Leituras de férias

” – Não sei nada sobre Matemática.

- Não sei nada sobre caminhos-de-ferro – replicou SInger.

- Julga que o infinito me interessa?

- Julga que os caminhos-de-ferro me interessam? Se tivermos tempo, é o que teremos de fazer crescer juntos: o meu interesse pelos caminhos-de-ferro e o seu pelo infinito.” (p. 54)

Uma Janela para o Infinito (Villa des Hommes).  Editora Bizâncio, 2008.

Hans Singer, eminente matemático alemão (inspirado em Georg Cantor, que desenvolveu a Teoria dos Conjuntos e trabalho sobre o Infinito) é internado no hospital psiquiátrico após um colapso mental. No mesmo quarto («Villa des Hommes», vivenda 14) é colocado Matthias Dutour, soldado francês, vindo da frente de combate, antigo maquinista de caminhos-de-ferro, de anteriores convicções libertárias.

Em conversas e narrativas de dias, constrói-se a amizade e a relação de mestre e discípulo.

Ficamos a saber que Matthias salvara um soldado alemão que, afinal, o tinha salvo. Que a paixão dos caminhos-de-ferro tinha nascido graças à oferta de “A Besta Humana” de Zola por parte da mãe adoptiva. Percebemos que Singer insiste e investe em trazer Mathias do seu mundo indiferente e de silêncio. Que a aceitação da sua teoria do Infinito e o descrédito, ascensão e queda, a sua imersão nas matemáticas o levou a ter de escolher entre a matemática e os matemáticos.

É ténue o espaço desenhado entre a lucidez e a doença mental, espantosa a proximidade que os diálogos de Guedj conseguem estabelecer. Queira-se ou nem por isso, este livro pode bem ser uma Janela (como o título português considerou) para as infinitas probabilidades da vida…

“Numa estrutura narrativa muito original e habilmente tecida, Denis Guedj aborda, de forma singular e comovente, a temática da loucura e transmite-nos a mensagem de que a Matemática, como a Política, devem estar ao serviço do homem.” (contracapa)

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2 Comments on “Leituras de férias”

  1. Xis Says:

    Boa sugestão! Terminei hoje o livro e gostei.
    Atrevo-me, devolvendo uma referencia a outro livro que recomendo. ‘Diário’ de Etty Hilesum 1941 – 1943, da editora Assíro & Alvim. Um livro fortissino, com uma mensagem doce e intensa sobre a vida do nosso ‘eu’. É um diário escrito por uma judia, Etty, que nos descreve o valor da Vida, independentemente, do local e das cirscunstancias onde a mesma se desenvolve.
    Beijinho, Xis

  2. LN Says:

    Ainda bem que sim :)
    Pode sempre atrever-se (risos)… Neste caso, li o “Interrupted Diary”, de Etty Hillesum, quando andava a estudar Arendt, aí pelos idos de 2004, pela mão de um amigo. Claro que o Comte-Sponville fala dela, no livro das virtudes, quase de passagem…
    Depois de a ler (não sei como soa a tradução portuguesa…) a consciência da vida e da doçura necessária torna-se mais aguda, mais consciente. E a pessoalidade inscreve-se num registo mais amplo e, ao mesmo tempo, mais micro.
    Beijos.


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