das falácias

13 09 2007

ainda que cometamos um número infinito de erros, só há, na verdade, do ponto de vista lógico, duas maneiras de errar: raciocinando mal com dados correctos ou raciocinando bem com dados falsos. (Haverá certamente uma terceira maneira de errar: raciocinando mal com dados falsos). O erro pode, portanto, resultar de um vício de forma – raciocinar mal com dados corretos – ou de matéria – raciocinar bem com dados falsos.”
(O. M. Garcia)

O que distingue o sofisma da falácia, é que, embora ambos sejam basicamente raciocínios errados, a falácia é involuntária. O sofisma tem como objectivo induzir ao engano. O raciocínio falacioso decorre de uma falha de quem argumenta.


Ouvindo atentamente à nossa volta, daremos conta que as falácias e as inconsistências lógicas abundam. Reconhecê-las nem sempre é fácil, especialmente quando aparecem em diálogos, onde podemos não as submeter a uma análise mais profunda (e se assim fosse, revelar-se-iam sem fundamento).

Há, inclusivamente, uma lista de argumentos falaciosos, muito extensa.
E como no meio da estruturação do discurso, pode nem se dar por elas, não se atenta ao enviesamento do raciocício. Por isso, tem de se separar a proposição (a afirmação que se pretende demonstrar verdadeira) do «argumento» que a suporta.

Stephen Dowes tem um Guia para as falácias lógicas

Escolho, hoje, o uso do apelo a motivos, em vez do recurso a razões.
Ou seja, quem me interpela, em vez de sustentar o que diz em razões, usa sentimentos, emoções ou factores psicológicos. A pessoa que ouve ou lê é persuadida a concordar, sob vários «subtipos» deste apelo:

- à força ou à autoridade
do género, “a nova orientação da gestão é a melhor; se não concordares, não votamos em ti para…“. Tem de se identificar a ameaça e a proposição - e argumentar que a ameaça não tem relação com a verdade ou falsidade da proposição.

- à piedade
aparecendo o “estado lastimoso” do outro, como em “trabalhei imenso nesse relatório, dia e noite, não pode ser reprovado”. Tem de se identificar a proposição e o apelo - e argumentar que o estado (digno de piedade ou de lástima) do autor, não releva para a verdade da proposição.

- às consequências
o que de mau acontece se… como em “vais chegar atrasado e ninguém vai gostar de ti”. Tem de identificar as consequências e argumentar que a realidade não tem de se adaptar aos nossos desejos.

- à popularidade
sustenta que uma proposição é verdadeira por ser aceite por muitos. Também é de apelo à emoção, pela filiação ao todos - como em “toda a gente sabe que…” ou “toda a gente faz assim…”

- ao estereotipo
do tipo “uma pessoa razoável concordará com o que propomos”. Tem de se identificar o preconceito e discordar da conclusão não é suficiente para dizer que a pessoa é «pouco razoável».

Ouçamos atentamente o que nos dizem… e, não menos importante, o que nós mesmos dizemos.
Verdade ou falácia?!

(Magritte , La lunette d’approche)


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11 respostas para “das falácias”

13 09 2007
Alexandre Sousa (11:38:00) :

Sou suspeito, gosto muito dos jogos das palavras, tradutores, melhores ou piores dos jogos de pensamentos.

Para já, ainda é tudo muito técnico, quando chegarmos à beleza… à verdade… ao amor… Então é que vai ser!

13 09 2007
Maria (12:02:00) :

gostei muito do texto (didáctico), mas a imagem de Magritte impulsiona-me [ :) ] a pensar que nem todas as falácias são más… mas terei de pôr meias aspas nelas: ‘falácias’ e caldos de galinha… até fazem bem à saúde, mental e física, respectivamente!

13 09 2007
Rosa Silvestre (16:01:00) :

Há “falácias” e “falesias”, cada um segue as que quer ou pode….or not?
BOA SEMANA.

15 09 2007
LN (11:40:00) :

É-se suspeito por gostar de retória e jogos, teias, elos de palavras?? céus… mais uma :)

Leio a compreensão de que este «das falácias» era só o primeiro… e era mesmo. Agora se chegamos a entender beleza, verdade, amor (entre outras) como falácias… veremos.

