Hoje, queria fazer uma entrada pequenina, com uma espécie de pontos assinaláveis.
Do género:
assinalam-se hoje as efemérides do nascimento de Antonio Oliveira Salazar (1889) e da execução de Benito Mussolini (1945) .
Ou do género: assinalase que está disponível o Trends IV
http://www.eua.be/eua/jsp/en/upload/TrendsIV_final.1114509452430.pdf
(obrigada, JVC).
Na realidade, continuo a pensar que um em cada três portugueses sofre de distúrbios mentais.
Distúrbio mental, em lato senso, é aqui considerado do foro psiquiátrico ou neurológico.
O Conselho Europeu das Doenças Cerebrais analisou a prevalência e o impacto económico das chamadas 12 «doenças do cérebro» mais vulgares, em 28 países (os 25 + Islândia, Noruega e Suíça).
Conclusão relevante: custos anuais de 6,6 mil milhões de euros em cuidados de saúde e absentismo no trabalho.
Portugal ocupa o 12º lugar na prevalência das doenças do foro psiquiátrico ou neurológico.
O conjunto das doenças atinge 2,9 milhões de pessoas, com principal incidência nos distúrbios de ansiedade, enxaquecas, desordens afectivas e dependências.
O distúrbio que ficou «mais caro» foi o relacionado com os desequilíbrios afectivos (depressões e esgotamentos), na ordem dos 1.738 milhões de euros, seguido da demência (1.083 milhões) e das dependências (881 milhões).
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=62&id_news=170170
Analogia grosseira: se duas pessoas estiverem consigo, um dos três tem distúrbio mental…





Hum… Também li esse artigo e fiquei mesmo preocupada. É caso para dizer: Mais Platão e menos Prozac.
Não diria isso
Mas este é claramente um problema de tipo macro, que já se anunciava. 
No final do século, percebia-se que os problemas mentais, sobretudo ligados à ansiedade/depressão e stresse, estavam a aumentar.
Por outro lado, o misticismo parece ter igualmente um aumento considerável, sobretudo se e quando associado a previsões de futuro ou a crenças extrasensoriais… não sei, pode ser que não haja ou haja pouca relação, mas que a cabeça das pessoas anda com dificuldades, lá isso… anda.
um dia bom.
É. Esta prevalência de doenças / desiquilíbrios do foro mental é preocupante e muito, muito difícil de combater, enquanto mantivermos este tipo de sociedade. Às vezes penso que as piores profecias de obras como O Admirável Mundo Novo de Huxley se começam gradualmente a concretizar… Por coincidência, ontem passei os olhos por um poema apocalíptico que dizia isto:
Already, everywhere,
The speed-up, the ‘church work,’ the lead poisoning,
The strain that drives men nuts.
The art of teaching fish by slow degrees
To live without water.
Men cheaper than safety
–Human relations have never sunk so low.
‘The meaningless of the individual
Apart from his communal framewok,’
The men in power who are worth no more
Than an equal number of cockroaches,
Unconcerned about values,
Indifferent to human quality
Or jealous and implacably hostile to it,
Full of the tyranny of coarse minds and degraded souls;
[...]
It is unlikely that man will develop into anything higher
Unless he desires to and is prepared to pay the cost.
Otherwise we shall go the way of the dodo and the kiwi.
Already that process seems far advanced.
Genius is becoming rarer,
Our bodies a little weaker in each generation,
Culture is slowly declining,
Mankind is returning to barbarism
And will finally become extinct.
Hugh MacDiarmid, In Memoriam James Joyce (1955)
Sounds familiar? ;o)
DK, que tentação (pegar no poema e levá-lo para cima, para o “hall de entrada” - considerando metaforicamente que os comentários criam as divisões interiores
- posso?).
Estamos a arranjar maneira, nós mesmos, em colectivo, de fazer cumprir algumas visões apocalipticas…
Sempre me intrigou (e é do domínio do esperado) que a literatura de ficção comece ou tenha algures uma “hecatombe” associada, seja física, política ou biológica…
Claro que pode, LN. :o)
A propósito dessas “hecatombes” ficcionais, recomendo vivamente um livrinho muito interessante de Frank Kermode, intitulado The Sense of an Ending. Mais informação aqui.
Estou sempre a aprender e fiquei surpreendido: o dobro de gastos com perturbações afectivas do que com dependências (num país de tão alta taxa de alcoolismo). As perturbaçõe afectivas, pelo menos as de carácter psicótico, têm base genética, mas é consensual que o seu desencadeamento é, muitas vezes, por choques psíquicos ou stress.
Como já confessei, para fins de solidariedade e ajuda pública, vivi um período terrível de stress profissional e pessoal. Reagi com uma depressão, mas as causas passaram e a depressão ficou, estabelecida. Com um comprimido por dia, faço hoje uma vida entusiasmada, muito activa, sem qualquer sintoma de depressão. Mas acho que também contribui muito para isto o meu estilo de vida, relaxado, com tempo para exercício físico, com hobbies, com o relaxamento do meu jardim. Aqui fica o conselho aos depressivos: o combate é principalmente nosso, pessoal.
Estamos perante um problema civilizacional e a necessidade de qualidade de vida.
Um em cada 3?! Caí da cadeira com essa informação… :-O
Coloquei, DK.
E escolhi uma imagem metaforicamente significativa
Vou ver do livro, naturalmente.
Obrigada.
JVC, também reparei nos custos
A ansiedade, stresse e depressão parecem ter aumentado bastante…
e muitas das perturbações afectivas poderão ser, realmente, as de carácter reactivo (designadamente, as depressões).
Palpites…
Interroguei-me sobre a (in)delicadeza da analogia.
