É sabido que leio e releio Hannah Arendt… Gosto da figura, do percurso, das ideias, do estilo de pensar. Cruzaram com ela alguns dos mais notáveis pensadores do século – Martin Heidegger, Karl Jaspers, Hermann Broch, Walter Benjamin, Husserl, Adorno, Hans Jonas, Raymond Aron, Paul Tillich, entre outros. Relevo a sua amizade com Mary MacCarthy e o trabalho (notável) que fez com os escritos finais bem como o de Jerome Kohn, herdeiro testamentário .
Voltei a Homens em tempos sombrios,
“Todas as dores podem ser suportadas se você as puser numa história ou contar uma história sobre elas” – é a partir dessa citação feita por Isak Dinesen, que Arendt escreve sobre a importância que, em tempos sombrios, obras, pessoas e actos possuem de iluminar a vida.
“O que verdadeiramente importa é que tal iluminação pode bem porvir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra.”
A sua preocupação com o mundo e a pluralidade humana impressionaram-me tanto quanto a ideia de nós como «seres mortais que pensam o eterno» e que devemos aceitar o humano que somos.
A acção tem como condição a pluralidade humana, que se afirma por meio da relação dialógica e pelo espaço-entre-os-homens. A verdadeira experiência consiste na abertura recíproca do homem e do mundo e é por interditar exactamente a possibilidade dos indivíduos se revelarem a si mesmos e aos outros para instituírem, em conjunto, um mundo, que o mundo totalitário é um não-mundo.
A unidade do género humano está longe de ser uniformidade: é a diferença absoluta entre homem e mulher que os torna humanos tal como entre os naturais de diversos países. Aliás, “um cidadão do mundo, vivendo sob a tirania de um império mundial, falando e pensando numa espécie de Esperanto solene, seria tão monstruoso como um hermafrodita”.
O mundo, enquanto mundo comum, é o espaço da aparência, o mundo público, onde aparecemos ao nascer e de onde des-aparecemos ao morrer, o mundo que se estende entre os homens ou entre as gerações de homens. Nós somos responsáveis por esse mundo que compartilhamos e temos a tarefa de cuidar dele.




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Fantástico seu post, adoro quando vc escreve sobre Arendt ou Martin Heidegger. Esse seu post me fez lembrar o filme ganhador do Oscar, No country for old men. Onde retrata um mundo completamente ao contrário e recheado de dores. E talvez só se tornou suportável, pois:
“Todas as dores podem ser suportadas se você as puser numa história ou contar uma história sobre elas”
Obrigada, eu tenho é mesmo uma afiliação grande a Arendt…. e o pensamento dela, como alguém já comparou, é como uma filigrana, que tem de se seguir os fios e as pequenas peças…
A mim, cativam-me as ideias sobre as faculdades do espírito, a força do julgamento humano e a convicção de que o pensar e o julgar, a acção das pessoas, podem fazer a diferença.