FWN

29 05 2008

Se tivesse liberdade de escolher

Escolhia um bom cantinho

Mesmo no meio do Paraíso:

Melhor ainda, cá fora, em frente à Porta!

Nietzsche

O desafiador por excelência. Friedrich Wilhelm Nietzsche, de nome inteiro e ar formal. Senhor dos aforismos e de breviários de citações.

Com uma visão crua da educação e dos educadores - “A educação procede geralmente dessa forma: procura determinar no indivíduo, com uma série de estímulos e de vantagens, uma maneira de pensar e de agir que, tornada por fim hábito, instinto e paixão, dominará nele e sobre ele, contra seus interesses superiores, mas ‘em benefício de todos’”

D-escritor de uma das mais controversas definições de verdade: “O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que de forma enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.”

A fazer a apologia do esquecimento - “Não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento”.

Colocando o cepticismo e a determinação, juntos - “Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.”

E a provocação, de sarcasmo e jocoso, de insulto - “Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza.”

E, finalmente por hoje, desafios do abismo - “A alma, em sua essência diz a si mesma: ninguém poderá construir a ponte que você em particular terá de atravessar sobre o rio da vida – ninguém além de você mesmo. Evidentemente existem inúmeros caminhos e pontes e semideuses prontos para o transportar através do rio, mas somente ao preço do seu próprio ser. Em todo o mundo, existe um único caminho que ninguém além de você poderá tomar. Para onde leva? Não pergunte, apenas siga-o. Quanto antes alguém diz: Eu quero permanecer eu mesmo, mais cedo descobre que a decisão é atemorizante. Agora ele terá de descer às profundezas da sua existência”.

E a beleza das metáforas - “É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela…”





dos intelectuais, na escrita de Foucault

20 05 2008

“A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.

Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo… Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir…”

“Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante. Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando “criticam” alguém, quando “denunciam” as suas idéias, quando “condenam” o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: “demolir”, “abater”, “reduzir ao silêncio”, “sepultar”. E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico.”

Michel Foucault, imagem e texto aqui





voltar a Arendt

6 04 2008

É sabido que leio e releio Hannah Arendt… Gosto da figura, do percurso, das ideias, do estilo de pensar. Cruzaram com ela alguns dos mais notáveis pensadores do século - Martin Heidegger, Karl Jaspers, Hermann Broch, Walter Benjamin, Husserl, Adorno, Hans Jonas, Raymond Aron, Paul Tillich, entre outros. Relevo a sua amizade com Mary MacCarthy e o trabalho (notável) que fez com os escritos finais bem como o de Jerome Kohn, herdeiro testamentário .

Voltei a Homens em tempos sombrios,

Todas as dores podem ser suportadas se você as puser numa história ou contar uma história sobre elas” - é a partir dessa citação feita por Isak Dinesen, que Arendt escreve sobre a importância que, em tempos sombrios, obras, pessoas e actos possuem de iluminar a vida.

“O que verdadeiramente importa é que tal iluminação pode bem porvir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra.”

A sua preocupação com o mundo e a pluralidade humana impressionaram-me tanto quanto a ideia de nós como «seres mortais que pensam o eterno» e que devemos aceitar o humano que somos.

A acção tem como condição a pluralidade humana, que se afirma por meio da relação dialógica e pelo espaço-entre-os-homens. A verdadeira experiência consiste na abertura recíproca do homem e do mundo e é por interditar exactamente a possibilidade dos indivíduos se revelarem a si mesmos e aos outros para instituírem, em conjunto, um mundo, que o mundo totalitário é um não-mundo.

A unidade do género humano está longe de ser uniformidade: é a diferença absoluta entre homem e mulher que os torna humanos tal como entre os naturais de diversos países. Aliás, “um cidadão do mundo, vivendo sob a tirania de um império mundial, falando e pensando numa espécie de Esperanto solene, seria tão monstruoso como um hermafrodita”.

O mundo, enquanto mundo comum, é o espaço da aparência, o mundo público, onde aparecemos ao nascer e de onde des-aparecemos ao morrer, o mundo que se estende entre os homens ou entre as gerações de homens. Nós somos responsáveis por esse mundo que compartilhamos e temos a tarefa de cuidar dele.





modos de olhar a decisão

20 02 2008

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A identidade ética tem representações - nas virtudes, nos valores. E se aparecem em actos, é porque e na medida em que se materializam, pois a sua radicação é na interioridade ética mais profunda. Se os pensadores que advogam esta perspectiva tiverem razão, como julgo, posso afirmar que a ligação entre os pensados e os manifestados passa pela decisão.

Podemos pensar a decisão de um modo epistemológico como dispositivo para actualizar o saber, que é «convocada» sempre que se revela necessário produzir um veredicto de aceitação ou de recusa de integração de um facto novo ou de algo que emerge em contexto.

Podemos pensar a decisão de um modo ético, como etapa final de um processo, em que a deliberação assume maior relevo, ponto de chegada sempre que se atravessaram as perspectivas dos valores e se produz um juízo para agir.

