Alea jacta est!

15 10 2006

Ontem, um amigo usou a expressão quando falávamos. Hoje, deixo aqui a história.

Júlio Cesar hesitava na travessia da torrente do Rubicão…supostamente quando Pompeu ordenou o regresso das suas legiões e proibiu a sua candidatura ao segundo cargo de cônsul. Terá murmurado, aproximando a cabeça de Asínio Polião:

— Renunciar a atravessar este rio fará minha desgraça, mas atravessá-lo fará, talvez, a desgraça da humanidade. Será preciso combater, legião contra legião, romanos contra romanos. Será preciso conduzir a guerra contra o Senado, contra Pompeu. Mas há alguma lei além da força? Como a Fortuna e a Vitória viriam a escolher um homem que renuncia à força?

Nas margens do Rubicão, envoltas em densa névoa, César terá saltado do carro e marchado rumo à pequena ponte que atravessava o rio. Perceber-se-iam, a alguns passos, a XIII legião, as bandeiras brilhantes sob o céu cinza.
— Agora, ainda podemos voltar atrás — murmurou —, mas, quando atravessarmos esta ponte, tudo deverá ordenar-se pelas armas.


Avançou rumo ao rio que se via através da névoa.
- Afinal - falou, levantando a cabeça para o alto —, só há um lance arriscado a jogar. Avante!
Ter-se-á voltado para os batalhões e clamado:
— Vamos onde nos chamam os sinais dos deuses e a injustiça de nossos inimigos! Alea jacta est!


“Alea jacta est”, “A sorte está lançada”, “The game is afoot” - afirmação de quem se recusou a obedecer às ordens e a ser eliminado da vida política.
O galope de César, à beira do Rubicão, é a imagem de um homem que sabe que tem de decidir, numa situação precária e difícil - e quando o fizer, será irreversível.
Fará o que puder, ainda que tal possa não ser determinante. Até por que o resultado «lhe sai da mão». Alea jacta est! A sorte está lançada.

Felizmente, há muitas coisas que não têm a ver com a «Alea».

(imagem: detalhe do desenho de M. Valantin)


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4 respostas para “Alea jacta est!”

15 10 2006
Anonymous (17:03:00) :

“Alea” era, tanto quanto consegui saber, o nome que os romanos davam aos dados, ou ao jogo dos dados. Vem-nos daqui o termo “aleatório”, algo que depende da sorte e que não podemos controlar.

15 10 2006
Nuno Costa (18:52:00) :

O que acontece, por vezes, é que coisas que julgamos dependerem do “alea”, não dependem assim tanto só do acaso… há que ir ao encontro da sorte e não esperar que ela nos bata à porta… ;)

16 10 2006
LN (07:36:00) :

JNA, há quem traduza por «os dados estão lançados», o que me recorda aquela fracção de tempo em que já atirámos os dados para cima da mesa e esperamos que eles acabem de rolar… um espaço que a Sorte dita. Ou, diriam outros, o Destino.
:)

16 10 2006
LN (07:37:00) :

Nuno, concordo que entregamos à Sorte “coisas” que nos pertencem a nós… pode até ser, qual a melhor palavra, confortável? :))
Mas é falacioso. Quer enquanto argumento quer enquanto modo de vida.
:)

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