(Thoughts, aqui)
Claro que aquele artigo tinha de chamar a atenção… a leitura e o debate.
Abominável universidade nova, assim se intitula.
E parece-me claro que ele põe um dedo na ferida, pois que “aquilo que se observa e fica marcado na nossa memória, convive depois com dificuldade com os discursos que depois se lêem por aí” (continuar a ler).
A mim, os termos do título evocaram Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (1931) – uma história futurista de uma sociedade, sob um sistema científico (genético) de castas, onde a vontade livre foi abolida através de um condicionamento metódico, se vive com doses regulares de felicidade quimicamente transmitida (por uma droga, chamada “Soma”) e onde as ideologias são propagandeadas em “cursos nocturnos” ministrados durante o sono.
A saga continuou com o Regresso ao Admirável Mundo Novo, em 1957 – “O abençoado intervalo entre a excessiva falta de ordem e o pesadelo da ordem em excesso não começou e não dá sinais de começar” (1957, p.16). Numa civilização de excessiva ordem, com um sistema que aliava controle genético a condicionamento mental, não havia espaço para questionamentos ou dúvidas, nem para os conflitos, pois os desejos e ansiedades eram controlados quimicamente, sempre no sentido de preservar a ordem dominante. A liberdade de escolha estava restrita a poucas matérias da vida.
Há quem encontre pontos convergentes com Matrix. Ainda assim, existe uma clara inversão: aqui, são os homens que estão sujeitos à dominação da máquina e são mantidos alheios a essa realidade.
Ainda me sorri, no filme, com a explicação de que a experiência de se evitar qualquer frustração nos seres humanos não tinha dado certo – e por isso fora criada uma nova Matrix, melhor elaborada pois incluía os problemas, as guerras, as falhas, as frustrações, as dores humanas.
Em Matrix e em Huxley todos vivem dentro de uma ordem estabelecida, apontam uma desumanização do ser humano, uma morte do indivíduo. Ambos têm em comum a dominação do espírito humano e a repressão ao subversivo como fundamental para a manutenção do tipo de mundo.
Do admirável mundo resta, pelo menos, o tom irónico. E a noção de que é vital interrogarmo-nos sobre o mundo à nossa volta.
Se e quando se evocam diferenças entre os escritos e os vividos, em formato de décalage gritante, resta desejar que se conserve a congruência e aceitar que as pessoas mudem o que pensam, no tempo.
Já agora, alguma lucidez sobre o real papel de cada um, que é muito mais do que o de observador ou de cronista.


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