No espaço de tensão gerada entre a teoria e a experiência, ou entre o problema e acção que o pretende resolver, a decisão encontra o seu lugar e a função de ser modo de superação, ao serviço do desenvolvimento do saber ou da melhor práxis da acção.

Ao decidir, o investigador desempenha um papel de árbitro entre factos e métodos, numa procura da solução mais conforme bem como a função de produtor (e inventor) de soluções, guiado, como afirma Perelman, por exigências de simplicidade, economia do pensamento, fecundidade, regularidade e generalidade.

Ao decidir, a pessoa escolheu uma possibilidade entre outras, tomando aquela como mais adequada, relevante. pertinente e profícua. Os actos que realiza decorrem dessa decisão, que foi procurando estruturar-se em torno da melhor resolução possível de um problema e de um julgamento relativo a valores.

Neste processo de pensar, chego à conclusão (provisória, como sempre) que a decisão, tanto em termos éticos como epistemológicos, desempenha papel análogo. Em ambos os domínios, a estrutura das proposições e dos processos é algo em permanente construção, o que convoca necessariamente uma decisão humana casuística e ajustada - e a assunção dos riscos que lhe estão associados, em termos de razoabilidade e eficácia, compreensibilidade e justeza.

Parece consistente?!





ser(es) humano(s)

27 01 2008

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A experiência da contingência radical é fundante da vida humana: nada nos garante, de antemão, que as possibilidades se efectivem.

O ser humano é, inevitavelmente, ser de decisões: toda a nossa vida é uma sequência de decisões, em que nos pomos diante de alternativas diversas e  optamos. Não estamos presos a um instinto, nem plenamente determinados. Actuamos num espaço em aberto pelo que a primeira tarefa da vida pode bem ser a tarefa de construção de si mesmo. Ou seja, de se autoconfigurar no mundo, entre os Outros e com os Outros, nas diferentes possibilidades da autorealização e realização de si.

Ser  de uma liberdade situada, ser de decisão, ser do risco e da história, do projecto e da finitude. Ser humano, ser pensante. Cada Eu.

 





16 01 2008

 

Na Temperamentvm, REVISTA INTERNACIONAL DE HISTORIA Y PENSAMIENTO ENFERMERO, que já por aqui referi,

Pela mão de Ricoeur e Arendt:história e identidade. A propósito da memória histórica.

A navegação pela memória, feita por Paul Ricour em La mémoire, l’histoire et l’oubli, reúne a fenomenologia da memória, o percurso epistemológico e a hermenêutica da condição histórica - em comum, estão a problemática da representação do passado, que se descobre exposta ao esquecimento, e, simultaneamente, confiada à sua guarda, assim como o enigma de uma imagem, de um “eikon que se dá como presença de uma coisa ausente marcada pelo selo do anterior”.Encontramos o risco de prevalência do “império do esquecimento” dividido entre a ameaça do apagamento definitivo e o seguro dos recursos da anamnese.

Para o que ora nos importa mais, a memória desenha a capacidade de lembrar pelo que se relaciona aos poderes de base do sujeito, como o de falar, de agir, de narrar, de ter-se por autor dos seus actos; por tal nos reenvia para uma antropologia do sujeito. E sendo que “não ter-se esquecido é o poder de recitar sem ter de reaprender”, esboçando-se uma ligação à pedagogia da memória, ao nível ético-político assume um dever duplo que se reúne em forma de futuro e de imperativo, de ambição de veracidade e de uso prático.

O esquecimento (do qual decorre a futilidade) foi abordado, por Ricour, de uma forma particular, como “um atentado à fiabilidade da memória (…), uma falha, uma lacuna”.Na abordagem do nível ético-político da memória, Ricour considera o dever de memória como imperativo da justiça; aliás, o seu discurso sobre a memória traça “duas linhas paralelas”: a da ambição verídica da memória (da fidelidade epistémica da lembrança) e a da utilização prática da memória (visível na técnica de memorização).

continuar a ler 

 





Gianni Vatimo

23 12 2007

A Revista Espanhola de Filosofia de Novembro - A Parte Rei nº 54 - é dedicada a Gianni Vatimo.

Relevo Hermeneutica y Sociedade em Vatimo, de Mauricio Bechor. E outro artigo, de Hector Martinez, A Hemeneutica como Ontologia Nihilista. Reencontre-se Nietzsche, Gadamer e Heidegger, lidos por Vatimo.





Pensar e inteligir

19 10 2007



As palavras
pensamento e pensar procedem de um verbo latino, pendere, que significa ficar em suspenso, estar ou ficar pendente, suspender.

Diria Arendt, que Pensar é estar na Terra dos Invisíveis, por ser uma actividade do espírito que nos faz ausentar da acção.

Intelligere vem da composição de duas outras palavras: inter, isto é, entre, e legere, que significa colher, reunir, recolher, escolher e ler (isto é, reunir as letras com os olhos).

