em situação-limite

2 06 2005

SINDICATO DOS ENFERMEIROS PORTUGUESES
CONVOCA GREVE NACIONAL PARA 29 DE JUNHO

Reproduzo excertos da Nota à Comunicação Social

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses analisou, em Conselho Nacional, as medidas anunciadas pelo Governo para a Administração Pública e, pelas implicações que tem para todos os enfermeiros e decidiu decretar um dia de greve nacional de enfermeiros, caso o Governo mantenha a sua posição de alterar as condições de aposentação destes profissionais.

…o cenário económico do país, anunciado pelo Primeiro-ministro é preocupante mas não pode admitir que, mais uma vez, sejam os trabalhadores da administração pública e concretamente também os enfermeiros, a pagarem uma factura que, em primeira análise só se deve às más politicas de gestão dos sucessivos governos que têm gerido o país…

… na linha do que vinha sendo feito pelo governo anterior, mais uma vez se tente diabolizar o papel dos funcionários públicos, procurando atribuir-lhes a responsabilidade pelas deficiências de funcionamento…

… o Primeiro Ministro tenha sido tão objectivo e rápido em definir medidas anunciadas para a Administração Pública, nomeadamente, aumento do tempo para a aposentação e corte nas progressões nas carreiras dos trabalhadores, sabendo que não resolvem o defice quando, segundo a Direcção Geral de Contribuições e Impostos, existem nos tribunais 3 milhões de processos, por fuga ao pagamento de impostos, à espera de resolução que se traduziria em cerca de 15 mil milhões de euros arrecadados para os cofres do Estado ou ainda, que existem cerca de 11,4 mil milhões de Euros em processos identificados, de impostos não cobrados.

Esta questão é tanto mais grave porquanto no debate mensal na Assembleia da República, o Primeiro Ministro anunciou que faltavam 5, 5 mil milhões de euros para que se cumprisse o défice de 2,9% previsto no Orçamento de Estado para 2005. Bastaria ao Governo executar a cobrança de metade das dividas identificadas para existir défice zero!


Não sei se é do domínio público mas a greve dos enfermeiros não coloca em causa os cuidados a prestar às pessoas nem os serviços hospitalares deixam de funcionar por causa disso. Definem-se os chamados «serviços mínimos» e as pessoas trabalham.
Ademais, o desempenho da sua função é tão importante que eu continuo a pensar que os outros sectores todos da administração pública deviam fazer greve por eles - o que nem seria inaugural na Europa (mas, enfim, ainda me acusam a sério de andar por outra galáxia…).

Quanto à questão da fuga aos impostos - só apetece dizer “haja moralidade! meus senhores…”

Irá a greve adiante? (pois, está lá um “caso o Governo…”)
Este é um aviso de greve, uma pré-”chamada às armas”! E, na verdade, na ausência de outros e mais recursos, é o meio que resta. Como bem sabemos.


Acções

Informação

9 respostas para “em situação-limite”

2 06 2005
Anonymous (20:01:00) :

Fico na dúvida com a greve.
Dos comentários de greves anteriores, ou o enfermeiro trabalha imenso, a assegurar o turno, e recebe o salário dos «cuidados mínimos» ou fica mesmo de greve e perde uma soma considerável de dinheiro.
Mas não tenho dúvidas que, caso a medida vá avante, muitos enfermeiros procurarão as reformas antecipadas. Até porque a profissão não tem subsídios de risco ou de penosidade.

ES

2 06 2005
Anonymous (20:49:00) :

Penso que para além da luta política que a greve tem implícita, devemos também aproveitar esse acontecimento para reflectir sobre o que é a enfermagem.

