ângulos

17 06 2008

E se o que faz as coisas parecerem diversas, também fosse a perspectiva de onde se vêm? a distãncia, a capacidade da lente, o ângulo da captação da imagem…

As flores permanecem as mesmas e os diversos olhares não alteram o que são nem o facto de se deixarem apreender. Alteram, todavia, o modo como são ou parecem ser apreendidas.

Parece razoável… Mas pode esta hipótese ser apenas expressão desculpante da subjectividade? ou ancoragem para as diferenças?





acordar, sim?!

2 06 2008

Acordar tem, na nossa língua, um interessante duplo sentido. Despertar e combinar coisas.

O estabelecimento de acordo é, principalmente, sinal de esperança, potencial de entendimento, um aplainar das diferenças quando decorre de um processo de consenso razoável.

No que releva ao despertar, há estudos que aconselham a não fazer nada realmente importante entre 15 a 30 minutos depois de acordar… porque se verificou uma ”inércia do sono” (uma possível explicação é que há certas áreas do cérebro demoram mais tempo para acordar e entre elas está o córtex pré-frontal, área responsável pela resolução de problemas).

E, ainda assim, sabendo-se que a capacidade cognitiva é pior logo depois de acordar do que depois de uma longa falta de sono,  há quem teime em fazer-nos acordar…





dos intelectuais, na escrita de Foucault

20 05 2008

“A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.

Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo… Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir…”

“Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante. Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando “criticam” alguém, quando “denunciam” as suas idéias, quando “condenam” o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: “demolir”, “abater”, “reduzir ao silêncio”, “sepultar”. E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico.”

Michel Foucault, imagem e texto aqui





preparados para a diversidade?!

9 05 2008

Uma pergunta repetida, repetidamente

Uma das crianças cá de casa perguntou como se escrevia o seu nome em outras línguas, «por exemplo, em chinês». A pesquisa pode ser partilhada.

Seu nome em chinês

露茜丽娅

Nome em japonês

ルシリャ

Em árabe

لوسيليا

O nome em hieroglifos










Além do link egipcio, site Lexiquetos e é escolher…
O drama, se é que se pode dizer assim, é que as palavras e as línguas tanto nos unem, como nos separam.
Particularmente para quem ama as palavras.




escrita na água

27 03 2008

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Sempre me fascinou a escolha de Keats para o seu epitáfio: “Here lies he whose name was writ in water”.

Aquele cujo nome foi escrito na água.

Ou seja, a fama e a vida são passageiras.

A metáfora torna-se real, o que não deixa de ser curioso.

Researchers at Akishima Laboratories, working in conjunction with professor Shigeru Naito of Osaka University, have developed a device that uses waves to draw text and pictures on the surface of water. The device, called AMOEBA (Advanced Multiple Organized Experimental Basin), consists of 50 water wave generators encircling a cylindrical tank 1.6 meters in diameter and 30 cm deep (about the size of a backyard kiddie pool). The wave generators move up and down in controlled motions to simultaneously produce a number of cylindrical waves that act as pixels. The pixels, which measure 10 cm in diameter and 4 cm in height, are combined to form lines and shapes. AMOEBA is capable of spelling out the entire roman alphabet, as well as some simple kanji characters. Each letter or picture remains on the water surface only for a moment, but they can be produced in succession on the surface every 3 seconds.

(aqui)





símbolos para “conversamos?!…”

22 03 2008

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Têm variado, ao longo do tempo, e esta imagem está no activo desde o início de Setembro de 2007. Altura de mudar, pois claro… particularmente, quand se encontra outra que se julga adequada.

“The small Seated Scribe was once part of a votive offering to Thoth, the patron god of writing. It is a particularly graceful example of the artistic production during the reign of Amenhotep III (1391-53 B.C.) in the New Kingdom.”

18ª Dinastia, portanto. Em oferenda a Toth, deus da sabedoria, um deus cordato e sábio que tinha a seu cargo a sabedoria, a escrita, a aprendizagem, a medição do tempo; uma divindade lunar que seria conselheiro de Rá e companheiro de Astennu, frequentemente representado como um escriba com cabeça de íbis, a ave que lhe estava consagrada.