Por isso, intelligere significa escolher entre, compreender, ler entre, ler dentro de.
Daí o sentido de conhecer e entender.
(ciberdúvidas de língua portuguesa)

Cogitare, significa “desenvolver um pensamento atento, reflectido e meditativo.” (aqui)

Se reunirmos os vários sentidos dos três verbos – pensare, cogitare e intelligere -, configuramos que pensar é uma actividade pela qual o espírito coloca algo diante de si para, atentamente, considerar, avaliar, pesar, reunir, compreender, entender e ler por dentro.

O pensamento é a a inteligência saindo de si (passeando, portanto) para ir colhendo, reunindo, recolhendo os dados oferecidos pela experiência, pela percepção, pela imaginação, pela memória, pela linguagem, e voltando a si, para considerá-los atentamente, colocá-los diante de si, observá-los intelectualmente, pesá-los, avaliá-los, retirando deles conclusões, formulando com eles ideias, conceitos, juízos, raciocínios.

O pensamento exprime a nossa existência como seres racionais e capazes de conhecimento abstrato e intelectual, e manifesta sua própria capacidade para dar a si mesmo leis, normas, regras e princípios para alcançar a verdade de alguma coisa.





Fenomenologia: "de volta às próprias coisas"

11 10 2007

Uma Fenomenologia da percepção (título de livro de Merleau-Ponty) é uma Fenomenologia do acto de perceber e do percebido, da noesis e do noema; e, ao mesmo tempo, aquele que se confunde com quem percebe (percepiente) e com o que é percebido.

Sou, como Descartes fundou, sujeito pensante (res cogitans). Mas não apenas. Como aquilo que percebo não é apenas objecto.

Sou, como Heidegger afirmou, ser-no-mundo (Dasein). E enquanto ser aqui, tenho um olhar que pré-objectiva o que me cerca, num espaço e num tempo.

E, existindo, incorpo o que me cerca - e dou-lhe sentido, o que significa transcender a posição que ocupo no mundo, que está espacialmente localizada.

E os julgamentos que faço do que percebo, não são a percepção propriamente dita, tout court, mas a crença perceptiva, que me relaciona com o mundo e faz de mim um ser-aqui, levando-me de volta às coisas sob a mediação da linguagem.

“É a propósito da linguagem que veríamos melhor como se pode e como não se pode voltar às coisas mesmas. Se nós imaginamos reencontrar o mundo natural ou o tempo por coincidência [...] a linguagem é uma potência de erro, porque corta o tecido contínuo que nos une vitalmente às coisas [...]. A linguagem é uma via, é a nossa via e a delas. Não que a linguagem se aposse dela e a conserve: que teria ela a dizer se não houvessem senão coisas ditas? [...] Melhor do que qualquer outra pessoa, o filósofo sabe que a vivência é vivência falada, que, nascida nessa profundeza, a linguagem não é uma máscara aposta ao Ser, mas se nós sabemos recuperá-la com todas as suas raízes e com toda a sua fronde, o mais válido testemunho do ser [...]. (Merleau-Ponty, O visível e o invisível.1964, p. 167)

Merleau-Ponty distingue entre linguagem constituída e linguagem constituinte ou operante, ou seja, entre a linguagem sedimentada da tradição e a linguagem inovadora que se une ao pensamento descobridor, como um logos em demanda da verdade.

A linguagem operante é o próprio tema da Filosofia. Ou melhor, a Filosofia é

“linguagem, repousa sobre a linguagem; mas isso não a desqualifica nem para falar da linguagem nem para falar da pré-linguagem e do mundo silente que as redobra: ao contrário, ela é linguagem operante, essa linguagem que só se pode conhecer por dentro, pela prática, aberta às coisas, chamada pelas vozes do silêncio, e continua um ensaio de articulação que é o Ser de todo ser”.

das vozes do silêncio…





a actualidade de S. Tomás de Aquino ou sobre o ensino

29 09 2007






O problema do ensino, como não poderia deixar de ser, é proposto por Tomás de Aquino nos quadros da sua antropologia e doutrina sobre o conhecimento.

A própria palavra “educação”, ainda que não apareça em Tomás de Aquino, é como que sugerida diversas vezes nas suas análises: trata-se de um eduzir o conhecimento em acto com base na potência: scientia educatur de potentia in actum (De Magistro art. 1, obj. 10); a mente extrai o acto dos particulares dos conhecimentos universais (ex universalibus cognitionibus mens educitur - art. 1, solução); leva ao acto (educantur in actum - art. 1, ad 5).

Ensinar é uma educação do acto; uma condução da potência ao acto que só o próprio estudante pode fazer. Tomás está distante de qualquer concepção do ensino como transmissão mecânica; o professor, tudo o que faz é “en-signar”, apresentar sinais para que o aluno possa por si fazer a edução do acto de conhecimento, no sentido da sugestiva acumulação semântica: o mestre mostra!

Tomás era essencialmente um professor, uma vocação que afecta a totalidade da vida: cresce quando ensina e ensina quando cresce. O seu primeiro biógrafo refere insistentemente que arrastava os estudantes com o seu estilo novo de dar aulas, de argumentar, de responder…

Esse seu professar de professor é tão arraigado que Tomás mostra que a docência é uma das formas mais elevadas de vida espiritual, em total harmonia com a vida contemplativa: Maius est illuminare quam lucere! Iluminar é mais do que ter luz.