Sempre que se fala em greve na enfermagem fico com dúvidas sobre o que são os cuidados mínimos. Digo isto porque normalmente os cuidados de higiene e conforto, alimentação, mobilização, étc, são aqueles que os enfermeiros excluem de imediato dos cuidados mínimos, ficando assegurada a medicação e pouco mais. Uns, por questões de consciência, vão “lavar” alguns doentes mas de uma forma (ainda) mais apressada para abreviar o gesto que é em si já excessivo. Afinal, a decisão do que são cuidados mínimos depende da consciência de cada um? Da concepção que cada um tem de Enfermagem? De que necessidades do doente? Necessidades em “cuidados de enfermagem”? O que são então os “cuidados de enfermagem”? Só asseguramos uma parte do que é precrito pelo médico? Ou asseguramos uma parte do que são actividades autónomas de enfermagem?

Por outro lado, também me choca que os enfermeiros se mobilizem para a greve (apenas) para defender questões tão pouco abrangentes face ao papel social que a enfermagem reclama para si. Gostava de ver a classe de enfermagem mobilizada para acabar com as macas nos corredores das enfermarias, com os doentes completamente perdidos e sem receberem cuidados adequados às suas necessidades; isto entre tantos outros problemas que vivemos no nosso dia a dia.

Apesar de tudo, também farei greve. Mas estou disponível para fazer greve também pelas outras questões que se calhar só se resolvem quando um dia os enfermeiros chegarem aos serviços e se recusarem a trabalhar mal.

Victor Victor

2 06 2005
LN (21:49:00) :

ES, pois… o que poderei dizer? uma das dificuldades subjacentes à adesão é apontada como sendo a área financeira. Mas eu mantenho a dificuldade em enquadrar, até pela pouca frequência da greve. E porque não se pode ter tudo.

Aposentações… já andam pelos 500/ano, pelo que li. Se existe um «boom», vai ser complicado.

Um dos spots publicitários, para a opinião pública perceber a taxa de abandono da profissão, foi ter enchido uma escadaria de sapatos brancos, usados, e vazios… dos que se iam embora. Acho que a ideia foi bem compreendida…

2 06 2005
LN (21:54:00) :

E aproveitar para perceber o que são os cuidados de enfermagem, sim.
Do domínio dos mínimos.

Acho que, atentando bem, muitas actividades interdependentes se constituem como cuidados mínimos - por exemplo, toda e qualquer terapêutica, como bem assinala. E acerca da qual me interrogo.

Considero bem pertinente a pergunta sobre “que actividades autónomas asseguramos?”

Não gostava muito que os enfermeiros se recusassem a trabalhar, mas sim que trabalhassem o melhor possível.
E aí, veríamos se faltam ou não faltam enfermeiros :)

3 06 2005
Anonymous (07:42:00) :

Vou também pensar e partilhar convosco…
A vida de cada um de nós também se insere na trajectória do percurso colectivo. E, é na encruzlhada deste percurso que as opções individuais se colocam onde a adesão a uma greve, como expressão colectiva, se torna um acto de consciência individual. Daí decorre a importância fundamental da informação, do debate que contribui para a formulação da posição, minha, sua do outro e de todos.
Por isso aqui vai o que vou pensando sobre o contexto do pré-aviso da greve para o fim deste mês. Para mim há sempre três vertentes que me ajudam a tomar a decisão para aderir. 1)procurar entender o que está em causa em cada momento que uma organização sindical aponta para a realização de uma greve; 2)o que a greve pode permitir de afirmação da essência dos cuidados de enfermagem perante os cidadãos; o que com a greve se espera dos decisores percebam do que para os cuidados de saúde etá em causa porque os direitos dos enfermeiros estão relacionados com os seus deveres para com aqueles a quem prestam cuidados.
Nesta perspectiva o que está em causa na greve anunciada e o que penso dever ser o caminho a percorrer de agora até essa data?
Vejamos…O desgaste, físico e psíquico que a prática da prestação de cuidados de enfermagem implica está estudado é a possibilidade de optar por pôr termo a uma relação laboral pela via da reforma, a possibilidade de optar não é a melhor forma de evitar que nos arrastemos nos serviços sem as condições pessoais que garantam a necessária estabilidade para a relação com os outros que os cuidaods de enfermagem exigem? Haverá outras formas de ultrapassar esta situação? Haverá outras opções possíveis que se venham a presentar aos enfermeiros?
Penso que sim que deveriam ser pensadas outras opções mas também penso que só podem existir se formos capazes de repensar novas formas de organização de trabalho e de intercomunicabilidade entre os vários níveis de prestação de cuidados. Mas…isto não depende só dos enfermeiros, mas devemos contribuir para a sua construção. Seria bom que não abdicando da opção sobre a reforma como foi conquistada pudéssemos aproveitar este momento para pensar novas opções…Por exemplo poder desenvolver a actividade profissional de uma forma mais flexível em termos de horários, de local, de tipo de actividade valorizando a experiência e o saber que os mais velhos são portadores…
Penso que isto nos ajudaria a melhor pensrmos o nosso futuro individual e colectivo, a nossa responsabilidade profissional perante os cidadãos como os profissionais que nos cuidados de saúde têm como campo de intervenção específico o suporte aos cidadãos.
Já está muito longo, mas o pensamento é assim…sobre a realização da greve, os mínimos e o que esse momento pode ser de importante para nós e para os cidadãos partilharei o que vou pensando noutro momento.