Mas olho à volta e sabendo que as perturbações podem ser psicopatológicas, psiquiátricas e neurológicas, julgo que sim… que é mesmo!
O resultado do estudo, no global, cruzando faixas etárias, podia-nos pôr a pensar (a maioria entre os 18 e os 65 anos)…
Factos são factos.
Não sei como se comporta individualmente cada um dos 3 grupos de doenças referidas, mas no que se refere às doenças psicopatológicas e psiquiátricas penso que está a acontecer um fenómeno de ausência de viver ou negação do “dark side” de cada um. Penso que temos que assumir (interiormente)na nossa vida o que somos, as nossas grandezas e misérias, e sobretudo viver a vida menos afastados da sua componente natural. Ou seja, hoje não se vive o luto, não se morre com os que nos amam, não se pode estar triste, cultiva-se uma ideia de bem estar individual e social que é capaz de não deixar que vivamos plenamente a nossa natureza humana. E sobretudo não conversamos uns com os outros e vivemos muito programados.
Victor Victor
OK, VV, “às doenças psicopatológicas e psiquiátricas penso que está a acontecer um fenómeno de ausência de viver ou negação do “dark side” de cada um.”
Ou será (também) a inversa?
Ou seja, gente excessivamente centrada no seus «dark’s», nas suas infelicidades…
Não sou apologista do sacrifício e da renúncia pessoal, note-se - nada dissoe bem longe
Mas julgo que uma componente importante de distúrbio tem fonte social, advem da ausência de filiação, de envolvimento com os outros, de solidariedade activa…
Nesta altura lembro-me sempre de que a ocupação com os outros e a preocupação altruísta reduz as possibilidades de auto-apiedar-se.
Saltou a «costela» da especialidade em Saúde Mental e Psiquiátrica.
Concordo com o que não se vive, que descreve. Nem luto, nem perdas, nem projecto de mortre, nem fragilidade…
Todavia, isso é vivência também decorrente de um dentro e fora de si, de uma matriz social de ocultação em algumas coisas (e de desocultação excessiva noutras…).
Interrogo-me se a excessiva viragem individualista não é elevadamente patológica, em si mesma…
É uma perspectiva interessante haver gente demasiado centrada nos seus “dark’s”, mas eu separava as águas:
i) por um lado, a solidão, sem ser no sentido de “falta de companhia” mas de falta de partilha da vida com os outros, sendo que nessa partilha se calhar nos “confirmamos” e relativizamos os nossos problemas;
ii) por outro lado, um outro fenómeno que me faz lembrar sempre uma “moda” vivida num espírito de pós-modernidade… (um tema giro para pensar… a pós-modernidade);
iii) por fim, num terceiro grupo, as pessoas que viveram a vida toda para os outros, para os maridos, para os filhos, para as mães, enfim, e que não cultivaram a sua própria vida num alheamento de si mesmos e resultando num déficit de conhecimento interior.
A solidariedade e um certo altruísmo parecem-me muito importantes, não para evitar directamente o aparecimento destes distúrbios mas para fortalecer a construção interior de cada um.
O que também me parece é que esses caminhos muitas vezes são feitos mais como cura/reabilitação do que como promoção/prevenção.
Victor Victor
… Esqueci-me do principal e não posso deixar de sublinhar que nenhum de nós está livre de um dia acordar muito triste. Há uma linha muito fininha a separar os “lados” e quando estamos “do lado de cá” não podemos fazer juízos de valor sobre estas coisas e há apenas que tentar compreender os fenómenos que estão a acontecer.
Victor Victor
VV, concordo com os três iii
e continuo a destacar o elevado individualismo isolacionista da sociedade actual e os seus perigos.
E, no geral, sou partidária da prevenção, do acautelar antes de… até porque, «casa arrombada, trancas na porta» me parece muito habitual. Gosto do «mais vale prevenir, que remediar» ainda que se trabalhe muito mais no «remediar»…
As linhas são ténues, sempre ou quase sempre. E no que toca a estados de alma, é diferente um «estado de espírito» hoje muito triste ou uma disposição mantida de tristeza e desalento.
Relevo para a fragilidade das fronteiras, definitivamente…
Doenças do foro neurológico? (abedê, abedê, abedê) Não me parece.
Acho que tu se resume - abedê, abedê, abedê - à questão central, diria mesmo existencial, a saber: como é possível barrar uma torrada com manteiga, quando a faca está suja de manteiga de amendoim?
É possível barrar uma torrada com manteiga mesmo com a faca suja de manteiga de amendoim: basta retirar o amendoim.
Agora que esta questão fulcral foi resolvida, coloco outra: como é possível passear em calçada sem corrermos o risco de escorregar?
De «As espantosas aventuras de K & C» chega o estranho «abedê» (que salta o cê) e uma pergunta existencial só justificável caso tenha uma especial predilecção por manteiga de amendoim…
Das três uma:
- ou descobre a solução por tentativa e erro,
- ou procura estudos de investigação que tenham resultados válidos e relevantes,
- ou come tal e qual conforme fica barrado.
Só uma coisa: no «conversamos» nenhuma solução é fácil e, na maior parte das vezes, não há uma ou A solução…
e boas vindas, claro
“como é possível passear em calçada sem corrermos o risco de escorregar?”
qual é o grau de inclinação da calçada? choveu recentemente? qual o grau de humidade do ar? qual o tempo de desgaste das pedras? aliás, de que pedras se trata? qual o intervalo entre as pedras? porque é que vai descer ou subir a calçada? já agora, é o único caminho? costuma ter insónias? que roupa tem vestida?
enfimn, para responder, teria de saber a resposta a estas e outras perguntas pertinentes