Livros e leituras: “A passo de caranguejo”

13 06 2009

eco_apassodecaranguejo

“Os escritos reunidos neste livro foram publicados entre o início de 2000 e o final de 2005, os anos do 11 de Setembro, das guerras no Afeganistão e no Iraque, da instauração de um regime de populismo mediático em Itália. Ao lê-los, o leitor comprovará que desde o fim do último milénio temos vindo a caminhar para trás a um ritmo dramático. A seguir à queda do Muro de Berlim foi necessário desenterrar os mapas de 1914. As nossas famílias voltaram a ter empregados de cor, como em E Tudo o Vento Levou. A pouco e pouco, o vídeo fez com que a televisão se pudesse converter num cinematógrafo e, graças à ajuda da Internet e das pay-tv, Meucci levou a melhor sobre Marconi e a sua telegrafia sem fios. Agora, o i-Pod reinventou a rádio.

Terminada a Guerra-fria, os conflitos no Afeganistão e no Iraque fizeram-nos regressar à Guerra Quente; desenterrámos o Grande Jogo de Kipling e voltámos aos tempos do choque entre o Islão e a Cristandade, com os novos assassinos suicidas do Velho da Montanha e os gritos de «socorro, os Turcos!».

Apareceu outra vez o fantasma do Perigo Amarelo, ressurgiram as disputas entre a Igreja e o Estado, a polémica antidarwiniana do século XIX e o anti-semitismo, e o nosso país voltou a ser governado pelos fascistas (muito post, é certo, mas alguns indivíduos ainda são os mesmos). Quase que parece que a História, cansada das confusões dos últimos dois mil anos, se está a enrolar em si própria, caminhando velozmente a passo de caranguejo.

Este livro não pretende explicar o que é que devemos fazer para reencontrar a direcção certa, propõe-se apenas travar por alguns instantes este movimento retrógrado.”

A ler, com carácter obrigatório, por quem se interesse por olhares críticos para este mundo em que vivemos. Eco pode até nem ser amável mas é acutilante; pode parecer céptico, mas obriga-nos a repensar. Como diria,  hoje e noutros tempos: «cinco estrelas».


Acções

Informação

2 respostas

15 06 2009
JN

Peço desculpa pelo preciosismo, mas os caranguejos andam sobretudo de lado (http://www.youtube.com/watch?v=iuc1nso8WyE )

O que, bem vistas as coisas, até melhora a metáfora: por mais que andemos, em termos civilizacionais, nunca avançamos. Andamos de lado, repetindo vezes sem conta os mesmos erros.

15 06 2009
LN

Nada de «peço desculpa», JN.
Fica bastante melhor, por sinal, pois uma das ideias centrais é que estamos, se bem que noutro nível, próximo de algumas coisas do século XVIII – como a divisão da Europa :) -; pensei em espiral que ´é uma espécie de círculo que se eleva ou baixa mas muda de plano… a ideia de andar de lado merece ser explorada :)

Publicar um comentário