Fenomenologia: "de volta às próprias coisas"

11 10 2007

Uma Fenomenologia da percepção (título de livro de Merleau-Ponty) é uma Fenomenologia do acto de perceber e do percebido, da noesis e do noema; e, ao mesmo tempo, aquele que se confunde com quem percebe (percepiente) e com o que é percebido.

Sou, como Descartes fundou, sujeito pensante (res cogitans). Mas não apenas. Como aquilo que percebo não é apenas objecto.

Sou, como Heidegger afirmou, ser-no-mundo (Dasein). E enquanto ser aqui, tenho um olhar que pré-objectiva o que me cerca, num espaço e num tempo.

E, existindo, incorpo o que me cerca - e dou-lhe sentido, o que significa transcender a posição que ocupo no mundo, que está espacialmente localizada.

E os julgamentos que faço do que percebo, não são a percepção propriamente dita, tout court, mas a crença perceptiva, que me relaciona com o mundo e faz de mim um ser-aqui, levando-me de volta às coisas sob a mediação da linguagem.

“É a propósito da linguagem que veríamos melhor como se pode e como não se pode voltar às coisas mesmas. Se nós imaginamos reencontrar o mundo natural ou o tempo por coincidência [...] a linguagem é uma potência de erro, porque corta o tecido contínuo que nos une vitalmente às coisas [...]. A linguagem é uma via, é a nossa via e a delas. Não que a linguagem se aposse dela e a conserve: que teria ela a dizer se não houvessem senão coisas ditas? [...] Melhor do que qualquer outra pessoa, o filósofo sabe que a vivência é vivência falada, que, nascida nessa profundeza, a linguagem não é uma máscara aposta ao Ser, mas se nós sabemos recuperá-la com todas as suas raízes e com toda a sua fronde, o mais válido testemunho do ser [...]. (Merleau-Ponty, O visível e o invisível.1964, p. 167)

Merleau-Ponty distingue entre linguagem constituída e linguagem constituinte ou operante, ou seja, entre a linguagem sedimentada da tradição e a linguagem inovadora que se une ao pensamento descobridor, como um logos em demanda da verdade.

A linguagem operante é o próprio tema da Filosofia. Ou melhor, a Filosofia é

“linguagem, repousa sobre a linguagem; mas isso não a desqualifica nem para falar da linguagem nem para falar da pré-linguagem e do mundo silente que as redobra: ao contrário, ela é linguagem operante, essa linguagem que só se pode conhecer por dentro, pela prática, aberta às coisas, chamada pelas vozes do silêncio, e continua um ensaio de articulação que é o Ser de todo ser”.

das vozes do silêncio…


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