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formas e representações

9 01 2008

É sempre interessante ler quando outros escrevem sobre uma das figuras que preferimos. Espiral, é.

E representa quê? entre outras coisas, o desenvolvimento em ascensão. O «círculo hermenêutico» é muito mais uma espiral que um círculo. A espiral sobre (e ou desce) em retorcer-se sobre si. O sinuoso do que se mantem em torno de um eixo, ainda assim, que quase regressa ao mesmo local, reencontrando proximidade nesse retorno.

Pensar numa espiral tanto traz a (dupla) hélice do ADN como os redemoinhos e tornados ou os círculos dos ninhos dos pássaros. Traz os celtas e o mistério da vida. Traz os astecas e o ciclo do sol. Traz os hindus e a kundalini, fluxo de energia em espiral. Traz Arquimedes e a matemática. Evoca o crescimento das conchas e das pinhas. Relembra galáxias e escadas. Traz o Nautilus, caso raro entre os do seu género, que cresce em espiral logarítmica. Recorda Descartes e o modelo de crescimento contínuo sem modificação de estrutura. Recorda a sequência de Fibonacci e as noites de insónia de Einstein.

Como todas as representações, vive das dimensões de metáfora, de analogia, de abstractos, de apresentação próxima ao real, do imagético e do recriado. A forma, essa, é mais regular.





em jeito de balanço…

31 12 2007

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Passou um ano. Tempo. Mas não apenas. Oportunidades de descobrir coisas - sobre mim, os outros, a vida, os sentidos das coisas. De caminhar e fazer-se nos caminhos, que a si mesmo se constrói quando se caminha. Nada de extraordinário, dir-se-ia….

 

Li menos do que desejava ainda que fosse o mais que consegui, mesmo nos improváveis tempos de espera. Conduzi uns milhares de quilómetros, na travessia quase diária da península, não como um andarilho medieval mas quase com o mesmo espírito. Dei aulas, recebi aulas, lições de vida e de ser-se pessoa. Escavei mais uns troços de túneis em áreas de conhecimento e colhi mais indagações do que respostas. Nada de extraordinário, dir-se-ia….

 

Trabalhei em grupos, uns de tarefa, outros de missão, uns de dever, outros de opção - em todos, procurámos o estranho equilíbrio das vontades e a difícil tarefa de encontrar e concertar consensos - e sempre constatei como é mais simples e menos frutuoso passear sozinho. Caminhei em vales e planícies muito menos que em escalada de montanha. Conheci gentes com outros usos e línguas, e espantei-me sempre, por mais preparada que me julgasse para a diversidade. Tomei decisões difíceis e fáceis, fiz-me à Vida que ela não se deixa em mãos alheias. Nada de extraordinário, dir-se-ia…

 

Passou um ano. Tempo. Mas não apenas. Um dia de cada vez, enquanto ocasião única de vida e de existência. De ver crescer os meus filhos, de rir junto e reconhecer o redimensionamento que eles, pequenos e mágicos aventureiros, podem fazer de cada coisa. De zelar pelos que se amam, de se deixar cuidar pelos que se preocupam. De procurar a metamorfose do dissabor em ganho, da frustração em aprendizagem, da tristeza em alegria. São quase processos alquímícos! Lidei com remorsos e naufrágios, com virar de mesa e pontapés nas cadeiras. Vi mal, e às vezes nem tanto, o melífluo e o mesquinho que escolho desconsiderar - tem alturas em que a miopia pode ser (auto)protectora. Nada de extraordinário, dir-se-ia…

Descobri umas quantas pérolas e caí nuns quantos buracos. Ri e chorei, em visível desproporção que o riso e o entusiasmo cedem pouco espaço. Não posso queixar-me de não ganhar a lotaria, pois não joguei - a Sorte, Fado ou Moira vêm com cada dia. Ganhei gente, perdi gente – e com as pessoas que perdi, os mortos que representam o caminho que a todos espera, posso não ter ficado mais sábia mas fiquei claramente mais consciente da finitude. Nada de extraordinário, dir-se-ia….

