2 - Escrita de professores

7 06 2007

É bom assinalar, como escreveu Rui Canário, que a acção dos professores só em parte é determinada por factores individuais e macro-sociais. Na verdade ela é fundamentalmente mediada pelas organizações onde estamos inseridos.
Como se as organizações desempenhassem o papel de filtros que deixam passar certas iniciativas e certas acções, mas não outras, segundo critérios que radicam nas suas lógicas de poder internas. Ou como se tivessem muito mais potencial de peneirar e separar elementos do que cada pessoa singularmente…
Se fizesse apelo a Edgar Morin, diria que esta profissão de ser professor é complexa, onde a incerteza e a ambiguidade ampla dos contornos são traços definidores. E para fazer face ao real, o professor conta acima de tudo consigo próprio. Contra a incerteza e as suas próprias dificuldades, com o conhecimento como referência teórica mas admitindo a sua precária transferibilidade de situação em situação, ser professor é estar envolvido num processo de construção e desconstrução, continuamente interrogativo.




1 - Escrita de professores

29 05 2007

É espantosa a dimensão do papel do(a) professor(a)… e a necessidade da (sua) adaptação aos contextos em que pretende promover o aprender e o pensar.
Deveria ser diferente em cada caso, ou melhor, para cada estudante e caso-a-caso, em termos do âmbito da formação.
É diversa a acção quando se está perante um jovem recém-chegado ao ensino superior, que anda entre os 17 e os 19 anos, ou do adulto que chega à mesma etapa de realizar um curso superior.
Ou quando se está frente ao profissional em formação pós-graduada, que exerce e traz consigo os desafios dos quotidianos. E, como se não bastasse, diferente ainda é o caso-de-cada-caso, quando quem se propõe estudar, se impele a pensar sobre si e a questionar-se, ou se tem o desafio de inquietar quem não pretendia inquietar-se na tarefa.

Ensinar, que é esta tarefa de quem professa ser professor, exige respeito aos saberes que cada um dos estudantes traz, até porque as suas experiências e convicções podem suportar a discussão a que se associa a disciplina.
Mais: supõe e exige risco, tanto pela aceitação do novo e do diferente; como pela negação do velho ditado — “faz o que eu digo mas não faças o que eu faço” —, pois aquilo que ensina e diz tem de ser o primeiro a dar o exemplo.

E da lista extensa que poderia escrever em torno da ideia de «ser professor exige», hoje fico-me pelo comprometimento - sobretudo numa prática (docente) que é profundamente formadora e, por isso, ética.

Outro dia embaracei-me profundamente por um exemplo dado por professores. E o embaraço não foi pelo conteúdo da discórdia mas pelo modo - pois que julgo que o processo de expressar desacordo e dissenso, quando se trata de um professor, tem de ser patenteado com o estilo de quem pensa e a seriedade de quem enobrece o que faz.

Por isso, penso em comprometimento no sentido de reconhecer que é impossível a neutralidade e a impassibilidade - e que o desafio é maior do que ensinar o que os programas dizem, mas ir ao que é preciso discutir e problematizar, como pessoa e cidadão.
A tarefa - desafiadora e auto-criticante - é ajudar a formar gente pensante, capaz de perceber e combater injustiças, que não aceite passivamente os ditos de uma “elite”, seja ela social, política ou intelectual, antes argumente criticamente e não se resigne facilmente.
Ora juntar isto - que expressa convicção - à maleabilidade aos traços singulares de cada estudante, pode ser complicado…




colectânea de conversas

29 05 2007

-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-

-
-
Conversámos aqui sobre as virtudes capitais dos professores
1 - respeito singular
2 -
entusiasmo
3 -
curiosidade e inquietude
4 -
acreditar nas capacidades dos estudantes
5 -
humildade
6 -
gerir a relação e os afectos
7 - procurar ser justo nos processos
bem assim como os pecados mortais
1- da arrogância titulada
2 - da acédia ou a inacção profissional
3 - da discriminação ou a des-igualdade
4 - da ignorância-quando-era-suposto-saber
5 - da pequenez de visão e de espírito
6 - do embotamento emocional
7 - da pressa
e dos des-cuidar
E igualmente, virtudes capitais dos estudantes
1 - a humildade
2 - a irreverência
3 - a generosidade
4 - a ousadia
5 - a resiliência
6 - a solidariedade

7 - o empenhamento
e pecados mortais
1 - a preguiça intelectual
2 - a inveja
3 - a indiferença
4- A desonestidade
5 - A calúnia
6 - A inoperância
7 - a procrastinação

ainda que vistos da perspectiva do professor.

