Da deliberação

23 06 2006

Examina então agora, e com grande atenção, se também tu partilhas as mesmas ideias que eu, se pensas aquilo que eu penso, e se, na nossa deliberação, devemos partir do princípio segundo o qual não há nunca justeza nem no cometimento da injustiça nem em responder com a injustiça à injustiça, nem, por se ser vítima de maus tratos, em responder com maus tratos; ou então se também tu te afastas deste princípio e não partilhas as minhas ideias
(Críton, 49d).
Trata-se de chegar a um acordo sobre um certo número de questões que se consideram importantes, moralmente salientes, com consequências futuras. Importa deliberar e investigar - pois, que a deliberação é uma espécie particular de investigação (assim o afirma Aristóteles, na Ética a Nicómaco).

As questões primordiais da deliberação são: o que fazer para obter um determinado resultado? Como o fazer?
O problema da deliberação – jurídica, ética, política… – foi, directa ou indirectamente, objecto de atenção de diversos autores. Mas os contornos da deliberação foram traçados por Aristóteles.

A deliberação, distintamente da decisão – relativamente à qual se podem formar teorias que
apresentam estruturas, a que se pode atribur conteúdos de múltiplas maneiras (como Nozick, por exemplo, faz) –, põe necessariamente em jogo a subjectividade. Por isso mesmo, o processo deliberativo só pode ser estudado se admitirmos a existência de um campo de “relações inter-pessoais comuns”, oposto às “atitudes objectivas” para com os seres humanos, para retomar uma distinção proposta por Strawson.

O conceito de deliberação inscreve-se numa cadeia conceptual que parte do desejo e da vontade – há quem lhe chame, hoje, “atitudes-pró” (é o caso de Davidson) – e se conclui com a escolha e a decisão. O objecto da escolha é o voluntariamente pré-deliberado e prévio ao levar a cabo a acção.

O processo que nos conduz da vontade à acção – e a questão da deliberação encontra-se no cerne da teoria da acção – é um processo de concretização do possível humano. Quer isto dizer que, para haver deliberação, é necessário que o desejo seja realizável, se enquadre dentro dos nossos possíveis (embora possa obviamente haver erro na avaliação dos possíveis). E a posição do desejo no início da cadeia é fundamental.
Não deliberamos, sem antes desejar um determinado fim.
Portanto, primeiro afirmamos um fim, e deliberamos sobre os meios próprios para atingir esse fim. Há, deste modo, um ponto de partida da deliberação mas que não faz parte dela - o fim não é objecto de deliberação: é afirmado pelo desejo e pela vontade, que continuam, de resto, a desempenhar um papel importante na deliberação e na acção.

Finda a deliberação, decidimos e (salvo uma sempre provável manifestação de fraqueza de vontade) agimos de acordo com a nossa escolha.

(imagem aqui)


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4 respostas para “Da deliberação”

24 06 2006
Anonymous (23:24:00) :

o o caminhar na vida é penoso,as rosas revestem-se de espinhos diáriamente.Nem sempre deliberamos acerca dos desejos verdadeiros,a subjectividade existe em todas as “coisas”.As oportunidades condicionam a sua fraqueza ou não

25 06 2006
Anonymous (13:35:00) :

Enquadrando-se num processo, deliberação é influenciada por diversos factores externos que podem condicionar as escolhas.Todavia, a gestão deste processo de deliberação é assumido por cada um, no uso da sua autonomia, exercendo a liberdade individual. São nossas, as escolhas!

SD

25 06 2006
LN (15:10:00) :

:) rosas e espinhos? pois, dependerá a perspectiva: posso lamentar porque as rosas têm espinhos, ou agradecer aos espinhos por terem rosas…

E se “Nem sempre deliberamos acerca dos desejos verdadeiros”, também é verdade que nos falta ou coragem ou força de vontade (daí, a tal sempre improvável fraqueza da vontade)…

Sim, vale estar atento ás oportunidades, diria eu à «ocasião favorável», pois nem todas o são. E um acto desencadeado cedo demais ou tarde demais, passa a ser, não apenas inoportuno como eventualmente desajustado

Mas coragem, sim? :)

25 06 2006
LN (15:19:00) :

SD, sim, é processo. As influências são externas e, também, internas - por exemplo, pela reflexão acerca da vivência das externas ou pelas influências dos vividos.
O exercício da autonomia é sempre, como diria Ortega y Gasset, enquadrado «pelo eu e pelas suas circunstâncias» ou, se preferires, de acordo com a situação, pois nenhuma faculdade humana - nem o livre arbítrio - é absoluta. E a deliberação supõe que equacione os processos.

Com todas as contingências e fragilidades, sim, cada escolha pertence - é - de quem escolhe.
Advogo que escolho ainda que escolha não escolher (a maioria dos meus estudantes de Ética reconheceria esta frase…)
:)

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