3 06 2005
LN (18:55:00) :

Uma parte do comentário vou tomar a liberdade de passar para cima, em citação.
Parece-me incomentável, a não ser com acenos de cabeça (a dizer que sim).

Tr~es permissas para apoiar ou suportar a decisão, parecem-me bem estruturadas e compreensíveis.

o caminho a percorrer de agora até lá?
“deveriam ser pensadas outras opções mas também penso que só podem existir se formos capazes de repensar novas formas de organização de trabalho e de intercomunicabilidade entre os vários níveis de prestação de cuidados.”
E o universo da saúde não é só dos enfermeiros. Nem em termos profissionais, nem em termos do interesse social e por serem bem e interesse público.

Ficamos à espera do resto…
e obrigada pela reflexão escrita.
Pode sempre voltar-se a ela, pelo que ganha frente ao falado.

4 06 2005
Olivier Rameau (08:31:00) :

Caras/os bloguistas,

Tenho sérias dúvidas que esta greve aconteça e, caso aconteça, se faça sentir.

As enfermeiras portuguesas não têm consciência de classe e muito menos lideranças operacionais que consigam fazer a enfermeira média perceber o que está em causa.

Pena é que as estruturas que deveriam suportar e orientar a classe não consigam conjugar esforços e centrar-se nas verdadeiras questões.

Concordo com as opiniões já expressas, pelo que me dispenso de as reproduzir.

Há contudo um argumento que não foi ainda utilizado e em minha opinião ninguém lhe irá tocar!

E ninguém: enfermeiras, sindicatos e ordem, lhe tocará pelas melhores razões - como facilmente já se verificou noutras ocasiões.

Trata-se da segurança dos doentes que são cuidados pelas enfermeiras!!

É óbvio que quem pactua com o escandaloso pluriemprega que grassa na profissão, não pode agora vir argumentar que o enfermeiro não deveria prolongar a sua actividade profissional para além dos trinta ou trinta e cinco anos de actividade na prestação directa de cuidados!!

Com que moral o fariam directores de enfermagem que recrutam enfermeiras reformadas por salários de miséria para tapar furos na sua organização??

Com que moral o fariam as enfermeiras chefe que permitem que as equipas que dirigem sejam insuficientes (globalmente e em cada turno) para a prestação de cuidados de enfermagem aos doentes que estão internados na unidade que têm à sua responsabilidade??

Com que moral o fariam as enfermeiras que procuram avidamente mais “um gancho” para completar o vencimento, sem sequer pensarem que têm o dever de prestar cuidados nas melhores condições fisícas e psíquicas?? Como podem sequer pensar que findas doze horas de trabalho podem encetar ainda mais um turno de trabalho??

Com que moral o fariam os sindicatos que não conseguem garantir o respeito pelas condições de trabalho que em tempos fizeram aprovar??
Com que moral o fariam sindicatos cujos principais dirigentes têm enquanto directores de enfermagem comportamentos fortemente reprováveis em matérias de contratação e de respeito pela própria classe??