Já no Prólogo da Suma Teológica, coloca os vícios do ensino, ao mesmo tempo que se dirige aos estudantes, dizendo que o seu propósito é o de dialogar com os que iniciam seus estudos universitários - os estudantes encontram graves dificuldades: pela multiplicação de questões inúteis, pela multiplicação de argumentos inúteis, que os colegas não seguem a ordem real das coisas mas a dos livros e que o ensino é repetitivo e aborrecido.

Portanto, e sendo certo que a Idade Média inventou a universidade, provavelmente os problemas de hoje não são muito diferentes dos de então. Sim, dos da Idade Média.







das falácias

13 09 2007

ainda que cometamos um número infinito de erros, só há, na verdade, do ponto de vista lógico, duas maneiras de errar: raciocinando mal com dados correctos ou raciocinando bem com dados falsos. (Haverá certamente uma terceira maneira de errar: raciocinando mal com dados falsos). O erro pode, portanto, resultar de um vício de forma – raciocinar mal com dados corretos – ou de matéria – raciocinar bem com dados falsos.”
(O. M. Garcia)

O que distingue o sofisma da falácia, é que, embora ambos sejam basicamente raciocínios errados, a falácia é involuntária. O sofisma tem como objectivo induzir ao engano. O raciocínio falacioso decorre de uma falha de quem argumenta.


Ouvindo atentamente à nossa volta, daremos conta que as falácias e as inconsistências lógicas abundam. Reconhecê-las nem sempre é fácil, especialmente quando aparecem em diálogos, onde podemos não as submeter a uma análise mais profunda (e se assim fosse, revelar-se-iam sem fundamento).

Há, inclusivamente, uma lista de argumentos falaciosos, muito extensa.
E como no meio da estruturação do discurso, pode nem se dar por elas, não se atenta ao enviesamento do raciocício. Por isso, tem de se separar a proposição (a afirmação que se pretende demonstrar verdadeira) do «argumento» que a suporta.

Stephen Dowes tem um Guia para as falácias lógicas

Escolho, hoje, o uso do apelo a motivos, em vez do recurso a razões.
Ou seja, quem me interpela, em vez de sustentar o que diz em razões, usa sentimentos, emoções ou factores psicológicos. A pessoa que ouve ou lê é persuadida a concordar, sob vários «subtipos» deste apelo:

- à força ou à autoridade
do género, “a nova orientação da gestão é a melhor; se não concordares, não votamos em ti para…“. Tem de se identificar a ameaça e a proposição - e argumentar que a ameaça não tem relação com a verdade ou falsidade da proposição.

- à piedade
aparecendo o “estado lastimoso” do outro, como em “trabalhei imenso nesse relatório, dia e noite, não pode ser reprovado”. Tem de se identificar a proposição e o apelo - e argumentar que o estado (digno de piedade ou de lástima) do autor, não releva para a verdade da proposição.

- às consequências
o que de mau acontece se… como em “vais chegar atrasado e ninguém vai gostar de ti”. Tem de identificar as consequências e argumentar que a realidade não tem de se adaptar aos nossos desejos.

- à popularidade
sustenta que uma proposição é verdadeira por ser aceite por muitos. Também é de apelo à emoção, pela filiação ao todos - como em “toda a gente sabe que…” ou “toda a gente faz assim…”

- ao estereotipo
do tipo “uma pessoa razoável concordará com o que propomos”. Tem de se identificar o preconceito e discordar da conclusão não é suficiente para dizer que a pessoa é «pouco razoável».

Ouçamos atentamente o que nos dizem… e, não menos importante, o que nós mesmos dizemos.
Verdade ou falácia?!

(Magritte , La lunette d’approche)





o mais feio e o mais sábio

29 08 2007


Refiro Sócrates muitas vezes e tenho-o como um dos maiores vultos do pensamento. O filósofo por excelência, como afirma Hannah Arendt.

Terá nascido em 470 (ou em 469 AC) num subúrbio de Atenas.

Filho de um escultor (Sofronisco) e de uma parteira (Fenareta), assumiu a profissão do pai e transformou a da mãe em paixão intelectual (integrando aqui a ideia do método maêutico).

Acreditava que se as pessoas entrassem em diálogo podiam encontrar as suas próprias verdades.

Auto-designou-se como moscardo e parteira, porque queria incomodar e ajudar as ideias a nascer.

Corajoso em combate – serviu como hoplita (soldado da infantaria) e participou na Guerra do Peloponeso, nas batalhas de Potidéia, de Délion, em que os atenienses foram vencidos pelos tebanos, e na batalha de Anfipolis, na Trácia. Relevo ter salvo Alcibíades numa batalha e noutra ter carregado Xenofonte, gravemente ferido, aos ombros.

Não se afirmou como filósofo, pois dizia não ter nada para ensinar e «sei que não sei» é uma escassa premissa para o ensino. Nem escreveu nenhum livro, pelo que o que sabemos (ou julgamos saber) dele foi-nos transmitido por terceiros. Particularmente por Platão e Xenofonte.