Passou um ano. O extraordinário é mesmo tê-lo vivido. E com o muito que se aprendeu, restarem infinitos por explorar. Vai chegar um Novo Ano Novo. E nada de cair na tentação de tomar decisões no início do ano – se eram importantes, já deviam ter sido tomadas; se não são, esperam além destes dias de travessia. Que 2008 seja um Bom Ano, pródigo em paz e em alegria, saudável e profícuo. Feliz Ano Novo, terra ignota para muitos caminhos e não menos conversas…





(quase) a fechar 2007…

30 12 2007

Escolha a que mais lhe agradar…

e que os últimos dia de 2007 sejam floridos e perfumados.

galeria de imagens

Lorissa, Aparently nothing 





memórias…

23 12 2007

Passando pelas ruas da cidade, começam a notar-se os penteados da época festiva. Não resisti a ir buscar Tolentino….

Chaves na mão, melena desgrenhada
Batendo o pé na casa a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena
Lho ponha ali a filha ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada
Lhe diz com a doce voz que o ar serena:
Sumiu-lhe o colchão? É forte pena!
Olhe, não fique a casa arruinada!

Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado
Já a mãe não tem mãos? – E dizendo isto

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis se não quando, caso nunca visto
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

(Nicolau Tolentino)

(imagem: Nefertiti)





época de festa…

23 12 2007

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Natal é, tradicionalmente, uma época de festa – respeitante a nascimento. Genericamente, o dia em que nascemos é o nosso natal; a terra onde nascemos é a «terra natal». endo uma festa religiosa para muitos, ligada ao nascimento de Jesus Cristo, a verdade é que parece comemorar-se por laicos, agnósticos e religiosos (com o devido respeito para alguns grupos que não comemoram mesmo o Natal) e há muito mais séculos do que como Natal cristão.

Para os mesopotâmios, o Ano Novo representava uma grande crise, um combate entre Marduk, o principal deus, e os monstros do caos que tinham de ser derrotados para se preservar a continuidade da vida na Terra. O Zagmuk, um festival de Ano Novo durava 12 dias e era realizado para ajudar Marduk na sua batalha («os 12 dias» levam de 25 de Dezembro ao Dia de Reis… curioso!)

A Mesopotâmia inspirou a cultura de outros povos, naturalmente. Como a dos gregos que celebravam por esta mesma altura a luta de Zeus contra o titã Cronos. Ou como os romanos, na base do festival chamado Saturnalia. No dia 23 de Dezembro dava-se o solstício do inverno, a noite mais longa do ano no Hemisfério Norte - e a data era parte de um ciclo de infertilidade que existia desde o outono. Os dias tornavam-se cada vez mais frios e curtos, até o ponto máximo do solstício. A partir dali, o Sol ia voltar a subir, e o calor ressurgia - no dia 25 de Dezembro, quando já era notória a vitória do dia sobre a noite, eram realizadas grandes festas nas ruas em comemoração do regresso do Sol.

Nessas festas, surgiram grande parte das tradições que mantemos até hoje no Natal. Algumas tribos celebravam ao redor de um pinheiro, uma das árvores mais resistentes ao frio, o que tinha dois significados: além da força, por suportar o rigoroso inverno, a sua forma, apontando para o céu, significava a união dos homens com o Sol. Para representar essa fertilidade que se iniciava, os participantes na festa trocavam presentes entre si, e enquanto dançavam e tocavam, comiam bolos e grãos. Árvores verdes eram ornamentadas com ramos de loureiro e iluminadas por muitas velas para espantar os maus espíritos da escuridão.

Foi só em meados do século IV d.C. que se começou a festejar o Natal cristão, como se sabe, pois a data do nascimento de Jesus foi fixada no dia 25 de Dezembro. Contexto histórico àparte, o Natal foi-se mantendo como festa da família, e a própria palavra significa «nascimento». Por isso, renasça a esperança…

Finalizo com a ideia de Hannah Arendt, que combate o conceito de «homem como ser para a morte» com a esperança de um novo começo e com a afirmação de que os homens se definem como seres natais.
Cada pessoa, sendo singular, é um novo começo em virtude do seu nascimento - é “o nascimento de novos seres humanos e o novo começo a acção de que são capazes em virtude de terem nascido”. Sendo com “palavras e actos que nos inserimos no mundo humano”, agir, no sentido mais geral, é iniciar, imprimir movimento a algo.

