ao perfil-tipo.
;-)

Acho que existem uma série de estereotipos, que até são ditos a brincar ou de forma jocosa, mas que induzem a violência: como acreditar que o ciúme e a agressão são sinais de amor (perverso) ou de que «se importa»…
Lembro aquele livro a propósito de «amores que matam».

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