Era muito feio (aliás, em O Banquete, Alcibíades considerou–o extremamente feio, que se parecia com um sátiro ou um sileno e que era como aquelas estátuas de silenos que se abriam e que continham imagens de divindades, pois o rosto de Sócrates escondia a mais bela das almas).

Sendo considerado o homem mais feio de Atenas, era, simultaneamente, tido como o homem mais sábio do mundo antigo. Assim o afirmou a pitonisa do oráculo de Delfos…

Argumentador rigoroso, bem-humorado, que usava facilmente a ironia.Sentava-se ou passeava ou banqueteava-se, à conversa com amigos, discípulos, com quem aparecesse. Está descrito um notável auto-controle, a ingestão de vinho sem se embriagar assim como a resistência aos prazeres sensuais.

Igualmente notável a sua força moral - que exemplifico com um episódio. Atenas venceu uma batalha naval - Arginusas (em 406 aC) – e com a tempestade, os dez generais atenienses regressaram sem trazer os corpos dos soldados mortos, o que era, na altura, um crime punido com a morte.

Conta-se que Sócrates foi o único prítane responsável pela Assembleia que se opôs a que julgassem os generais em bloco, num só processo, pois o julgamento devia ser individual, um a um. Quem ia sendo linchado era ele, pela fúria do povo, que queria um só processo (e morte) para todos os generais.

Com 50 anos foi ao oráculo de Delfos, e apropriou-se da máxima escrita na entrada do templo, como lema para a vida: «conhece-te a ti mesmo».

Teria 55 anos (em 415 aC) quando se casou com Xantipa – senhora de um proverbial feitio irascível, no dizer de Xenofonte “a mais insuportável das mulheres passadas, presentes e vindouras“. Há uma história pouco apurada, relacionada com Mirto, antes, durante ou depois de Xantipa. Assim, e sem arriscar de quem, teve 3 filhos - Lamprocles, Sofronisco e Menéxeno.

Em 399, três cidadãos – Anito, Meleto e Licon – acusam-no de corromper a juventude e não reconhecer devidamente os deuses. A ideia é curiosa: dizer algo como pensa por ti, não obedeças aos deuses por tradição, procura as tuas convicções é corromper… é subversivo.

Sempre achei que Sócrates correu um alto risco ao defender-se a si próprio - da defesa ficou o texto de Platão, entitulado «Apologia de Sócrates».

Os acusadores pediram a pena demorte. Por pressão de Platão e dos outros amigos, Sócrates aceitou contra-propôr uma multa de 30 minas, que Platão e os outros se comprometeram a pagar.

Foi condenado à morte pela cicuta. Os amigos e discipulos – liderados por Críton - prepararam uma rota de fuga e asseguraram os meios para a evasão da prisão.

Sócrates recusou, declarando não querer desobedecer às leis da cidade e à decisão.

As suas últimas palavras foram:
“Críton, devemos um galo a Esculápio: pagai a dívida e não vos esqueceis”.

Tinha 71 anos.

Teve duas formas de escapar: ao julgamento se tivesse desistido da filosofia e à condenação se se tivesse evadido. Recusou ambas.

Convicção de um homem que se proclamou “cidadão do mundo”.

De quem terá afirmado: “é melhor suportar a injustiça do que praticá-la” e “seria melhor para mim que a minha lira ou um coro que eu dirigisse estivesse desafinado, e que multidões de homens discordassem de mim do que eu, sendo um, estivesse em desarmonia comigo próprio e me contradissesse”.

Socrates Life and Times, Kanna Philip
Socrates Life and Philosophy, Enciclopaedia Britannica





Em síntese: Heidegger

14 08 2007

É curiosa a utilização de meios diferentes, para abordar assuntos como a Filosofia. E figuras como esta: um conjunto de seis vídeos, com a biografia de Martin Heidegger, que vale a pena ver.
Fica aqui o 1 de 6, com comentários de Benjamin, Steiner, Sheehan, Rorty, entre outros.

Heidegger Life and Philosophy

2 de 6
3 de 6
4 de 6
5 de 6
6 de 6
Entre 7 a 9 minutos cada…
Há mais por aqui.





como é sabido: Arendt sempre…

10 08 2007


Depois de muita conversa sobre
Hannah Arendt,
de novo, e de novo, e mais, e ainda, e de novo, e mais, e aqui.

hoje, graças ao Daily Motion, fica um link para um extraordinário documentário:

Hannah Arendt, penser passionnément“, un documentaire de Jochen Kölsch, Allemagne, 2006.

São 3 episódios originais do documentário, divididos em 10 partes, e que estão aqui.





do dia, da memória e da identidade

5 08 2007







Para ser confirmado na sua identidade, cada Eu depende dos outros e esse é o dom ou a graça da amizade, que restaura e confirma o Eu como insubstituível. Afirma «a minha amiga» Hannah Arendt, “dépends entiérement des autres; et c’est la grâce salutaire de l’amitié pour les hommes solitaires (…) qu’elle restaure l’identité qui les

fait parler avec la voix unique d’une personne irremplaçable.“ (Les origines du totalitarisme. Le système totalitaire. Seuil, p. 228).