Em virtude de termos nascido iniciamos, não alguma coisa mas a nós próprios - “homens que por terem recebido o dúplice dom da liberdade e da acção, podem estabelecer uma realidade que lhes pertence de direito”. Assim se radica o poder-de-começar…

A celebração desta quadra, em todas as nações, nos mais variados modos, tem subjacente um sentido de Natal, que transcende as barreiras da linguagem. De festa da esperança de renascimento e de maior confraternização entre nós.

Nesta época, reconcilie(mo)(nos) conosco, tornemos claro aos que amamos que os amamos, perdoemos(nos) o que não correu bem ou o que foi menos bom, e retemperemos a partir de dentro para a etapa seguinte da vida. Boas Festas e Feliz Natal a CADA DIA.






gosto por portas

17 12 2007

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Ao longo de uma rua, a diversidade de portas pode ser metáfora de singularidade, apesar das semelhanças. Ou por causa delas.

Em dias atulhados de coisas, a fazer e por fazer, uma série criativa de portas é também uma oportunidade de divagação.





reflexivos… ano de 2007 e “competências”

2 12 2007

Há muitas coisas que se lêm pela(s) vizinhança e que perpassam para aqui. Trago duas, por hoje:

O Ademar já fez um telegráfico balanço do que 2007 não foi. Do Abnoxio costumo sair de sorriso ou de cenho franzido. Nem que mais não seja, pela reflexão projectiva do que o (meu) 2007 não foi, neste caso. Algumas coisas não foi para poder ser outras, o que nem é mau… Ainda que haja uns «nãos» (dele) que corroboro (eu).

O sorriso, tanto por reencontrar Heinlein como pelo magnífico excerto no Aprender e Ensinar. Pedindo licença, JNA, traço o sofá reflexivo para a lista:

A human being should be able to change a diaper, plan an invasion, butcher a hog, conn a ship, design a building, write a sonnet, balance accounts, build a wall, set a bone, comfort the dying, take orders, give orders, cooperate, act alone, solve equations, analyze a new problem, pitch manure, program a computer, cook a tasty meal, fight efficiently, die gallantly. Specialization is for insects.

Robert A. Heinlein

Pensar nesta lista, mesmo como metáfora, é interessante (também) para fazer contas:

Um ser humano devia ser capaz de

trocar uma fralda,

planear uma invasão

matar um cerdo

dirigir um barco,

desenhar um edifício,

escrever um soneto,

equilibrar contas,

construir uma parede,

consertar um osso

consolar o que morre,

receber ordens,

dar ordens,

cooperar,

agir sozinho,

resolver equações,

analisar um novo problema,

espalhar estrume,

programar um computador,

cozinhar uma refeição saborosa,

lutar eficientemente,

morrer galantemente.

A especialização é para os insectos.

Felizmente (para mim), poucas coisas da lista têm qualificativo (não afirma planear eficazmente uma invasão ou escrever um belo soneto…) . Faltam dimensões do domínio afectivo - assuma-se que Heinlein estava só a pensar no que se faz. E que ao ser humano cabe poder fazer o que quiser.

Contas feitas, de mãos largas, ando pelas 15 (16, se jogar Risco contar como planear uma invasão) em 20, pois que a 21ª só poderá ser vista de fora.





A falácia da banalidade das coisas triviais

10 11 2007

Na linha do horizonte, onde as serrilhas da montanha esculpem o céu, os raios de sol gotejam pela encosta. Vejo mal, pois claro (que raios de sol não gotejam!). Como em tantas vezes que perscrutei pedaços de vida à procura das coisas que neles antes não vira. Nunca se sabe se é de as procurar que se encontram, ou se encontram simplesmente porque já lá estavam. Se as procuras criam ou inventam, o que sem as essas demandas seria mero inexistente. Menos que miragem. Ou se o julgar encontrá-las é ainda assim uma simples falácia.

