Sofrimento é um conceito amplo, que inclui e considera diversas formas, do psicológico ao moral, ao existencial, passando pelo físico (a dor), entre outras.
Nunca é fácil falar de sofrimento. Vivê-lo é intransmissível. Partilhá-lo compassivamente é tarefa de aprendizagem para uma vida. A ajuda ao Outro torna-nos mais humanos e recontextualiza os nossos próprios valores (também por isso, ser enfermeiro é uma forma de realização humana particularmente rica para a própria identidade).
Mas não deixa de ser verdade que as dificuldades em lidar com as situações de sofrimento e de morte têm de ser geridas no quadro do desenvolvimento pessoal de cada um - de si ao seu interior e de si para o Outro. Agir face a uma pessoa que sofre exige singular atenção a este movimento para o Outro, de modo a não abandonar a pessoa ao desespero ou à angústia nem se abandonar a si mesmo…
Noto que a afectividade dirigida ao Outro não se dá num horizonte teórico mas sim na experiência a partir das vivências afectivas.
Parece que estou a dizer a mesma coisa?
Não, vivência é aquilo que nos acontece; a experiência é o que reflectimos e aprendemos com o que nos acontece. Haverá gente com muitas vivências subjectivas mas com pouca experiência (que decorre de conhecimento adquirido a partir do vivido).
É análogo à idade - haverá quem tenha quarenta anos por ter duas vezes vinte. A questão não é meramente cronológica - não basta ter passado tempo; é preciso que esse tempo seja reflectido e integrado no percurso.
E percursos humanos comportam sempre, aqui ou além, trajectórias de sofrimento.





Sempre tive o maior respeito por quem lida com o sofrimento( quem o tem e quem ajuda). Há uns anos atras adoptei uma criança, nas entrevistas que me fizeram, perguntaram-me pelos meus gostos acerca do individuo a adoptar, sorri e disse que só tinha dificuldade em lidar com a doença, por isso bastava que fosse saudável. meses depois de ter o meu filho em casa lidei com uma siflis que ele teve á nascença e que tinha sido mal curada..ele levou as quatro injecções de pinicilina por dias, numa atitude de heroi, que me perdoe o Papa, nem lhe chega aos calcanhares. SAinda hoje recordo sofrimento de acordar uma criança às 2 da manha para levar a injecção e o seu choro continua a retinar nos meus ouvidos….continuo com essa gfraqueza, mas aprendi a lidar com ela…porque tb me lembro que cinco minutos após a dor da injecção o Diogo dava-me aquele sorriso que até as lágrimas me vinham aos olhos.
PS: (salve seja) desculpe o desabafo mas o meu Diogo merecia esta pequena homenagem
o pai dele é o maior fã que ele alguma vez terá
As crianças têm (muitas delas) uma notável resiliência - uma inestimável capacidade de integrar e de superar a adversidade e o sofrimento.
A sua partilha é um exemplo curioso de como se tem de lidar com algo que não se desajva e como tal experiência reverte em desenvolvimento e em ganho pessoal…
” Partilhá-lo compassivamente é tarefa de aprendizagem para uma vida.”
Concordo. Acontece também a muitas outras coisas, sabedoria, a maturidade científica, a verdadeira cultura.
Só é perigoso é entender isto (coisa que sei que a LN não faz) como sendo impossível ou improfícuo educar para a compassividade. Educar, neste caso, a meu ver, não é ensinar, porque é coisa que não se ensina.
A generalidade das nossas escolas médicas e de enfermagem educam para a compassividade?
Será que todos nós fomos educados para lidar com o sofrimento? E como é que educamos os nossos filhos neste sentido?
No intuito (tido como o mais correcto do ponto de vista dos afectos)de os protegermos, de os deixar crescer felizes, enfim, com a melhor das intenções, como é que os preparamos, tanto para lidar com o seu próprio sofrimento, como para apoiar os outros? Deixem-me reforçar a mais valia da partilha do ponto de vista do aprender.
Um tema importante cara amiga.
E vale a pena, nesta e noutras áreas, distinguir as vivências da experiência…
Fique descansado JVC.
Não sei se todas as escolas médicas e de enfermagem educam para a compassividade - aliás, nem sei se todos os cursos de enfermagem funcionam em escolas…
Mas há muitos professores preocupados com a aprendizagem dos alunos nessa área e, sobretudo, os estudantes estão preocupados com isso e querem aprender.
(P.S.: veja-se, p.e. a iniciativa dos estudantes de diversas áreas da saúde de que dei notícia no meu bloque a 22 de Janeiro).
Eu tenho esperança nos futuros colegas.
JVC, não se ensina realmente - da mesma forma que só se ajuda quem quer ser ajudado a formar-SE.
Mas pode ser aprendido…. ou seja, julgo que existem formas de promover, de valorizar - e a melhor delas parece-me ser o exemplo (dos professores, dos profissionais de referência).
Valeria de pouco falar em cuidadado compassivo se não pudesse ser demonstrado
(apetecia-me usar a ideia etimológica de «revelado» pela acção). E mais do que pelo discurso, os alunos aprendem pelo exemplo de referência, mais se esta aprendizagem fôr positivamente reforçada.
Ser “tarefa de uma vida” supõe desenvolvimento e aperfeiçoamento no tempo, como com a sabedoria, com a doçura (que às vezes só o tempo e as experiências trazem) e traz aquela enorme dose de humildade face à singularidade de cada um.
A pergunta:
“A generalidade das nossas escolas médicas e de enfermagem educam para a compassividade?”
- deixa a possibilidade de algumas «não» (daí, a generalidade, e não «todas»).
- junta duas formações com traços de perfil um pouco diferentes nessa relação ao Outro (pois, acho que a educação em enfermagem é mais sensível aos aspectos do estabelecimento de relação…
- a ambas faria muita falta desenvolver essa linha de suporte compassivo
- posto estas primeiras permissas,
“a generalidade das nossas escolas médicas e de enfermagem” não educam directamente para a compassividade. Não apenas pelo que exige mas também porque há valores que levam gerações a desenvolver-se.
Julgo (e ah, com subjectividade evidente) que caminhamos para lá, tanto pelos enfoques nos cuidados geriátricos, como paliativos, como pela noção de que tratar e curar não é tudo (nem pouco mais ou menos).
E, claro… lá me alonguei…

Dina… que perguntas dificeís. Ou melhor, que projecção para o exemplo dos pais.
Reforço o sentido de que os exemplos são relevantes, a educação pelos afectos há-de englobar, algures, os aspectos do sofrimento.
E a tendência de fechar-se ao sofrimento pode ser uma enorme perda para o próprio, que se impede das experiências que poderiam ajudar a desenvolver-se.
A partilha é sempre uma mais valia…. quer se trate do narrado (uma espécie de histórias de vida, a entrar aqui), quer se trate do vivido-que-se-narra.
E é diferente, não é?!
Marvi, também acho que o tema é relevante e que vale a pena distinguir coisas (até para evitar equívocos)
Já que estamos em maré de distinções, também distinguiria a ideia da «experiência fundadora» e da «experiência formadora»… numa próxima entrada!
Inteiramente de acordo com a resposta da LN ao meu comentário. Já esperava.
JVC, não percebo bem o que esperava: se o comentário, se estar de acordo com… (risos)