O nascimento faz-nos irromper no mundo, o aparecimento (reconhecimento) coloca-nos no mundo em relação com o Outro e na assunção de um Eu-Tu que se torna «Nós».

No tempo de cada um, o reconhecimento do passado é feito pela memória - e reconciliar com o passado parece ter o duplo sentido de absolver e de restituir, de harmonizar e restabelecer a paz, se não recompondo os cenários presentes, pelo menos assegurando a vivência pacificada.

A memória é de tal forma importante que o esquecimento é um dos “crimes mais graves das relações humanas” e é a memória que fornece ao pensar, pela rememoração, a imagem ou objecto-do-pensamento em ausência do objecto sensível. Por isso, se lembra o amigo ausente, os eventos vividos, as décadas e os anos que correram sobre os factos e os afectos.

Para pensar, evocamos coisas ausentes, no sentido de terem desaparecido dos sentidos. O ausente, que é convocado pela memória, não aparece da mesma forma que apareceu aos sentidos, como se a recordação fosse uma espécie de feitiço, pela mediação da imaginação que transforma o sensível em não-sensível. Combater o esquecimento é preservar (um)a sua história que coloca a dimensão da profundidade da existência humana. E cada um é, também, o que recorda dos vividos de si.





excerto sobre a memória

31 07 2007








A memória é o género que se atreve a dizer o seu próprio nome.
A biografia diz-nos: “és o que foste”.
O romance diz-nos: “és o que imaginas”.
A confissão diz-nos: “és o que fizeste”.
Mas a biografia, confissão ou romance requerem memória, pois a memória, diz Shakespeare, é a guardiã da mente.
Uma guardiã, diria eu, que radica no presente para olhar com uma face o passado e com a outra o futuro.
A busca do tempo perdido também é, fatalmente, a busca do tempo desejado.
…Aos que um dia dirão: “foste isto”, “fizeste isto”, ou “imaginaste isto”, adianta-te e diz simplesmente: sou …, serei…, imaginei… E por isso recordo isto…

Carlos Fuentes,
Gabo: Memórias da Memória





esquisso de perfil

31 07 2007


Porque as teorias são cordame do pensamento, permitem a navegação segura e a ancoragem provisória;
porque o pensamento se estrutura em torno de contributos teóricos e dos Mestres a que se aderiu,
aceitei o desafio de ver o que por aqui se vai espelhando.

Dei uma volta ao «Conversamos?!» destes anos para constatar as influências explícitas.
Constato que me repito - menos do que pensava - e aceito que as principais referências encontradas possam ser influentes. Mas algumas, estão ausentes, o que é curioso.
Particularmente, quando reconheço que teêm peso considerável no que penso.
Assim, deverei, em bom rigor, dizer que tive algumas surpresas - algo que a continuidade de um blogue assegura decerto, pois vai-se mudando no tempo. E vão dois anos e meio, o que é bastante… E para a memória de um tempo, aqui fica:

de Enfermagem
Paterson & Zderad
Kathy Kolcaba
Carper
Patrícia Benner
Florence Nightingale
muito Nursing Ethics e por aí, entre deontologia e direito.

de Filosofia
Hannah Arendt, de novo, e de novo, e mais, e ainda, e de novo, e mais, e aqui.
Aristóteles, de novo, e de novo, e ainda, e mais.
Savater, de novo, e ainda
Nietzsche, de novo, e de novo, e aqui.
Kant, de novo, de novo.
Michel Foucault, de novo,
J. Habermas, por aqui, e aqui.
Comte-Sponville, de novo, e de novo.
Martha Nussbaum e de novo, e Nussbaum e Sen
Ernst Cassirer, e de novo.
Simon Blackburn, de novo, e de novo.
Merleau-Ponty,
Jose Antonio Marina, de novo
De Kroninck
S. Tomás de Aquino, para além dos pecados mortais
Lévinas,
e ainda uns travos de George Steiner,
umas pitadas de Susan Sontag, de Robert Gibbs,
de McGinn,
e John Brockman,
bem como uns toques de Kenneth Hammond,
Edgar Morin,
Austin,
Brad Hooker,
uns pózinhos de Victor Frankl,
… muita companhia de filósofos, … nada de novo.

Excluo as posições face a Bolonha, ou ao Ensino Superior, as preocupações docentes, metodologias e processos, que tanto encontrei. Bem como os poetas citados, os links mantidos para a vizinhança blogoesférica, ou os autores mais referidos nas citações.
O que norteou a minha leitura foram as influências de enfermagem e de filosofia.
Procurei o que quem aqui lê pode ler do que sigo, pelo que coloco, e fiquei com umas coisas para complementar…





Hannah Arendt, sempre…

21 07 2007

“First I would like to write for you a poem to be
shouted in the teeth of
a strong wind.
Next I would like to write for you to sit on a
hill and read down the
river valley on a late summer afternoon,
reading it in less than a whisper….”

Carl Sandburg

Boa companhia, em livro, esta tarde. «A promessa da política» de Hannah Arendt.
Uma das mais fortes influências do meu pensamento, como é sabido.