Quando as ideias se encaixam, como pequenas peças de um puzzle singular, bem que as procuro ver. Até entendendo vital saber delas, das quase etéreas falácias. Muitas vezes, debalde, pois que se infiltram pelos espaços intersticiais dos pensados, pelos ladrilhos dos vividos, pelos mosaicos dos sentidos. E ainda que sabendo-as confundentes invisíveis, pensar que elas podem lá estar retorna como uma procura. E pode acabar a criar o que se julga procurar.

E assim, no engano das banalidades da vida, emergem palavras e imagens, sentimentos e ideias. Revejo o que se foi mutando e o que se manteve, e percebo que a percepção das banalidades é (também) o que permite a construção do agora. De Píndaro tomo o torna-te o que és; de Nietzsche, o imperativo transforma-te no que vais sendo. E a aceitação é sempre uma acção sobre o novo, de poros abertos e alma em movimento. Por isso faz sentido dar sentido às banalidades, na vitalidade da belíssima frase nietzschiana: “aqui poderíamos viver, posto que aqui vivemos”.

Banalidades sejam - as coisas pensadas, vividas e sentidas. Trivialidades.

Pois que o banal se contamina, de mim e como eu, da finitude e da precaridade, da insignificância. Pode ser assim, porque a certeza da morte faz a vida – a minha vida, única e irrepetível, por banal que seja – algo tão mortalmente importante para mim. Com a aceitação do sentimento trágico da vida de modo pleno, de sorriso largo pois que mesmo quando existe escuridão, é possível reevocar a gargalhada da vida, a potência da força e da vontade. O trágico está presente - afirma-se pelo que foi, pelo que é, pelo que será. Sem frivolidade, possível de acompanhar com riso. O riso da alegria do instante presente. Ou não. Dependendo da banalidade singular. E da falácia que ela não viu.

 

Em horizontes, mares e marés, Directriz escreveu e eu escolhi a imagem que acompanhou o texto. Desta feita, em reverso, fui desafiada a escrever e Directriz escolheu a imagem. Nearly full moon rising.





Horizontes, mares e marés

28 10 2007

Soul Cages - Piotr Kowalik

 

 

Há dias, repetidas vezes e com os olhos vidrados no vazio de outros horizontes, alguém dizia-me: “A minha alma está parva!

Devo dizer que também parvo fiquei. Já não sei já se a minha alma terá ficado, mas eu fiquei. Ou, pelo menos, certo eu ficou. Como atordoado permaneço. E é desse outro eu que, aqui em amigo e simpático desafio, não consigo conjunturar.

Seguramente é pela minha incompetência que incapaz sou. De inteligir, quão se deve inteligir, que o que nos resta é, afinal, uma singela falácia. Não fosse viver, afinal, sempre menos que uma singela falácia…

Julgo saber o que são mares. Já não sei, todavia, o que mares são. Se horizontes pespegados de reluzentos e encandescentes nasceres, se gotejados de melhores findares.
Não sei também quais. E quais olhos os inexpressam e os exibem.
Ignoro, pois, que também mares me são ou sê-lo-ão. Só posso eu falaciamente parecer estar.

Nos sonhos, que não são os meus, o burburinho das marés não são.
Não são marés, porque sem mar mensurável. Não são ondas, porque nas brumas do que não sei e do que não sei conheçer só tenho irredutíveis certezas. De finíssimo e etéreo pó de prata, marca indelével de que não as tenho.

Como a maresia é ilusão do mar, o mar do meu inexistente reflexo e as suas surdas marés ilusão dos meus tempestuosos silêncios.
Afinal, esse meu eu, parvo ou não, é mesmo só uma falácia, não é?