Caminho(s) de tese era para ter sido o início de uma «rubrica». Referente, de novo (e sempre) à tarefa e ao papel do professor, numa peculiar dimensão.
Aprendentes Adultos, seguia essa ideia, de ajustamento e de adequação, requerida ao professor.

Faz tempo que vou escrevendo «escrita de estudantes» e agora, está no tempo de entrar a escrita de professora… já a seguir…





caminhos de tese(s)

17 12 2006


ter gente por perto a fazer o caminho de uma tese não apenas traz, de volta, momentos de isolamento e de procura algo solitária, como a alegria da descoberta ou do entendimento - extraído, às vezes dificilmente, de minas profundas, tantas vezes deslizante entre ideias e sinapses.

fazer uma tese como há quem diga, é algo singular pela relação próxima com o próprio autor da dita - ou seja, se considero que cada mestrando faz o seu Mestrado ou doutorando o Doutoramento, porque cada um se aplica e investe tanto quanto pode, quer ou é capaz, (razão pela qual provavelmente ninguém faz, realmente, o mesmo programa, ou curso, por exemplo) também julgo que cada tese é, antes de mais, resultado do investimento cognitivo e pessoal, de cada um. Porventura, suplantando a questão das capacidades ou das habilidades de partida.
Ademais, fazer uma tese supõe aprender e divertir-se…

orientar uma tese passa por, antes de começar, ter a certeza que o tema agrada e que o orientando efectivamente se propõe trabalhar, pois a convivênvia pode ser longa e é suposto que seja profícua para ambas as partes; e também é partilhar os percursos, gratificar o esforço, aquietar a impaciência, incentivar a ousadia, permitir o arrojo temperado com consistência, ajudar a rir de si mesmo e a reestruturar caminho, apoiar o aventurar-se cientifica e metodicamente. E depois, no fim, tese feita, não é quando o caminho termina, é quando tudo começa…

(fonte da imagem Roman writing kit)





Ei-los que chegaram…

28 09 2005

Seriam dez horas, no exterior do edifício; como em anos anteriores, parei a vê-los…
Reparo que sorriem, apesar das pinturas (que não ruprestes mas rudimentares) e suportam a instrucção do código da praxe, feita pelos tão bem trajados veteranos.
Vindos do secundário, de perto e de longe, trazem na bagagem interior os medos e as alegrias de uma meta (para a larga maioria, a meta-da-primeira-opção).
Não sabem ao que vêm mas vêm.. e de ar contente, como quem vai hastear bandeira em território inexplorado.
Suportam a fila das matrículas, a troça alegre dos que já estiveram no seu lugar. Olham, com admiração, o traje e a capa, os gestos dos habituées, as saudações e os gritos de reencontros.
Entre o embaraço e a excitação, têm passos hesitantes, de quem desconhece o roteiro.
São uma mão-cheia entre milhares que ficaram fora do sistema.
São uma mão-cheia entre os que acederam ao ensino superior, numa área de formação que os trans-formará.

Enquanto os ouvia cantar, fiquei a pensar que realmente não sabem o que os espera mas quando souberem, a exemplo de outros antes e de outros que virão depois, vão arregaçar as mangas, ter aulas 30 horas por semana e ensino clínico por 35, queixar-se e emocionar-se, protestar e arrepender-se, viver momentos de euforia e de desânimo, enfim, um universo de coisas naturais de quem vai crescendo e aprendendo. Sobretudo, de quem chegou ao curso de enfermagem, para fazer com outros, em colectivo, uma formação que também afecta cada um para dentro…
Trata-se de receber um jovem adulto e oito semestres (e, pelo menos, 4.600 horas) depois ver sair um recém-cursado que se deseja competente, num trajecto de curso e de vida, de crescer e de transformar-se, de encetar caminho rumo à excelência (em todos os sentidos).
Ei-los que chegam… e eis também porque vale a pena esperá-los e acolhê-los.