Dizia Sócrates que em cada um de nós existe a possibilidade de fazer emergir uma verdade, a partir da opinião (da doxa, diriam os gregos, que significava opinião, mas também brilho e fama). Acreditava firmemente que o diá-logo a faria emergir, pela maêutica.

“O pressuposto era que o mundo se abre de modo diferente a cada homem segundo a sua posição nele (…) reside no facto de que o mesmo mundo se abre a todos e de que a despeito de todas as diferenças entre os homens e entre as suas posições no mundo - e por consequência entre as suas doxai (opiniões) - «tu e eu, ambos somos humanos».”(p. 1 8)

Acreditava ele que «sei que não sei» era a possibilidade de se abrir à perspectiva dos outros.
O que supõe interrogar-se e permitir(-se e aos outros) diferentes verdades.
Aceito, sem nenhuma dificuldade, que o caminho do entendimento entre as pessoas passa pela aceitação das diferentes visões e perspectivas do(s) outro(s).

Diferentemente do que entendia Platão, o papel do filósofo não é governar a cidade mas ser o «moscardo» -”Sócrates não queria tanto educar os cidadãos como, e sobretdo, tornar melhores as suas doxai, que constituíam a vida política na qual ele participava. Para Sócrates, a maiêutica era uma actividade política“, aqueles diálogos que concluem inconclusivamente, sem resultados definidos.
O facto de se ter falado, de se ter falado a propósito de alguma coisa, da doxa deste ou daquele cidadão, parece bastar. É evidente que esta espécie de diálogo, que não tem necessidade de chegar a uma conclusão para fazer sentido, é a mais apropriada entre amigos e é entre amigos que a vemos mais frequentemente partilhada“.
Daqui, o sentido político da amizade na cidadania… e viver com os outros começa com o viver plenamente consigo próprio.

O ensinamento de Sócrates significava: só aquele que sabe viver consigo próprio é capaz de viver com os outros. O si-próprio é a única pessoa da qual não me posso separar, que não posso deixar, à qual estou soldado. Portanto, «é muito melhor estar em desacordo com o mundo inteiro do que em desacordo comigo mesmo, que sou um só». A ética, não menos do que a lógica, tem a sua origem nesta afirmação, porque a consciência no seu sentido mais geral assenta também no facto de eu poder estar em acordo ou desacordo comigo próprio, e isso significo que não apareço apenas aos outros mas me apareço também a mim próprio.” (p. 23)

Não estamos na linha da concepção do homem como «animal racional» mas do homem como ser pensante, cujo pensamento se manifesta sob a forma da palavra - e, diria, da palavra que conversa e que interroga. E se espanta perante o que é como é, um espanto sem fala que se torna palavra - e nunca começa por afirmar mas sempre por fazer perguntas, que sejam quais forem “têm em comum o facto de não se lhes poder responder cientificamente” (p. 33).

Questões últimas e sem resposta, que o ser humano coloca a si mesmo, tornando-se no ser-que-interroga.
“É por isso que a ciência, que põe interrogações respondíveis, deve a sua origem à filosofia, uma origem que continua a ser a sua fonte sempre presente ao longo das gerações

O homem que se interroga, vive em comunidade, em relação com outros no Mundo.
De Platão a Marx, passando por Hobbes, a tradição da filosofia política do Ocidente chega ao fim.

Vivemos hoje num mundo em que já nem sequer o senso comum continua a fazer sentido. O colapso do senso comum no mundo presente assinala que a filosofia e a política, apesar do antigo conflito que as opunha, sofreram a mesma sorte. E isso significa que o problema da filosofia e da política, ou a necessidade de uma nova filosofia política a partir da qual poderia nascer uma nova ciência da política, está mais uma vez na ordem do dia.” (p. 37).

(Couple reading under the trees, Warren Dennis)





(longa) conversa sobre a Revolução Francesa, no dia da tomada da Bastilha

14 07 2007

“Como a Revolução Francesa não teve apenas por objectivo mudar um governo antigo, mas abolir a forma antiga da sociedade, ela teve de ver-se a braços a um só tempo com todos os poderes estabelecidos, arruinar todas as influências reconhecidas, apagar as tradições, renovar costumes e os usos e, de alguma maneira, esvaziar o espírito humano de todas as idéias sobre as quais se tinham fundado até então o respeito e a obediência.”
citação d’aqui

Revolução, palavra oriunda dos territórios da astronomia, transmite a ideia de “um impulso irresistivel e eterno, repetindo sempre os movimentos casuais, os altos e baixos do destino humano” (Hannah Arendt, Sobre a revolução, p. 49). A utilização política inicial apareceu muito próxima do significado original da palavra, no sentido de uma rotação regressiva a um ponto preestabelecido, ou seja, no sentido de restaurar ou de recuperar - que foi o objectivo das revoluções francesa e americana. Começaram por ser desencadeadas por homens “firmemente convencidos que mais não faziam do que restaurar uma antiga ordem das coisas (…) queriam voltar aos velhos tempos, em que as coisas eram o que deviam ser” (Sobre a revolução, p. 51).