 

Texto de Directriz - que acompanha as conversas das falácias desde o início - e passamos de náufragos e ilhas, elos e falácias a ESTE horizontes, mares e marés. Grata pela gentileza. E pela adesão ao desafio…





De náufragos e ilhas, elos e falácias

24 10 2007

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Depois de ler a Falácia de Robinson Crusoé, que recomendo, parto de um conceito que me é muito caro, a saber, o de autonomia. Poderia trazer comigo Freud, Marx e Nietzsche - os reconhecidos Mestres da Suspeita. Mas simplifiquemos: ao contrário do que o pensamento mitológico diria, o sol, a lua e o universo, na realidade não estão relacionados nem são afectados directamente pela maneira como eu me comporto. E, portanto, cada ser humano (eu, incluída) está isolado no mundo, neste sentido da não afectação do que o circunda.

Todavia, estamos neste planeta, animais entre animais. Quando uso a metáfora do Robinson Crusoé para distinguir ética de moral (com a chegada do Sexta-feira), entendo que ninguém vive sem verso e reverso.

Não é possível entender uma vida humana isolada, num ecosistema completo onde se viva e se mova, onde se seja. Viver e estar com os outros, representa ser influenciado por eles e, reciprocamente, influenciar. A ilusão da autonomia pessoal não é a da falácia de Robinson Crusoé, náufrago sobrevivente sozinho numa ilha - pois que na esfera pública e nas esferas privada e íntima, o que cada um faz tem repercurssões nos outros.

Uma espécie de interconectividade recíproca (será que pode dizer-se assim?).

E o facto de estarmos ligados aos outros, pode constituir uma ameaça à autonomia (aqui, sigo Kant) e deixar prevalecer a heteronomia (quando o que rege a minha conduta vem de fora, de outros). Ora daqui vai um saltinho ao risco ou tentação de colocar os afectos adiante das razões e dos argumentos. E a «regressar» à falácia afectiva. Ou não?!

Convoco, de bom tom e passadeira vermelha, uma das companhias destas conversas de falácias, desde o seu início…

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a(s) praxe(s)

9 10 2007

Cruzei todos os dias destas semanas com as cenas da praxe… aquela, lá no sítio onde habito.
Parei muitas vezes, a sorrir-me com o que ouvia e via, e a confirmar que os veteranos respeitavam os limites… E, até, a ver como os caloiros «praxam» os veteranos, no modo como respondem aos desafios. Lá, no meu sítio,

que também é o dele, que afirma “nós, os estudantes mais velhos, temos a preocupação de zelar acima de tudo pela segurança e integridade dos estudantes recém chegados! A praxe não é de modo algum obrigatória, e não vincula ninguém! Não ostracizamos ninguém por não fazer parte das actividades de integração à vida académica!”

é perguntado, um a um, se querem entrar na praxe. E aos que dizem que não, não é. Em anos outros, lembro-me dos que não foram praxados e de isso não ter constituído nenhum problema.

No final desta semana, uma das estudantes perguntou-me directamente o que pensava eu sobre as opiniões sobre as praxes - porque isso tem sido discutido, claro…
E há quem considere as praxes como um movimento de humilhação e «terrorismo».
Até porque há quem se exceda.
E há quem as veja como actividades de integração académica, entre as brincadeiras, os passeios à cidade, o batismo, o tribunal de praxe…
Porque há quem as viva com alegria e muito a brincar.
E há quem, como a Associação de Estudantes, se preocupe com os eventuais resultados e elabore um questionário para auscultar as opiniões sobre as praxes (Parabéns a eles, por isso).
E quem pense no assunto, na procura do que podem ser os limites - bons pretextos para pensar as praxes, então. Se a Praxe Académica funciona como integração, deve ser fortalecedora de laços, acolhedora de quem chega e passa a as provas, e virá a usar o traje. Traje Académico, símbolizar da pertença e da igualdade de todos os estudantes.

Discutíveis, como os rituais.
Ligadas à sensibilidade pessoal, como a valoração das vivências.
Conexas com os juízos sobre as coisas, como as convicções.

conversamos?!….

