Leituras de(stas) férias

José Barata-Moura, Da Mentira: Um Ensaio – Transbordante de Errores. Editorial Caminho, 2007.
Um estudo sobre a mentira, que percorre, sem dispiciendos e com muitos aportes laterais, textos dos mais intransigentes defensores da verdade, passando pelos que admitem algum grau de mentira necessária ou perdoável, aos que entendem a mentira como categoria estética benéfica e aos que contestam pura e simplesmente a noção de verdade e mentira.
O texto tem umas passagens densas, mas é bem humorado, coloquial, de ir conversando sobre a mentira, no contexto da verdade, e distinguindo de veracidade.Estava à espera de encontrar Hannah Arendt, e a mentira dos «fabricantes de imagens». Mas não a encontrei….
Compreender a mentira não lhe transmuta as misérias e não lhe branqueia a imagem. Obriga, sim, a um melhor temperar dos instrumentos de que dispomos, a que se afinem os dispositivos de um pensar crítico, que não abdica de procurar discernimento e orientação nos diferentes planos e nos meandros da realidade.
Convoca também — porque toda esta questão da mentira nos interpela a todos de um modo descaradamente directo — uma firme mobilização exigente e um vinculado empenhamento, ético e ontológico, na qualidade que vamos inscrevendo, com pensamentos e acções, no devir histórico da nossa realidade.
Uma leitura interessante, numa altura propícia.
Citando:
“Para Kant, a mentira – para além de desrespeitar a pessoa do outro (a quem se dirige, ou contra o qual é dirigida) na sua humanidade racional, e de, eventualmente lhe acarretar dano ou prejuízo (uma circunstância que decerto importará ponderar, como vimos, no âmbito do Direito, mas que não é genuinamente invocável desde, e para, o campo estrito da ética) – constitui-se, fundamentalmente, como «a maior infracção da obrigação do ser humano para consigo próprio». A mentira representa, assim, pura e simplesmente, um inaceitável tripúdio, um «deitar fora», um «aniquilamento» da dignidade humana, cuja sacra custódia e promoção aos próprios humanos acima de tudo incumbe – designadamente, através e nos institutos do Direito, da Moral e da Política” (p. 123)
“A natureza instrumental da mentira justifica-se no imediato, não através de uma sua iconoclástica apologia exibicionista (indiscrimnada e por atacado), mas pela necessidade de tomar em mão, e de orientar em proveito próprio, os «ventos da fortuna», o intrincado das situações, as contraditórias paixões e móbeis dos humanos” (p. 162).
27/08/2008 at 10:08
Uma boa recomendação, LN. Há alguma ironia em haver tantos “tesouros” à disposição e tão pouco tempo para os desfrutar. Mas essa é uma limitação humana inevitável.
29/08/2008 at 15:59
Lembrei-me do Fernão Lopes e da ‘moeda’ (digo eu) que tem numa face a mentira e, na outra, o faltar à verdade por insuficiente informação. Esta face, eu procuro lidar com ela conscienciosamente; mas, a outra… fico com brotoeja só de imaginar que procura manipular-me!
30/08/2008 at 16:02
MJM, uma entre muitas limitações
, pois sim….e o que obriga a ser (cada vez) mais criterioso com aquilo a que se dedica atenção….
Bom (final de) verão.
30/08/2008 at 16:03
Brotoeja, Daisy?? risos… irrita que se farta quando somos os destinatários, sim… (há que tempos que não ouvia a expressão…)