Pecados mortais dos estudantes – # 4 – desonestidade
(imagem do blog profetizamorta.blogspot.com)
1 – a preguiça intelectual
2 – a inveja
3 – a indiferença
4 – A desonestidade
Des-honestidade, nega a honestidade.
O que é honesto, é virtuoso, sério, digno, conforme à lei moral, à honra.
Gosto de probidade, aqui – porque ser honesto é ser probo, ou seja, de carácter íntegro.
Precisaríamos de uma palavra para designar a virtude que rege as relações com a verdade.
Vou seguir na pista de André Comte-Sponville, e usar a boa-fé. Como facto, a boa fé é “a conformidade dos atos e das palavras com a vida interior, ou desta consigo mesma. Como virtude, é o amor ou o respeito à verdade”.
Este «amor à verdade» é a virtude filosófica por excelência – colocar a verdade acima do poder ou honra, do sistema… Escreve Sponville, que o filósofo “prefere saber-se mau a fingir-se bom, e olhar de frente o desamor, quando ele se produzir, ou seu próprio egoísmo, quando ele reinar (quase sempre!), a se persuadir falsamente de ser amante ou generoso.”
Também me parece que o «amor à verdade» é virtude intelectual e traço de investigador, de quem estuda no sentido de procurar os caminhos mais conformes (seja à ciência, à politica, à ética, entre outras).
Quem é desonesto, não está «de boa fé».
E por não o estar e por agir em não-conformidade com faz-me trazer a justiça para aqui, também, e recordar que (com Tomás de Aquino), se pode ser injusto por se ser transgressor da lei, o vulgo «infractor», em que o critério é a des-conformidade com a lei, ou por se agir contra a igualdade (ou querer mais bens ou mais dos bens ou querer menos ou menos parte dos males).
Quem é desonesto, atenta à verdade e à justiça, eis a minha tese.
Por inúmeras razões que se reflectem numa intenção-base:
obter um resultado de sucesso que não lhe é devido.
E a «esperteza» (pois!) diz que resulta ser desonesto. Basta olhar em redor, os exemplos sociais, culturais e políticos (na condição de permanecerem incólumes). Por aqui, nos blogs, as queixas abundam.
E até parece que o conceito de honestidade intelectual se torna uma espécie de raridade atávica. Plagiar posts, agravado por nem sequer haver o cuidado de referenciar de onde vem. Trata-se, para usar uma palavra mais clara, de se apropriar de algo (texto, comentário, opinião) que não é seu, agindo como se fosse. Desonesta a apropriação, desonesta a re-exposição como seu. Roubo de base, para dizer cruamente.
Olhando o estudante, os «sítios» mais evidentes de desonestidade estão na produção de provas – e entendo aqui, a prova da aquisição de saberes e de competências, que se exibe tanto os exames como os trabalhos.
Os contornos eventuais (que não fiz nenhuma investigação aturada sobre o assunto) dos maiores focos de desonestidade intelectual parecem-me estar exactamente na área da demonstração do adquirido.
Diferenciaria levemente a cópia (copiar no teste) do plágio (reproduzir num trabalho). E diferenciaria entre revisão bibliográfica pura e construção de opinião com base na revisão.
Claro que inclui a utilização textual não referenciada (aquelas situações de que afirmo «caíram-lhe as aspas») usada extensamente e apropriada como se «fui eu quem pensou isto».
Tenho, da experiência vivida (que não é muita, reconheço) que os textos plagiados parecem «pasteurizados» ou «patchwork», uma «manta de retalhos», costurada com «copy-past». E nos meus casos identificados, foi «zero» no teste e negativa no trabalho, com uma conversa algo longa com o estudante encontrado em falta.
Não me parece poder existir a menor dúvida que a cópia e o plágio são desonestidade.
Um copia por outro. Um plagia de alguém. Este «Um» falta à verdade e à justiça. Mas julgo que é mais do que isso.
Diria que é espelho de outras possibilidades: do sentimento de incapacidade pessoal do estudante, da auto-mutilação das suas potencialidades, de um hábito que se enraíza e assume formas diversas no ciclo da vida pessoal…
Outro aspecto mesmo ao lado é a da existência de muitas formas e seduções para o plágio – Internet, exemplo paradigmático. E as variantes vão de reproduzir (copy-paste) textos encontrados em sites até sites que disponibilizam trabalhos académicos já prontinhos (eu mesma fiquei espantada com a quantidade de ofertas quando fiz busca com «trabalhos prontos») ou por encomenda. A ideia é simples: dois clicks, um trabalho….(acresce que há comentários de estudantes agradecidos com as classificações obtidas).
Há, naturalmente, outras formas de desonestidade activa e passiva do estudante.
Estas eram activas. Pactuar com, é passivo. E a permissividade custa menos esforço do que ajudar o Outro a desenvolver-se e a aprender.
E tanto me refiro ao colega estudante como ao professor.
É preciso cuidado com a inadimplência (palavra derivada de inadimplir, “não cumprir algo nos termos convencionados”) quanto aos aspectos disciplinares, que a permissividade também alimenta a improbidade.
Questões que me ficam (apesar da extensão do texto):
Que ferramentas à disposição dos estudantes para combater a tentação? e dos professores?
Interrogaria se que quando os professores pedem trabalhos com temas vagos e sem necessidade de opinião/argumentos do estudante, não estão a promover indirectamente. Se quando pedem 4 ou 5 trabalhos por mês, com algum porte, não podem estar também a ajudar a «cair em tentação». Penso que o desconfiómetro é insuficiente - diria que é fundamental orientar os trabalhos, premiar o pensamento autónomo e criativo, supervisar a realização e punir os casos detectados de forma dissuasora.
