
Género e Enfermagem. Um estudo sobre a minoria masculina
de Joaquim Simões e Lígia Amâncio.
“A questão da enfermagem é atravessada por dois aspectos centrais e interligados. A permanência da prática de cuidados como a grande razão de ser da profissão e o facto de o seu percurso histórico se confundir com o feminino. (…) No entanto, a investigação sociológica sobre as profissões da saúde negligenciou a perspectiva do género, até à década de 1990, como afirma Elianne Riska (1993), tanto ao nível da profissão médica, como na relação entre esta e a enfermagem (Carpenter, 1991) e outras profissões da área da saúde (Hug man, 1991). Este autor mostra, com efeito, que a divisão de trabalho entre sexos se estabelece não só entre a profissão médica, predominantemente masculina, e as profissões ligadas aos cuidados, predominantemente femininas, como no seio da própria enfermagem, onde os homens, sendo minoritários ao nível da prática de cuidados estão, no entanto, sobrerrepresentados a todos os níveis de gestão e supervisão. (…) A investigação sore os enfermeiros constitui, assim, um contexto ideal para a mobilização do género enquanto id ologia, e para a desconstrução da frequente assimilação do conceito ao sexo de pertença dos indivíduos, uma vez que eles re presentam uma minoria imersa num universo que, à primeira vista, poderia ser considerado dominado pelas mulheres no plano simbólico, tal como é, de facto, no plano numérico. (…) O objectivo do estudo preliminar foi o de analisar os efeitos da socialização para a profissão, e do seu exercício, nas crenças ligadas à profissão da enfermagem e ao cuidar em enfermagem. Assim, pedimos a 56 estudantes do 1.º ano de uma Escola Superior de Enfermagem, 50 do 3.º ano da mesma escola e 66 profissionais em exercício, de ambos os sexos, que referissem os atributos pessoais que lhes vinham à ideia quando pensavam na “profissão da enfermagem” e o que lhes fazia pensar “cuidar em enfermagem”. As palavras mais frequentes e mais utilizadas por todos os grupos de participantes foram, no caso dos profissionais de enfermagem, “solidário”, “responsável”, “humano”, “disponível”, “empático”, “paciente” e “competente”; as associações mais consensuais ao cuidar foram “relação de ajuda”, “educar para a saúde” e “atitude de escuta”.”
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