
(Imagem sob o título «imagens politicamente incorrectas», no abrupto, com o texto: Um malvado turco ferido assassina um enfermeiro grego que o cuidava. No Le Petit Journal, o tablóide da época, em 17 de Novembro de 1912.)
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A partir daqui, ou derivamos para a questão turco-grego, ou, mais essencial, a da violência nos serviços de saúde.
Falava no assunto esta semana, com um grupo de colegas. E os números dizem qualquer coisa como: 50% dos profissionais já experimentaram, nos últimos 12 meses, um qualquer tipo de agressão; 60% das agressões acontecem nos centros de saúde. Os enfermeiros são as vítimas preferenciais. 40% da violência de que são alvo os profissionais de saúde é verbal.
Se pode evocar-se a violência nos serviços de urgência, ainda assim não é no contexto hospitalar que os estudos demonstram existir mais violência - é na comunidade, nos cuidados de saúde primários.
transcreve-se uma parte do texto do Plano Nacional de Saúde (2004-2010):
A violência no local de trabalho é reconhecida como um problema de particular relevância.
Existe uma elevada prevalência de actos violentos contra os profissionais de saúde, dos quais resultam perda de qualidade e baixa de produtividade.
A violência é mais frequente em centros de saúde do que em hospitais e, no contexto de ambulatório, para com os trabalhadores da área da saúde mental e para com os que fazem trabalho comunitário e ao domicílio.
A violência é mais frequente contra enfermeiros, pessoal administrativo e clínicos gerais.
Parece-me que um dos elementos fundamentais para ajuizar sobre o fenómeno, é que ele seja registado. Portanto, valorado. Ora do que julgo saber da realidade dos cuidados de saúde, em particular dos de enfermagem, muitos incidentes e acidentes de violência não são comunicados formalmente, nem registados. Alguns, inclusivé por receio de represálias posteriores.
Resta-me deixar nota da existência do Observatório da Violência Contra Profissionais de Saúde no Local de Trabalho, Sistema Nacional de Registo On-Line
O sistema de registo on-line dos episódios de violência contra profissionais de saúde no local de trabalho integra o sítio na internet da Direcção-Geral da Saúde e os dados são anónimos.
(para aceder, sugiro escrever, no campo da pesquisa, «violência»).
O sistema de registo procede à recolha de dois tipos de informação:
- Uma de cariz mais geral, breve com uma caracterização mínima do episódio de violência para efeitos de monitorização da evolução do problema;
- Outra de cariz complementar, com mais detalhe, para uma melhor caracterização da situação.
Se algum apelo aqui coubesse fazer, seria mesmo o de tirar do silêncio a violência nos locais de trabalho, seja ela verbal ou física, com contornos de agressão ou de assédio.





Olá.
Normalmente a violência nos serviços de saúde é reportada às relações entre os profissionais e os utilizadores dos serviços, mas a verdade é que há outras formas de violência que passam um pouco ao lado deste tema.
Estou a referir-me por exemplo à violência entre profissionais.
Tenho tido várias oportunidades de assistir e ter conhecimento de casos de violência, quer dentro do mesmo grupo profissional, quer entre indivíduos de grupos diferentes.
Ainda neste fim de semana fui vítima de uma dessas agressões, na medida em que faço parte da classe visada no comentário que estava a ser feito à frente de dois enfermeiros, e que não resisto a relatar:
(médica a falar para outra médica em voz alta, na presença de duas enfermeiras) - Não me obriguem a vir ver doentes com as visitas cá (doente em anúria há vários dias). Estão quê… até às 8? Da uma às 8H? Gostava de saber quem foram os idiotas que fizerem essa coisa do horário alargado… Uns idiotas!!! Ah! Devem ter sido os enfermeiros, só podem ter sido enfermeiros… Com essa paranóia do humanismo, e do humanismo para cá, e do humanismo para lá… Tanto humanismo, tanto humanismo! É humanismo para tudo e mais alguma coisa!… Báh!… Já os meus enfermeiros da Medicina se queixam…
Entretanto eu abalei da sala para não me irritar. Isto é uma espécie de “violência coorporativista”, que paradoxalmente está fora de moda mas é frequente.
Também entre profissionais da mesma área (por exemplo, enfermeiros) há uma espécie de violência, que pode alienar e frustrar, desmotivando os menos resilientes. São sobretudo de âmbito psicológico desencadeadas junto das chefias que, por não serem efectivamente líderes, as incorporam nas suas acções e decisões, prejudicando uns e beneficiando outros, de formas por vezes muito agressivas e injustas.
Entre médicos, à frente de doentes, já assisti a discussões com atitudes agressivas de humilhação, à boa maneira antiga.
Há ainda a violência dos profissionais para com as pessoas que, a dado momento da sua existência, precisam de ajuda de estranhos (nós, os profissionais) porque ficaram doentes. Essa é de todas a que mais me incomoda porque sei que existe, assume formas muito refinadas e multiplica-se ao abrigo da hipocrisia da sociedade em que vivemos. É esta violência, que vai desde o descolar do adesivo de “uma certa maneira” porque o doente tocou à campaínha, até ao infantilizar o outro na maneira como o abordamos, ou à arrogância tão marcada nos gestos de certas enfermeiras, que me preocupa mais porque ali não estamos perante pessoas exaltadas (como acontece às vezes nos serviços de urgência) e que se podem defender, ou perante profissionais (que ora se agridem, ora se bajulam), mas com gente que está deitada numa cama. Isso diz tudo.