Além de outras consequências de uma revolução “com trajes romanos”, que originou o nascimento do conceito de história na filosofia de Hegel, Arendt salienta que sem a Revolução Francesa “podemos duvidar que a filosofia alguma vez tentasse entrar no domínio dos assuntos humanos”, isto é, num campo em que a procura da verdade absoluta se dirigisse às ligações entre os homens, que é domínio relativo por definição.

Outra conotação relevante do movimento astronómico, que permanece, é a noção de irresistibilidade e, por consequência, de irrevogabilidade.
A palavra revolução deve ser utilizada com cautela e reservada para identificar “os únicos acontecimentos políticos onde enfrentamos directa e inevitavelmente o problema do começo”, pelo que não são simples mudanças.

Para a compreensão das revoluções da época moderna, é crucial a ideia de que a liberdade e a experiência de um novo princípio devem coincidir; tenha-se em conta que, no sentido do seu verdadeiro conteúdo, liberdade é “a participação nos negócios públicos ou a admissão no domínio público”. Por um lado, as “relações políticas no seu curso normal não caem sob a alçada da violência” e, por outro, as guerras e revoluções não são concebíveis fora do âmbito da violência, o que a transforma a violência no seu “denominador comum” e as separa de todos os outros fenómenos políticos.

As revoluções parecem resultar com espantosa facilidade na fase inicial porque os iniciadores tomam o poder de um regime em plena desintegração, pois, frequentemente, há já uma marcada longevidade de corpos políticos obsoletos, isto é, incapazes de garantir a autoridade e o respeito inerente. Mesmo quando a perda de autoridade é manifesta, a condição para uma revolução ocorrer e ter êxito é haver pessoas preparadas e dispostas a agirem conjuntamente, pois o traço do poder é agir-em-conjunto. E Hannah Arendt reitera que “nunca nenhuma revolução resultou, que poucas rebeliões nasceram quando a autoridade do corpo político estava intacta”.

Distinguindo claramente entre liberdade e libertação, Arendt alerta que a paixão pela liberdade pública ou política se pode confundir facilmente com “o talvez mais veemente, mas politicamente essencialmente estéril, apaixonado ódio pelos senhores, o anseio do oprimido pela libertação”.

Este ódio nunca resultou em revolução pela incapacidade de compreender (quanto mais, de realizar) a ideia central da revolução que é a instauração da liberdade, “a fundação de um corpo político que garanta o espaço onde a liberdade pode surgir”.

É ainda de notar que não foi a conspiração de reis e tiranos ou poderosos, mas sim “a conspiração muito mais poderosa da necessidade e da pobreza , o que os distraiu o tempo suficiente para que deixassem fugir o «momento histórico»” e, entretanto, a revolução francesa mudou de rumo e deixou de ter a liberdade por objectivo, passando a dirigir-se para a felicidade do povo.

Foi o povo, impulsionado pela pobreza, que entrou em campo e a sua necessidade era violenta, em consequência pré-política, e “parecia que apenas a violência poderia ser suficientemente forte e rápida para os ajudar”.

Seguindo a análise que Arendt faz das revoluções francesa e americana, ressalta-se ainda que, mesmo que se identifique adequadamente a revolução com “o estabelecimento da liberdade” permanece uma dificuldade ainda mais séria: “a de que existe muito pouco, quanto à forma e conteúdo das novas constituições revolucionárias, que seja, de facto, novo, para não falar já de revolucionário”.

Evocando a história da revolução no século XX, impressiona mais a fraqueza do que a violência das forças de reacção e contra-revolução - relevam-se “a frequência da sua derrota, a facilidade da revolução, e por fim, embora sem menor importância – a extraordinária instabilidade e falta de autoridade da maioria dos governos europeus restaurados após a queda da Europa de Hitler”. Problema decorrente passou a ser, na sociedade igualitária, a incapacidade óbvia e a evidente falta de interesse nos assuntos políticos como tais.

Voltando à efeméride de hoje, 14 de Julho, em 1789 marcará o futuro - a República Francesa está prestes a germinar, e os seus princípios: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O fim do antigo regime, por seu lado, significou, principalmente, a subida da burguesia ao poder político e também a preparação para a consolidação do capitalismo. Mas a Revolução Francesa não ficou restrita à França. As ideias espalharam-se pela Europa, atravessaram os oceanos e os séculos. E chegaram até hoje….





livros e leituras

12 07 2007

Tendências gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, de Antero de Quental.
Edição de 1988, com apresentação e notas de Leonel Ribeiro dos Santos.
É a peça mais extensa e mais importante do ideário filosófico de Antero.

Quem por aqui passa há algum tempo, recordará referências a Antero, de quem aprecio particularmente as «Causas da decadência dos Povos Peninsulares».

Ora, as Tendências pretendem superar as divergências entre as principais correntes filosóficas do seu tempo – a síntese entre o realismo, o idealismo, o espiritualismo e o criticismo, que resulta num novo espiritualismo que se funda na natureza e se fundamenta na consciência.

vale ler:
Análise de Fernando Catroga a «O Socialismo» de Antero