(foto trazida de ninguém viu)
Um dos problemas de querer usar exemplos da literatura é deparar-se com um ar de incompreensão… As literaturas grega e latina, os mitos, a narrativa biblíca, costumavam fazer parte da educação, julgava eu. Vou tomando consciência de que toda uma tradição de informação do Ocidente se pode ter vindo a perder. Ou então, sou eu que a vejo pouco…
Dizer «alegoria da caverna» e ter de explicar o que é, usar a analogia do «prato de lentilhas» e ter de contar a história, são meros exemplos. Quotidianos.
Como o mito das Valquírias ou…
O que é que os mitos e a literatura teêm a ver com o hoje?
Eram (são) fontes de reflexão, dão suporte ao pensar e ligam-se aos problemas interiores, aos mistérios, aos percursos e limiares da nossa travessia pela vida e na continuidade da memória humana.
Aquilo que os seres humanos, ao longo dos tempos, partilharam está escrito nos mitos, nos romances, nos poemas. Os mitos, por exemplo, são histórias da busca da verdade, da busca do sentido. Para Jung, os mitos estão guardados no inconsciente individual ou colectivo - e de lá saem para integrar o consciente, produzindo o crescimento do ser humano. São «arquetípicos», afirma Jung, marcas antigas que se repetem e reaparecem, já que têm por base a natureza humana.
Por exemplo, a lenda do Graal, cuja busca representa o caminho espiritual que devemos fazer e que se estende entre pares de opostos, entre o perigo e a bem-aventurança, entre o bem e o mal, pois não há nada de importante na vida que não exija sacrifícios e algum perigo. Escrevo «caminho espiritual» e poderia escrever«caminho do espírito».
Uma das versões da lenda do Graal inicia-se com “Todo o acto traz bons e maus resultados”. Podemos partir daqui para uma (interessante) reflexão, não parece? Ah, mas toda a gente conhece a história do Graal.
Ainda que não se conheçam os antigos, alguns podem ver-se, reinventados, na Sétima Arte. Digo «Marco Aurélio» e é desconhecido. Pergunto quem viu o filme e se lembra do imperador do «Gladiador» e já há mais gente a saber quem é.
Usaria aqui o exemplo de «O Senhor dos Anéis» de J.R.Tolkien. Tinha ele 78 anos, quando, num documentário para a BBC, o entrevistador perguntou: “Poderia-nos dizer, sr. Tolkien, qual é o verdadeiro tema de ‘O Senhor dos Anéis’?”. E Tolkien responde: “O tema de ‘O Senhor dos Anéis’ é o que todos as epopéias falam sem excepção: a morte inevitável“.
Por morte, entenda-se dor e sofrimento, e esses dois são o cerne do maior problema que persegue o ser humano desde o início dos tempos: o problema do Mal.
Com um início banal, mostrando a vida no Condado e apresentando Frodo, o sobrinho de Bilbo, o hobbit que roubou o anel mágico a Gollum, “O Senhor dos Anéis” parece que será mais um conto de fadas no melhor estilo “eu acredito em duendes”. Depois, Gandalf entra em cena – e fica a saber-se que o anel aparentemente inofensivo é o Um-Anel, forjado entre inúmeros anéis por Sauron, o Senhor das Trevas que vive em Mordor.
Pouco a pouco, o que parecia ser uma história para crianças, torna-se uma saga sobre o Poder, e no momento em que se menos se espera, do lugar mais improvável, da pessoa menos preparada, vem a luz. Ou o Bem, que aparece de modo insólito, mais ilógico, mais alucinante - e mais dolorido. Tolkien trata, assim, num livro de fantástico, a busca de um sentido, a restauração de uma ordem.
A vida é uma peregrinação, aventura única em que todos têm uma missão, e ela deve ser cumprida, não importa o quão impossível. E agora, caberia a entrada ao «Doutor Fausto» de Thoman Mann. Todavia, acho que o exemplo já se alonga.
As grandes questões filosóficas, de fundamental importância para todos, acabam por ser preocupação de apenas uma minoria. Uma minoria minor. Esperemos que, por vias diferentes, esta e as próximas gerações saibam (re)encontrar o passado da humanidade e inscrever o seu próprio pensamento nessa história.