“First I would like to write for you a poem to be
shouted in the teeth of
a strong wind.
Next I would like to write for you to sit on a
hill and read down the
river valley on a late summer afternoon,
reading it in less than a whisper….”
Carl Sandburg
Boa companhia, em livro, esta tarde. «A promessa da política» de Hannah Arendt.
Uma das mais fortes influências do meu pensamento, como é sabido.
Dizia Sócrates que em cada um de nós existe a possibilidade de fazer emergir uma verdade, a partir da opinião (da doxa, diriam os gregos, que significava opinião, mas também brilho e fama). Acreditava firmemente que o diá-logo a faria emergir, pela maêutica.
“O pressuposto era que o mundo se abre de modo diferente a cada homem segundo a sua posição nele (…) reside no facto de que o mesmo mundo se abre a todos e de que a despeito de todas as diferenças entre os homens e entre as suas posições no mundo - e por consequência entre as suas doxai (opiniões) - «tu e eu, ambos somos humanos».”(p. 1
Acreditava ele que «sei que não sei» era a possibilidade de se abrir à perspectiva dos outros.
O que supõe interrogar-se e permitir(-se e aos outros) diferentes verdades.
Aceito, sem nenhuma dificuldade, que o caminho do entendimento entre as pessoas passa pela aceitação das diferentes visões e perspectivas do(s) outro(s).
Diferentemente do que entendia Platão, o papel do filósofo não é governar a cidade mas ser o «moscardo» -”Sócrates não queria tanto educar os cidadãos como, e sobretdo, tornar melhores as suas doxai, que constituíam a vida política na qual ele participava. Para Sócrates, a maiêutica era uma actividade política“, aqueles diálogos que concluem inconclusivamente, sem resultados definidos.
“O facto de se ter falado, de se ter falado a propósito de alguma coisa, da doxa deste ou daquele cidadão, parece bastar. É evidente que esta espécie de diálogo, que não tem necessidade de chegar a uma conclusão para fazer sentido, é a mais apropriada entre amigos e é entre amigos que a vemos mais frequentemente partilhada“.
Daqui, o sentido político da amizade na cidadania… e viver com os outros começa com o viver plenamente consigo próprio.
“O ensinamento de Sócrates significava: só aquele que sabe viver consigo próprio é capaz de viver com os outros. O si-próprio é a única pessoa da qual não me posso separar, que não posso deixar, à qual estou soldado. Portanto, «é muito melhor estar em desacordo com o mundo inteiro do que em desacordo comigo mesmo, que sou um só». A ética, não menos do que a lógica, tem a sua origem nesta afirmação, porque a consciência no seu sentido mais geral assenta também no facto de eu poder estar em acordo ou desacordo comigo próprio, e isso significo que não apareço apenas aos outros mas me apareço também a mim próprio.” (p. 23)
Questões últimas e sem resposta, que o ser humano coloca a si mesmo, tornando-se no ser-que-interroga.
“É por isso que a ciência, que põe interrogações respondíveis, deve a sua origem à filosofia, uma origem que continua a ser a sua fonte sempre presente ao longo das gerações“
O homem que se interroga, vive em comunidade, em relação com outros no Mundo.
De Platão a Marx, passando por Hobbes, a tradição da filosofia política do Ocidente chega ao fim.
“Vivemos hoje num mundo em que já nem sequer o senso comum continua a fazer sentido. O colapso do senso comum no mundo presente assinala que a filosofia e a política, apesar do antigo conflito que as opunha, sofreram a mesma sorte. E isso significa que o problema da filosofia e da política, ou a necessidade de uma nova filosofia política a partir da qual poderia nascer uma nova ciência da política, está mais uma vez na ordem do dia.” (p. 37).
(Couple reading under the trees, Warren Dennis)






É sempre perigoso dizer que uma coisa como a filosofia chegou ao fim. É um pensamento derrotista, o que tu estás longe de ser…
O diálogo é importante em si próprio, porque para emergirem as ideias precisam do confronto, do estímulo. E nós precisamos, como na Wikipedia, de uma “sand box”, um local onde possamos testar as nossas ideias, deixá-las correr e brincar num ambiente seguro, antes de as expor ao rigor do mundo real. É para isso que servem os diálogos, nesse espírito de amizade de que falas. E é também para isso que servem os amigos.
Oláá!
Não é nada perigoso…. Nem é um pensamento derrotista. Trata-se, diria, de uma constatação. A filosofia como tem sido tradicionalmente pensada… ou, como diria Arendt, a tradição, a autoridade e a religião todas postas em causa no século XX. Precisamos de encontrar novos caminhos
e de proximidade da filosofia à vida e ao mundo.
Gostei muito da ideia da «sand box». É mesmo o estilo do que se faz, «em ambiente seguro», antes de expôr «à luz crua do domínio público» (Arendt, claro).
Se eu seguisse - e sigo
- as pégadas de Aristóteles - diria que o amigo é aquele que nos ouve, navega conosco na travessia pelas palavras (dia-logos) e nos reenvia ao mundo. Por isso, os caminhos com os amigos desembocam nas ruas da cidade…
beijos, sábado bom.
Lindo seu post se a Hannah é uma das mentoras de seu pensamento, provavelmente vc é uma Heideggeriana por via indireta o que faz ser uma grande pessoa.
Oi, Shijian… pois, não sou
Heideggeriana. Aprecio algumas coisas nele mas não a ponto de o considerar guia do meu pensamento. E as diferenças entre eles são grandes, ainda assim.
Bem vindo, seja mais ou menos Heideggeriano…