Com que moral o faria a Ordem dos Enfermeiros que convenientemente olha para lado e faz de conta que estas questões são da esfera de acção dos sindicatos??

E a salvaguarda dos doentes??
E a responsabilização dos enfermeiros que não cumprem o que está legislado??

Não vale a pena alongar-me mais!!!

É triste o panorama da enfermagem portuguesa!!

Já agora gostava que a anónima que pensa que existem outras formas de organização do trabalho das enfermeiras, nomeadamente em hospitais, nos desse umas pistas!

Por certo não está a pensar num esquema semelhante ao que acontece com os médicos que possuem uma estrutura de carreira que lhes permite trabalhar cada vez menos à medida que vão progredindo na carreira hospitalar?

Eu, apesar de tudo, farei greve no dia 29!!

Creio é que sendo necessário elucidar a população para os riscos que corre quando numa enfermaria a média de idades das enfermeiras que os cuida rondar os 55 anos - e eu estou certo que isso acontecerá frequentemente no futuro se a medida vingar, pois estes epifenómenos já agora acontecem, se bem que raramente - as grevistas não poderão usar o dia para irem às compras ou porem a convesa em dia!!

É urgente que a população que necessita dos cuidados das enfermeiras tome a sua defesa.

Só assim ganharemos a batalha!
Quanto à guerra, não desesperemos

Obrigado pela paciência LN e continue o óptimo trabalho que tem feito em prol da enfermagem!!

4 06 2005
LN (11:42:00) :

Olivier, que bem me soube lê-lo. Se calhar, porque gosto de pensamento crítico, de «provocação» intelectual e existencial :)
Só não me parece que seja um triste panorama….Sobretudo, quando comparamos com o resto do mundo e com a dita Europa.
Volto mais logo, com um comentário demorado. Por ora, diria que a segurança das pessoas (doentes ou não) é o que mais importa, numa prestação de cuidados que se pretende e exige segura.

4 06 2005
LN (23:05:00) :

Olivier, cá estou para o tal prometido «comentário mais detalhado»…

A preocupação com a segurança das pessoas é, cada vez mais, palavra de ordem.
De tal modo que me parece muito pertinente deixar de se falar em «ratios enfermeiro/doente» e falar-se da «dotação necessária para cuidados seguros».
O que faz (muita) diferença… (ainda tenho de fazer uma entrada sobre isto…)

Gostei da sincopada pergunta em torno de “com que moral o fariam…?”
Na sua sequência, interroga a moral:
- dos directores de enfermagem
- das enfermeiras chefe
- das enfermeiras
- dos sindicatos
- da Ordem dos Enfermeiros.
E pára por aqui, interrogando sobre a salvaguarda dos doentes.
Apetece continuar a sua sequência…e perguntar pela moral para agir em contexto (e neste contexto) por parte
- das associações
(e completo, com os três tipos de organizações profissionais)
- dos professores e das escolas nas matérias que à profissão reportam
- dos políticos,
- da sociedade (e nós mesmos como cidadãos) como um todo.
E é na nossa sociedade, com todas as características peculiares (e universais) que isto se passa.

Até porque a baixíssima preocupação com a saúde e uma excessiva centralidade na doença hão-de prejudicar o futuro…

Perguntava (e este perguntar é de interrogar, de equacionar) pelos caminhos que podemos re-desenhar, atendendo ao mandato social da profissão e à autoregulação da profissão.
Na certeza porém de que ao levantar esta areia toda,
faz cada vez mais sentido ir além das interrogações e procurar pistas. É que só perguntar não basta.

É preciso mesmo encontrar “novas formas de organização de trabalho e de intercomunicabilidade entre os vários níveis de prestação de cuidados.”, como afirmava a comentadora anónima.
É igualmente preciso… coragem. Pois! Para afrontar o ramerame, o duplo e triplo emprego, a indignificação que nasce de dentro,…

E, se ela se mantiver, farei greve a 29 de Junho. Claro.

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