Conversamos?!

12/09/2005 at 8:31
Sobre este interessante tópico diria somente o seguinte. O que faz falta no nosso país, em particular nas instituições do ensino superior (IES), é o desenvolvimento de uma cultura que se traduza em padrões éticos elevados de trabalho académico que combatam sem hesitações comportamentos menos apropriados. Quantas IES conhecem que punem plágios e “copianços” por parte dos alunos de forma exemplar? Só conheço uma, a Universidade Lusófona. Quando há alguns anos, em pleno Conselho Pedagógico da instituição à qual pertenço, abordei o problema, o presidente então em exercício disse-me, com a maior das canduras, que a fraude académica já era devidamente punida porque, quando apanhado em flagrante, o aluno via a sua prova ser anulada…
Todavia, penso, igualmente, que salientar exclusivamente nos alunos as nossas atenções quanto à fraude académica nos desvia das fraudes operadas por professores que, não raras vezes, são aceites com uma complacência aterradora. Partilho apenas uma pequena história. Há 3 anos atrás participei num congresso em Oxford. Estava particularmente entusiasmado com o facto de ir passar uma semana numa das melhores universidades do mundo com o peso de toda a sua tradição e história. Um colega meu, assistente de uma faculdade do ensino superior pública, encontrava-se também inscrito no congresso. Todavia, ao contrário de mim, estava inconsolável porque uma semana antes, ao ultimar a sua comunicação, constatou que tinha havido um problema com os dados da investigação que iria apresentar. O problema era irresolúvel no curto prazo e chegou mesmo a pensar desistir da sua participação. Todavia, tendo já realizado uma série de despesas não reembolsáveis, decidiu deslocar-se a Oxford como mero participante. O que é interessante nesta história é que o seu orientador de mestrado e doutoramento não concordou com esta decisão, propondo, em alternativa, a apresentação de “dados plausíveis” na comunicação agendada. Ou seja, por outras palavras, propôs inventar dados e apresentá-los como verídicos…Felizmente, o meu colega resistiu à tentação e pura e simplesmente afirmou não pactuar com esta monstruosa proposta.
12/09/2005 at 17:52
Sobre o plágio, encontrei em tempos umas referências a software que é habitualmente utilizado em escolas americanas, cuja finalidade é filtrar os trabalhos escritos, bastando para tal exigir a sua entrega em suporte magnético para poder fazer o teste em poucos segundos. Não sei muitos detalhes sobre esta ferramenta, mas talvez pudesse ser desenvolvida e utilizada por cá.
No entanto, acontece também que muitas vezes é valorizado pelos professores o trabalho que se apoia excessivamente no que vem nos livros. O que acho errado e basta ler meia dúzia de trabalhos para encontrar citações directas e indirectas por todo o texto, sem análise e síntese de ideias. Os alunos não escolhem autores de acordo com ideias convergentes e/ou divergentes, nem relacionam obras; limitam-se a dizer que este disse isto, aquele disse aquilo… E pior que tudo, têm muita dificuldade em pôr em evidência a reflexão individual.
Penso que uma forma de ultrapassar estas dificuldades é complementar sempre que possível o trabalho escrito pela apresentação oral, sem ponto.
VV
12/09/2005 at 19:59
Existem muitos programas que detectam o plágio. Provavelmente o mais conhecido é o turnitin (http://www.turnitin.com/static/home.html).
12/09/2005 at 23:51
Concordo com a falta de “padrões éticos elevados de trabalho académico que combatam sem hesitações comportamentos menos apropriados” mas também uma pedagogia ética que suporte e ajude a estruturar padrões, princípios e calores.
Achei a história… ia escrever «execrável» numa perspectiva e «exemplar» noutra. Orientador a banir.
Orientado a dar reforço e a valorizar.
E mais,sejam lá quem forem…
Lamento imenso sempre que oiço histórias destas. Porque acredito que quem orienta ou ensina tem de se comportar de forma a poder ser seguido como exemplo, como referência – e isto, no sentido positivo. Porque os valores da ciência, no sentido mais básico, são da procura do conhecimento, de modo objectivo, e fiável.
Finalmente, terceiro «porque», a impunidade me incomoda. Mesmo.
13/09/2005 at 0:00
O PJ já afirmou – há software de detecção. E há também uma familiaridade dos professores com muitos textos (que reconhecem por ter lido..). Depois, o português «macarrónico» ajuda a identificar fontes brasileiras ou espanholas, por exemplo.
Se tenho dúvidas, também me acontece fazer uma busca rápida no Google com um excerto longo do texto…
Julgo que as referências dão suporte a uma argumentação – um trabalho não deve ser uma colagem de transcrições sem componente de reflexão/avaliação do próprio.
Por isso me parece que a «pausterização» se identifica e não devia ser premiada.
(também é verdade que não creio na neutralidade…)
Quando escolho (e é frequente) ambas as modalidades, costumo ponderar 40% uma e 60% outra (a produção escrita / a apresentação e discussão em sala), dependendo das disciplinas.
Também acontece escolher que os estudantes (sobretudo os do Complemento) apresentem primeiro o trabalho e seja discutido, e uma semana depois entreguem a produção escrita, rentabilizando o que aprenderam com a apresentação…
Depende dos objectivos e das competências envolvidas …