O Público do último sábado tinha uma entrevista com James Watson.
Lembro que o norte-americano James Dewey Watson foi prémio Nobel de Medicina (com Crick e Maurice Wilkins, em 1962) e um dos descobridores da estrutura da molécula de ADN. Dirige o Laboratório de Cold Spring Harbor, em Long Island, Nova Iorque. E vai presidir ao conselho científico da Fundação Champalimaud, de acordo com as notícias. Leia-se, dele, “A Dupla Hélice” (Gradiva).
Deixo alguns excertos da entrevista.
«James Watson protagonizou um dos grandes feitos científicos de sempre: a descoberta da estrutura do ADN. Com 78 anos, não acredita, porém, que os nossos genes possam ser mudados para melhorar a saúde.
Tem dito que as pessoas com sucesso deveriam ser pagas para ter filhos. Por que diz isto?
Neste momento, as mulheres com sucesso não estão a ter filhos. Se há uma componente genética da inteligência ou da ambição, então a sociedade terá menos pessoas talentosas.
As taxas de natalidade nos países com sucesso estão a cair.
O meu colega Francis Crick, que não era politicamente correcto, achava que devia pagar-se aos pobres para não terem filhos. Se se teve má sorte genética - por exemplo, esquizofrenia -, é-se pouco inteligente. Se se é mais inteligente, tem-se mais sucesso, porque a inteligência ajuda. Se uma pessoa não é capaz de ler ou escrever, é pouco provável que tenha sucesso, a não ser que seja um grande atleta.
(…)
Toda a gente está fascinada com o cérebro, é a grande fronteira. Não sabemos como a informação é armazenada no cérebro, que comportamentos são herdados ou como é que os genes levam à organização do cérebro.
O século XX foi a da junção entre a química e a biologia.
O século XXI será o da junção entre a psicologia e a biologia. (…)
Os receios de usar a genética para discriminação parecem-lhe reais?
Já discriminamos as pessoas. Quem tem bom aspecto, encontra emprego mais facilmente. Isto é discriminação. Se compreendermos melhor por que algumas pessoas são socialmente desajustadas, poderemos ser mais compreensivos e simpáticos. Talvez até haja menos discriminação, se soubermos mais sobre os genes. (…)
O que acha da clonagem e investigação em células estaminais?
Não sou religioso, não acredito na alma. A única coisa que pergunto é se ajudará a sociedade. Se ajudar a curar algumas das doenças graves, sou a favor. Não vejo aqui ninguém a ser prejudicado. Dizer que uma célula contém a alma é tudo superstição. Sou prático: será a clonagem boa para os portugueses? Talvez. Será má? Não. Refiro-me à clonagem de células, não de humanos.»