Poesia, em domingo

11 05 2008

Poema destinado a haver domingo

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.

Natália Correia

(imagem)


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5 respostas para “Poesia, em domingo”

11 05 2008
pólvora (11:41:58) :

É capaz de ser o melhor dia da semana…o dia que antecede o amanhã em que fazemos alguma coisa e, que precede o dia em que quase morremos de tédio por não fazer nada…mas isto sou eu, que não gosto de estar parada (Defeito de fabrico, como diz a minha mãe!)

“Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio alegremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.”

(António Gedeão, Novos poemas póstumos)

11 05 2008
LN (19:01:16) :

Cada dia é (pode ser) uma maravilha… O Dia do Sol como os Outros :)

11 05 2008
Alexandre Sousa (19:40:52) :

Natália anda tão esquecida que até parece que este Povo se vai lembrando de alguma coisa.

11 05 2008
LN (20:55:29) :

Se há algo em que os blogues podem fazer, parece-me que é também esta «coisa» de nos lembrar, alargar horizontes para trás e no dia-a-dia…
poesia, pintura, história, e muitos outras criações e produtos do espírito humano…
Ademais, gosto de Natália :)

12 05 2008
Alexandre Sousa (22:21:58) :

Fazes bem!

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