“O teatro é um espelho. Quem lá vemos, somos nós. E somos nós por dentro e por fora. E nós não seremos aquele que julgamos, porque também nós permanentemente nos descobrimos. Ambiguidade, duplicidade, o eu com que me falo, o eu que ponho a falar. O segredo do eu não tem chave de abertura. Eu penso e não digo, eu falo e não o penso. Umas vezes, sim, outras não. E quando sim, é apenas uma parte, aquela que se pode ver, e quando não, fica apenas o busto, o perfil, o retrato, a máscara, a bergmaneana Persona. A fazer um exercício, a transmitir a mudez, a ver se sem a palavra me consigo dizer. A ver se sem a palavra, me desdigo. A ver se com o que digo, nesta dualidade, me atesto na insanidade. A ver se na minha loucura me corroboro na minha normalidade. A ver se na minha normalidade me descubro na excepção que é o ser-se normal, a ver se na minha anormalidade, no meu pathos, me descubro enfim igual a todo o mundo. E sento-me na plateia, e vejo o palco aberto, e vejo as personagens a reflectirem-se no espelho da minha água, no meu próprio eu. E aí vão as personagens do drama, ou da comédia, ou da tragédia, aí vão elas encontrar o Outro, matar o Outro. Ou matarem-se a elas mesmas. Ou a rirem-se delas, ou das que estão com elas, ou seja, de mim, ou seja, de nós. O teatro tem esta cumplicidade criminal, é esta câmara aberta onde eu estou sem estar, onde os outros estão sendo eu. E venho para casa, e sento-me ao computador, na minha frente está um cubo-palco a que falta uma parede, e de súbito entra alguém. Senta-se. Espera. O outro aparece. O combate vai começar. Entre o palco e a plateia, através do véu da consciência, o vermelho transparente.”
Jorge Guimarães (2006)
Grata a AES, PG.
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