:)

15 09 2007
LN (11:43:00) :

As falácias não são más, Maria. Enviesam o raciocínio. E estas eras «falácias lógicas».
Involuntárias.
Evitar as falácias é apenas querer um raciocínio mais estruturado, entre o que se declara e o que se aponta como fundamentação…

Gosto de Magritte, na maioria das imagens. Lá me esforço é para não seguir uma tendência, por exemplo, muitos dias seguidos. Há alturas que apetece…

16 09 2007
Alexandre Sousa (22:08:00) :

Chamarei em minha defesa, Aristóteles. Não porque fique bem, mas sim por um certo pudor em imitar mal, alguns dos Mestres de que gostamos.
A nossa língua não tem palavras para exprimir todos os sentimentos da nossa alma.
Óbvio, torna-se suspeito quem recorre à metáfora ou quem vive permanentemente embrulhado numa eterna dúvida: - Será que falou seriamente? Deste conta de um laivo de ironia nos olhos?
As falácias também de vão de pedra em pedra desde que se conheça bem, o caminho das pedras.
Trago entre as mãos (suspeito que também entre os pés) uma tese de filosofia que tem um título esmagador: “Um homem feliz, apesar do amor”. Não importa quanto tempo leva o pensamento e a escrita debaixo de mim, mas nesse intervalo, tive de arrefecer duas paixões, qualquer uma das quais fonte de doçura imensa e fisicamente não realizáveis. Quantas falácias hipotéticas? Depende da linha do tempo ao longo da qual as possamos julgar.

18 09 2007
LN (14:47:00) :

Quase me silencio, Alexandre Sousa :), não apenas pelo tom sério e reflexivo, como pelo empenhamento de si no juízo do risco das falácias que, diria, podem alinhar-se como reconhecidamente pessoais.
E quem conhece o caminhos das pedras… e quem o não conhece, quando se con-sidera a si mesmo no potencial de ilusão e auto-engano?? …

Achei o título da tese fantástico… pelo jogo do a-pesar.
Ou sou eu que leio o a-pesar como “sem pesar”??
:)

18 09 2007
Alexandre Sousa (21:14:00) :

Ai de nós, se o amor não pesar. Óbvio que pesa, mas a construção de cada ser vai ajustando, vai adaptando a estrutura mental e os impulsos e o desconhecido, de tal forma que o peso é sempre suportável.
Cada um fala de si e por si.
A ideia fulcral é muito simples:
- Um homem é feliz, o que perturba é o amor. Mesmo nas horas boas o medo de perder a felicidade põe névoa no brilho.

19 09 2007
LN (00:35:00) :

«sem pesar» era «sem mágoa» mas sim, pode ser de peso…

Parece-me que o que perturba, assim sendo, não é o amor, em si. É o medo da perda a seguir. Ou seja, da possibilidade da extinção desse estado. Portanto, o pensar prospectivo em torno do amor… será?

21 09 2007
Alexandre Sousa (13:16:00) :

O amor é desde miúdo uma preocupação maior. Há outras coisas que preocupam quem gosta da filosofia e a mim, quase nada me dizem. E no entanto ainda que propagandeie uma certa aura de homem do povo, vivo profundamente voltado em concha para os meus problemas espirituais – não gosto do termo – vamos dizer sem pensar muito em Descartes nem em Damásio, os problemas da minha vida são os problemas da minha alma, e de todos eles o que mais me inquieta é o amor.
Imaginemos que a felicidade se pode descrever por um modelo matemático e essa tradução nos mostra uma curva ou um percurso curvilíneo. É o amor à maneira da gravidade que faz curvar essa linha da felicidade.

22 10 2007
Voltando lá: falácias afectivas « Conversamos?!… (10:58:29) :

[...] é um tema interessante e que se mantem com muitos trilhos por explorar… Vindos das falácias I, das falácias II, do diagnóstico diferencial, dos recursos em falácias, do determinismo [...]

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