leituras

27 12 2009

How we trust one another? Oswald Hanfling
How is the possibility of promising explained without circularity?

Why, having promised you to do X, should I do X?  What if I thought you were not counting on me to do what I promised?  Then my reasons for keeping a promise would be diminished.  Why bother if you don’t expect something of me?  You might expect me to keep my promise, but your expectations would be weakened too if you thought that I thought you’re not counting on me to do X.  And if I thought you thought that, again my reasons for keeping a promise would be diminished even more.  And on and on.  Given these sorts of obvious worries, how is the practice of promising possible?

… “Promising-situations often develop naturally, and may be hard to avoid even in casual everyday conversation”…

The Royal Institute of Philosophy





estilo de ensinar

8 12 2009

Fiz uma busca por Justice. Dei de caras com doze vídeos de aulas de Filosofia. De 55 minutos cada….  Até aqui, já é diferente. Desafio a abrir a primeira aula, aqui colocada e a ouvirem uns minutos….

Justice: What’s the Right Thing to do? 01

Impossível não ver a sala cheia! E saltando para o vídeo 3, Free to choose,

o estilo de Michael Sandel é o mesmo. Claro, explícito, dialogal. E este seria mesmo o assunto que recomendaria fosse seguido com atenção.

E se passarem a outro vídeo, como  o 7,  A lesson on lying, (eu fui saltando entre eles), fica-se com esta ideia, de aulas de Filosofia onde se compreende o que é dito, em estilo coloquial, andando pelo estrado. Notável….





Leituras de Verão: artigos da «Think»

20 09 2009




Leituras de Verão: artigos de «Philosophy Now»

15 08 2009

The Edge of Knowledge

by Grant Bartley

Epistemology is the mining boss of philosophy. It digs deep into the foundations even of philosophy itself. The word means the study of knowledge (from the Greek episteme meaning ‘knowledge’ or ‘belief’, or in some circles, ‘faith’.) Its question is, How can we be sure about anything?

(…) Less generally, how can you ever credibly claim to know something before you can say how you know it? Put this way, it’s not hard to see that epistemology is at the base of science, philosophy, religion and many other areas of human endeavour. But the ways we know things may differ from field to field.

How do we know when a theory is scientifically valid? Here, what we want to know is whether it is an accurate description of the world, within its limits. The methodology of science is to compare the theory with whatever it is that the theory is about, then refine the theory as necessary until it gives a description consistent with what is observed. (As to which theories are scientific, a set of possible criteria is proposed by Russell Berg on p.14.) Science is about the observed world. The principle of how we know something to be true in science is, we know this is the way the observed world behaves because this is how it may best (ideally, incontrovertibly) be observed to behave.

(…) The value of a good philosophy of knowledge can be seen in all the fruits of science. Thus, contrary to Descartes’ mental quicksand, and in the face of the fears of all who do not trust questioning – who fear their belief-systems might be undermined by too many questions – we can view the epistemological mission as benevolent: to increase the stock, strength and detail of our most reasonable beliefs by providing them with the strongest foundation of justification possible; and perhaps to open up new ways of knowing. Engaging the epistemological understanding which is the touchstone of scientific research was like stepping into a hidden grotto universe. Who knows what knowledge is possible if we find equally good ways of knowing for other areas of enquiry too?

Philosophy Now





Ver e ouvir: Jean Paul Sartre

3 08 2009

A partir de um programa espanhol, uma entrevista de Sartre, ao Temps Modernes, sob a égide da TV do Canadá.

Deixo aqui  o 1 de 6….

o 2 de 6

0 3 de 6…

e os outros, são fáceis de encontrar :)





Ler e ouvir Charles Taylor

2 08 2009

Charles Taylor

“It is safe to say that all these critics were largely motivated by a dislike of the moral and spiritual consequences of epistemology and by a strong affinity for some alternative. Indeed, the connection between the scientific and the moral is generally made more evident in their work than in that of mainstream supporters of the epistemological standpoint. But an important feature of all these critiques is that they establish a new moral outlook through overturning the modern conception of knowledge. They don’t simply register their dissidence from the anthropological beliefs associated with this conception, but show the foundations of these beliefs to be unsound, based as they are in an untenable construal of knowledge.” Charles Taylor, Overcoming Epistemology

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Sobre a sua última obra (2007), A Secular Age, e outros aspectos do seu pensamento, vou colocar vídeo a seguir… Claro que o vídeo é longo (afinal é uma aula, verdadeiramente) mas vale a pena ouvir o filósofo canadiano.





recoloco: da perspectiva de… Hannah Arendt!

20 03 2009

Arendt – cover

 

Posted by Hello

É sabido que tenho um encantamento por Hannah Arendt.

Usando apenas títulos em português, li primeiro A condição humana, depois Entre o passado e o futuro. Quando cheguei a Sobre a revolução, já estava presa.

Fiquei chocada com Origens do totalitarismo e

Eichmann em Jerusalem. Ensaio sobre a banalidade do mal deixou-me a pensar muito tempo….

No global, a obra de Arendt é uma aprendizagem do juízo, ou seja, do discernimento entre o bem e o mal, sobre as escolhas que fazemos no mundo (que nos é) comum.

Para ela, a política é o espaço onde se institui e se revela a comunidade do mundo – existe quando partilhamos o mundo com outros diferentes de nós, debatemos e agimos e interagimos com eles.