(imagem aqui)





uma moldura: quem, que, como, porque

5 10 2007

Gosto de separar o “Quem” e o “Que”.
O sujeito e o(s) atributo(s) que o caracteriza(m) - é preciso perceber os “Quem’s” envolvidos nas coisas - e distinguir o “como”, que é apanágio dos processos.
“Quem sou”, difere de “o que sou” e difere do “modo de fazer” as coisas (o como). Como o sentido global de ser Quem sou, não se esgota no que de ser enfermeira, professora, mãe… ou à forma como converso, preparo aulas, vejo filmes, defendo ideias.

Às vezes, juntamos tudo. Quem, o que, o como.
E, mais, às vezes até achamos que os Outros gostam (mais) de nós quando o Quem, Que faz as coisas, as faz Muito Bem. Conversando com uma amiga, chegávamos a essa conclusão: da mistura (enraigada, desde a infância?) entre os sentidos de se gostar de um alguém (Quem) Que faz as coisas (como?) de um modo certo. Ou de se pensar de si, que se é mais gostado pelos outros quando se age bem, se tem boas notas, se alcança sucesso… ou, em sentido inverso, que ser criticado ou algo correr mal, significa que o afecto dos Outros diminui. Não sei se estou a ser clara, na conversa. Mas em muitos momentos, devia ser mesmo às avessas.

Se o Quem decide os Que’s e os Como’s, ainda assim falta o porquê - que é da linha das razões e não sai fora deste excerto de conversa.
Quem gere a sua vida, decide o Que fazer e também o modo (Como), diferencia-se também pelos porquês que suportam a sua conduta.

Afinal, há coisas para as quais não há atalhos… ou não há modo de atalhar.
(que era o que Aristóteles dizia a Alexandre, a propósito da Filosofia).





Das opiniões

4 10 2007

No Livro V de A República Platão distingue claramente entre episteme e doxa.
É da episteme, ou gnosis, termos habitualmente traduzidos por conhecimento, que surgem as verdades necessárias e fundamentais, nas quais a ciência se baseia.
A doxa, que se traduz por opinião, diferencia-se da episteme por fazer parte da verdade pré-crítica e de uma compreensão pré-ontológica. A doxa estaria situada num nivel intermediário entre o conhecimento e a ignorância, caracterizando-se pela multiplicidade e relativididade.

As opiniões discutem-se…
– se não se discutissem, seriam dogmas ao invés de opiniões.

Um dos elementos que podem ser decisivos é colocar as coisas sobre a mesa, de assumir que temos de discutir o que fazemos. E discutir não é zangarmo-nos pelas diferenças de opinião.

É muito mais no sentido de procurar as raízes das coisas, do debate de razões ou dos fundamentos das práticas – porque ter uma opinião não pode ser couraçar-se, fechar-se numa redoma mas antes confrontar-se com provas, factos e evidências. E julgo que as opiniões não valem todas o mesmo, não são todas igualmente respeitáveis.

Como afirmou Savater, todas as pessoas são respeitáveis; algumas opiniões não são. Pensar que a opinião de todos vale o mesmo é uma falácia, uma pretensa liberalidade.As ideias não valem a não ser que quem as sustente possa aduzir provas, dados, raciocínios.

Quando se afirma opinião, tem de se ser capaz de fundar e justificar essa opinião de forma consistente. E de pugnar por ela…





o mais feio e o mais sábio

29 08 2007


Refiro Sócrates muitas vezes e tenho-o como um dos maiores vultos do pensamento. O filósofo por excelência, como afirma Hannah Arendt.

Terá nascido em 470 (ou em 469 AC) num subúrbio de Atenas.

Filho de um escultor (Sofronisco) e de uma parteira (Fenareta), assumiu a profissão do pai e transformou a da mãe em paixão intelectual (integrando aqui a ideia do método maêutico).

Acreditava que se as pessoas entrassem em diálogo podiam encontrar as suas próprias verdades.

Auto-designou-se como moscardo e parteira, porque queria incomodar e ajudar as ideias a nascer.

Corajoso em combate – serviu como hoplita (soldado da infantaria) e participou na Guerra do Peloponeso, nas batalhas de Potidéia, de Délion, em que os atenienses foram vencidos pelos tebanos, e na batalha de Anfipolis, na Trácia. Relevo ter salvo Alcibíades numa batalha e noutra ter carregado Xenofonte, gravemente ferido, aos ombros.

