insistindo em não se considerar…

13 02 2005
“Parado e atento à raiva do silêncio,
num relógio partido e gasto pelo tempo,
estava um velho sentado num banco de um jardim,
a recordar fragmentos do passado”
Mafalda Veiga, Velho

Parece-me claro que estamos perante uma sociedade envelhecida… que insiste em não se considerar como tal nem em gerir as perspectivas do futuro.

Em 2005 a população idosa representa 1/3 da população total (dados do INE).
Em Portugal, os idosos representarão (em 2010) cerca de 18% da poopulação. Não será prec
iso dizer que os idosos têm mais de 65 anos…

Insistimos em não considerar…

Nós, gente (provavelmente, cada um e todos nós) com projecto de vida limitado à “vida produtiva” que exclui o envelhecimento. Gente que corre para o trabalho, com poucas actividades e lazeres paralelos, com escassos laços de amizade…

Assiste-se, todos os dias, à discriminação dos idosos a nível social e familiar. Acresce que as situações socio-económicas precárias não ajudam a envelhecer de forma saudável.
Mas o idoso não é um ser passivo, sem autonomia, sem «utilidade».
Nem devemos associar sistematicamente velhice a doença. Até parece que nos esquecemos que o envelhecimento é um processo natural - e invalidamos idosos saudáveis, sobretudo nas (grandes) cidades…

E o que sabemos do assunto? Ainda não se aposta (ou aposta-se pouco) na formação de especialistas em Gerontologia e Geriatria!

Mas podemos todos (e é nossa responsabilidade) ajudar os idosos a reconstruir ou a preservar a sua identidade, incentivar a participar em actividades sociais (adequadas às expectativas e limitações). Ah.. conhecem decerto o slogan de “não basta acrecentar anos à vida é preciso acrescentar vida aos anos” . Diria que não basta aumentar a esperança de vida, é preciso aumentar o projecto pessoal e social de esperança no envelhecimento. Porque envelhecer é natural, pode ser saudável e é O QUE nos espera a todos se…

Hoje, pensemos nisso!


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4 respostas para “insistindo em não se considerar…”

13 02 2005
Holocenico (15:44:00) :

A desvalorização da velhice é um processo histórico recente, que vai acompanhado da doentia hipervalorização do corpo, da virilidade juvenil, do que é fugaz e momentâneo, das crises de identidade (de memória).
A velhice sinónimo de experiência, de sabedoria, de ponderação, é monesprezada por uma sociedade cada vez mais dominada pelo imediato.
Mas perante esta vertingem actual, a memória do velho é uma reserva de humanidade. Não é por acaso que a sociedade actual, paradoxalmente, inventou e consome cada vez mais património.

13 02 2005
Anonymous (20:47:00) :

“ Não devemos associar sistematicamente velhice a doença” - Posso concordar com esta tua expressão. Mas, apetece-me dizer que não devemos mesmo estabelecer essa associação ainda que a perda da homeostasia seja mais frequente à medida que a idade avança, facto é que temos cada vez mais idosos de boa saúde física e mental.
É verdade que temos muitos dependentes da indústria farmacêuticas, mas se quisermos “olhar sobre o ombro” à tua maneira, constatamos que cada vez mais cedo os indivíduos ficam dependentes da indústria farmacêutica. A pretexto da prevenção, inicia-se na barriga da mãe a toma do cálcio e das vitaminas, continuamos na infância e, se na juventude tomamos menos drogas com receita médica, tomamos mais sem ela, desde os anabolizantes para ficarmos fortes aos cosméticos para ficarmos lindos/as, depois passamos à terapêutica de substituição, ao viagra, ao combate ao colesterol, à prevenção das doenças cardíacas…
Eu diria que nós hipotecamos o orçamento familiar e a saúde, primeiro alimentando-nos com abastança, depois corrigindo com terapêutica o que estragamos a comer.
Louise L. Hay, escreve que a indústria Farmacêutica condiciona a sociedade criando cada vez mais medicamentos e aditivos alimentares e que, através de métodos agressivos de publicidade cria nos consumidores necessidades até há pouco impensáveis.
Também relativamente à terceira idade ela diz que é a sociedade que condiciona o velho para a doença. Quando abre uma residência para idosos, a publicidade informa logo que há apoio médico e de enfermagem, de fisioterapia… (enfim podem estar doentes à vontade), são raros os casos que informa que há ginásio, sala de baile, cabeleireiro ou circuito de manutenção. Esta informação sim, pode condicionarmos de alguma forma para uma velhice saudável. E, se é verdade que parar é morrer, então porque paramos logo que deixamos a correria para o trabalho?
Eu acredito que hoje em Portugal já algumas instituições têm esta filosofia subjacente e os velhos, ainda que com grandes críticas por partes dos adultos jovens, lá se vão divertindo e até alguns deles casando, numa idade que os familiares e a comunidade se apressa a recriminar.
Contudo acredito que nem só do laser vive o homem, parece-me importante que o idoso (> de 65 anos), tenha um projecto de vida que o faça sentir-se útil, porque não como tu sugeres em actividades sociais.

Beijinhos VC

13 02 2005
homoclinica (21:43:00) :

primeiro, com o aumento da idade da reforma que se preparam para fazer, concerteza não vamos ter assim tantos tempos livres a ocupar, depois,

14 02 2005
LN (20:22:00) :

Holocenico,concordo claro.
Também me parece que a “desvalorização” da velhice é necessariamente acompanhada da “desvalorização” do vivido e do passado, das raízes e dos percursos (ainda que recentes).
O «descartável» e o «agora» fazem-se acompanhar de ignorância sobre o ontem. E põ mesmo em causa a identidade por via do esquecido.

VC, pedi e vou mesmo transcrever e colocar em post que há uns pedaços deliciosos…

Homoclinica, depois…? O tempo de aposentação?
Tempos livres há sempre: se os transformamos em lazer ou em ócio, em trabalho ou noutra qualquer coisa, enfim :-)

Conheço alguém que diz que reformar é formar outra vez. Gosta da ideia (se lá chegarmos…).

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