História e hermenêutica

29 06 2006

Sob o signo da alteridade e da diferença no tempo (como afirma Ricoeur) – sem o qual não é possível a reconfiguração do passado – é preciso ter em conta que pensar o que já-passou nos leva a respostas construídas, cumulativas, parciais, datadas, prováveis, e que cabe ao historiador procurar tornar o mais verossímel e convincente. Daí uma estreita ligação entre a história e a hermenêutica.

Já Droysen entendia que tanto a natureza quanto a história eram concepções geradas pela mente dos homens a partir da percepção empírica do mundo. Ou seja, o que faria com que se formasse, a partir do caos das percepções sensíveis do mundo empírico, a construção de um saber acumulado sobre o passado, era uma vontade do espírito. A história era, para Droysen, esta vontade, ou este querer atribuir sentido às coisas, fazendo com que a realidade se constituísse como um mundo moral, ou seja, qualificado, dotado de valor e significado.

Droysen estabelecia, assim, uma construção epistemológica para mostrar como a ciência da história era um resultado de percepções sensoriais, orgânicas, sobre o real. Era esta capacidade humana de atribuir sentido às coisas – formando, ao longo do tempo, a humanitas, ou a cultura – o real conteúdo da história.
Nesta medida, Droysen referia, explicitamente, as representações construídas pelo historiador e tratava as fontes ou registos do passado (material objectivamente imprescindível, quer enquanto fontes primárias, quer secundárias), como representações construídas num outro tempo, cabendo ao historiador, por seu turno, representar o já representado (portanto, o próprio material chega ao historiador como representação).

o historiador, diga-o ou não, impõe sempre o seu olhar, já que, para ele, encontrar um caminho para a memória equivale a traçar o seu relato preciso na espessura do esquecimento, essa multiplicidade informe e indefinida de relatos possíveis(Joseph Beaude).

(Mateus, Rembrandt)


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