Não se afirmou como filósofo, pois dizia não ter nada para ensinar e «sei que não sei» é uma escassa premissa para o ensino. Nem escreveu nenhum livro, pelo que o que sabemos (ou julgamos saber) dele foi-nos transmitido por terceiros. Particularmente por Platão e Xenofonte.

Era muito feio (aliás, em O Banquete, Alcibíades considerou–o extremamente feio, que se parecia com um sátiro ou um sileno e que era como aquelas estátuas de silenos que se abriam e que continham imagens de divindades, pois o rosto de Sócrates escondia a mais bela das almas).

Sendo considerado o homem mais feio de Atenas, era, simultaneamente, tido como o homem mais sábio do mundo antigo. Assim o afirmou a pitonisa do oráculo de Delfos…

Argumentador rigoroso, bem-humorado, que usava facilmente a ironia.Sentava-se ou passeava ou banqueteava-se, à conversa com amigos, discípulos, com quem aparecesse. Está descrito um notável auto-controle, a ingestão de vinho sem se embriagar assim como a resistência aos prazeres sensuais.

Igualmente notável a sua força moral - que exemplifico com um episódio. Atenas venceu uma batalha naval - Arginusas (em 406 aC) – e com a tempestade, os dez generais atenienses regressaram sem trazer os corpos dos soldados mortos, o que era, na altura, um crime punido com a morte.

Conta-se que Sócrates foi o único prítane responsável pela Assembleia que se opôs a que julgassem os generais em bloco, num só processo, pois o julgamento devia ser individual, um a um. Quem ia sendo linchado era ele, pela fúria do povo, que queria um só processo (e morte) para todos os generais.

Com 50 anos foi ao oráculo de Delfos, e apropriou-se da máxima escrita na entrada do templo, como lema para a vida: «conhece-te a ti mesmo».

Teria 55 anos (em 415 aC) quando se casou com Xantipa – senhora de um proverbial feitio irascível, no dizer de Xenofonte “a mais insuportável das mulheres passadas, presentes e vindouras“. Há uma história pouco apurada, relacionada com Mirto, antes, durante ou depois de Xantipa. Assim, e sem arriscar de quem, teve 3 filhos - Lamprocles, Sofronisco e Menéxeno.

Em 399, três cidadãos – Anito, Meleto e Licon – acusam-no de corromper a juventude e não reconhecer devidamente os deuses. A ideia é curiosa: dizer algo como pensa por ti, não obedeças aos deuses por tradição, procura as tuas convicções é corromper… é subversivo.

Sempre achei que Sócrates correu um alto risco ao defender-se a si próprio - da defesa ficou o texto de Platão, entitulado «Apologia de Sócrates».

Os acusadores pediram a pena demorte. Por pressão de Platão e dos outros amigos, Sócrates aceitou contra-propôr uma multa de 30 minas, que Platão e os outros se comprometeram a pagar.

Foi condenado à morte pela cicuta. Os amigos e discipulos – liderados por Críton - prepararam uma rota de fuga e asseguraram os meios para a evasão da prisão.

Sócrates recusou, declarando não querer desobedecer às leis da cidade e à decisão.

As suas últimas palavras foram:
“Críton, devemos um galo a Esculápio: pagai a dívida e não vos esqueceis”.

Tinha 71 anos.

Teve duas formas de escapar: ao julgamento se tivesse desistido da filosofia e à condenação se se tivesse evadido. Recusou ambas.

Convicção de um homem que se proclamou “cidadão do mundo”.

De quem terá afirmado: “é melhor suportar a injustiça do que praticá-la” e “seria melhor para mim que a minha lira ou um coro que eu dirigisse estivesse desafinado, e que multidões de homens discordassem de mim do que eu, sendo um, estivesse em desarmonia comigo próprio e me contradissesse”.

Socrates Life and Times, Kanna Philip
Socrates Life and Philosophy, Enciclopaedia Britannica