Victor Victor
Olá, VV.
Apetece expressar duas ideias:
1 - qualquer falta de profisisonalismo pode tornar-se (e na saúde, claramente) num exercício de violência sobre o Outro.
Até porque as pessoas confundem serem cidadãos e serem profissionais de saúde - e se já na «pele» de cidadãos lhes falta polidez e respeito, na de profissionais, carece(m) de sentido essencial de serviço.
(2) a inadvertência, ignorância ou afins, quanto à relevância do seu papel pode levar a rebaixá-lo e a degradá-lo. Ou melhor, é cada um, na forma como exerce o papel, que engrandece ou desvalora o que faz. Contudo, ao fazê-lo, manifesta uma profunda incompreensão da natureza da profissão que escolheu…
ah, e entraria aqui muito bem a questão da (falta de) liderança
Sim, a falta de liderança é capaz de ser um aspecto (importante) na orientação das pessoas no desempenho do seu papel como profissionais de saúde, mas creio que há uma enorme crise de modelos e cada um acaba por transportar para o desempenho do dia a dia apenas o que tráz do exterior. Penso que no trabalho (especialmente para quem está em contacto com outras pessoas em contexto de relação terapêutica) deve existir uma preocupação em espalhar pelas equipas alguns modelos a seguir. Porque esses modelos exercem uma influência que não é de desvalorizar. E não têm que ser os líderes os modelos, não só porque às vezes não o são, como não podemos estar à espera de resolver a crise de liderança que existe hoje na saúde para ter acesso a exemplos do que deve ser uma prática humanista nos cuidados de saúde. Eu quando comecei a trabalhar como enfermeira tive pessoas que me ajudaram a traçar um perfil profissional, aquilo que sou hoje. Gente pacífica, inteligente, educada, gente boa. Não tinham qualquer perfil para líderes, mas eram (e são) excelentes profissionais.
Portanto, a questão da violência tem que ser entendida de várias maneiras - de “fora para dentro”, “de dentro para fora” e “de dentro para dentro” - e se calhar em todas estas perspectivas temos um papel fundamental (como profissionais de saúde), quer na liderança, quer nos modelos que seguimos, quer na visibilidade que damos ao nosso contributo, quer na postura que temos no seio da equipa, enfim…
Victor Victor
Na generalidade, concordo.
Quanto às lideranças, vejo-as como modelos - e tenho a noção que cada um segue as lideranças/modelos que aceita. Que quer seguir.
Excelentes profissionais, sendo seguidos e/ou reconhecidos, não são “lideranças de gestão de cuidados”?
Conheço alguns chefes de equipa que lideram as suas equipas, sem exercerem nenhuma autoridade (e leio autoridade como Hannah Arendt, como «poder sobre» o outro). Têm um verdadeiro poder de agir com as pessoas e levá-las a agir em conjunto.
Quanto às 3 direcções,- de “fora para dentro”, “de dentro para fora” e “de dentro para dentro” -

considerei-as quando escrevi sobre a relação que urge desocultar entre enfermagem e cidadania. Fiquei sem saber se estava a evocar o artigo…
Sim, sim. Liderança na gestão de cuidados. Concordo absolutamente.
Não evocava o trabalho que refere, mas apenas a perspectiva de análise (endógena e exógena) que é aplicada em várias áreas do conhecimento, filiada no pensamento contemporâneo e numa visão mais ou menos consensual do mundo actual. Digamos que o excesso de acontecimentos e a velocidade com que ocorrem não permitem muitas vezes que se consiga desenvolver um olhar reflexivo (como se percebe no livro de Toffler, O Choque do Futuro) e portanto o que se consegue é apenas um olhar restrito (como a visão tradicional de pensar de dentro para dentro – a visão endógena, virada para si) que não capta integralmente os aspectos daquilo sobre o que se pretende reflectir e fica pelas “poeiras” que os acontecimentos vão deixando pelo caminho… Daqui a necessidade de desenvolver um exercício de equilíbrio entre a visão endógena (necessária, mas não suficiente) e a exógena (imprescíndivel) na análise dos acontecimentos ou dos fenómenos como o caso da violência contra profissionais de saúde (ou na saúde?).
Esta é uma perspectiva de análise fenomenológica, multidimensional e que pode sempre ser enriquecida (à boa maneira pós-moderna) como na concretização da sua ligação a uma certa leitura da geometria dos fractais (que é fabulosa), o que a torna ainda mais interessante pelas possibilidades exploratórias que conjuntamente oferecem quando queremos “ler” fenómenos diversos: o aumento da imprevisibilidade e da complexidade dos fenómenos à medida que os seus elementos básicos aumentam (i.e., à medida que os vamos identificando e clarificando o seu comportamento) transforma-se em estabilidade que se percebe no domínio da configuração final desses fenómenos, tal como acontece com os fractais.
Portanto, quanto mais se desvenda, mais próximo da realidade se corre o risco de ficar. Daí a análise da violência contra os profissionais de saúde (na saúde?) me parecer ser algo digno de uma análise alargada, com reflexão não só em torno dos eventos violentos (que um dia vão ser (apenas) números ligados a algumas causas também reduzidas a (apenas) números), mas de todo o contexto em que estes ocorrem.
VV
Gostei bastante da metáfora dos fractais
e na verdade não tendo a análises separadas. Nem da violência, nem do contexto global ele mesmo. Quase tudo pode ter ligações a montante a jusante.. (e não afirmo tudo para evitar absolutos).