“São os homens, e não o homem, que vivem na terra e habitam o mundo”.

Duas das actividades que se desenvolvem na sociedades humanas são essencialmente políticas: a acção e a palavra, que supõem directamente a relação entre os homens.

Falar é agir quando se encontram as palavras necessárias no momento certo.

Todavia, existe um limite ao que chamamos liberdade de opinião (e, portanto, ao debate político) – esse limite é o reconhecimento dos factos.

Uma afirmação que negue os factos porque os factos se opõem a interesses não é uma opinião, é uma mentira; trocou o mundo político pelo mundo da violência, o seu oposto.

O objectivo não é chegar a uma verdade universal; mas levar cada um a descobrir a verdade inerente à sua opinião. Arendt sublinha, e esta será uma das suas especificidades, a ideia de que não se pode, em política, reduzir a multiplicidade de pontos de vista a uma verdade única, definitiva, válida para todos.

Só as verdades demonstráveis, como as matemáticas, têm de ser vistas da mesma forma.

A própria unanimidade não é uma garantia de sucesso político – pode ser o sinal de que já não se interroga o mundo comum.

Pelo diálogo, ou seja, na travessia pelas palavras, se realiza a igualdade fundamental das pessoas. O debate permite a cada um revelar aos outros quem é e procurar a alegria (o júbilo) de aparecer aos outros, no domínio público.

O fim da política é esta alegria de não estar só, de se revelar a outros, de fortalecer a comunidade do mundo.





voltar a Agostinho da Silva

19 02 2009

“Crente é pouco sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus”

Agostinho da Silva, Uns Poemas de Agostinho

Do “nada que é tudo”. A poesia pensante e mística de Agostinho da Silva

Para um diálogo e uma espiritualidade inter e trans-religiososuma reflexão a partir de Agostinho da Silva e de Sua Santidade o XIV Dalai Lama.

ambos, textos de Paulo A. E. Borges

imagem aqui





Ensina-se a filosofar…

11 02 2009

Philósophos – Revista de Filosofia

ENSINA-SE A FILOSOFAR, FILOSOFANDO, Gonzalo Armijos

Resumo

Se não se ensina filosofia, mas a filosofar (Kant), como se ensina a filosofar? Obviamente, filosofando. Por outro lado, se a filosofia não se define por um objeto próprio nem a distingue um só método privilegiado, em que consiste, então, essa ação que o filosofar aponta? Que a filosofia não se define por um objeto nem por um método parece claro. No entanto, algo, em geral, deve caracterizar o filosofar. O que parece caracterizá-lo, mesmo que negativamente, é a tentativa de resolução de problemas que com o resultado de outras ciências ou do conhecimento obtido em outras áreas da atividade humana é impossível resolver. Isso nos leva ao objeto desta comunicação: discutir como, efetivamente, é possível ensinar a filosofar e não simplesmente ensinar [história da] filosofia. Ensina-se a filosofar como se ensina outra atividade qualquer: pelo exemplo. Neste caso, pelo exemplo de um agir filosofante, ou seja, discutindo, avaliando e procurando respostas aos problemas que a cada um de nós, filosoficamente, nos preocupam.

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Imagem:  Still Life of Books, Jan Davidszoon de Heem, 1628





ethic@ – Vol. 7, Nº 2, Dez 2008

4 01 2009




Quem escreve filosofia

12 09 2008

Parecem existir poucas mulheres na Filosofia – é uma constatação simples de fazer. Ou, dito de outra forma, não aparecem muitos nomes femininos que sejam sonantes na história da Filosofia.  Surgem, no século XX, nomes como Hannah Arendt, Simone de Beauvoir, Elisabeth Anscombe, Simone Weil ou Martha Nussbaum.

Mulheres filósofas raras – sem com isto querer dizer que não existiram ou não fizeram sentir as suas influências. E sendo certo que podem apontar-se alguns casos, o desequilíbrio entre os géneros na história da humanidade, parece evidente – por exemplo, citar Damaris Cudworth ou Catharine Cockburn, que se corresponderam com Locke e Leibniz, não faz realmente diferença.

Notar essa falta, serve para relevar Hannah Arendt e Martha Nussbaum que, podendo não ser muito conhecida entre nós, já serviu de referência a um acórdão do Tribunal Constitucional, que, curiosamente, incluiu igualmente Paul Ricoeur e John Rawls.


ACÓRDÃO N.º 617/2006, TRIBUNAL CONSTITUCIONAL - Processo nº 924/2006. O Presidente da República, nos termos do artigo 115º, nº 8, da Constituição e dos artigos 26º e 29º, nº 1, da Lei nº 15-A/98, de 3 de Abril, requereu a fiscalização preventiva da constitucionalidade e da legalidade da proposta de referendo aprovada pela Resolução nº 54-A/2006 da Assembleia da República (publicada no Diário da República, I Série, de 20 de Outubro de 2006).

(imagem: Lady writing a letter, Vermeer)

 





a quem interesse…

7 07 2008




FWN

29 05 2008

Se tivesse liberdade de escolher

Escolhia um bom cantinho

Mesmo no meio do Paraíso:

Melhor ainda, cá fora, em frente à Porta!

Nietzsche

O desafiador por excelência. Friedrich Wilhelm Nietzsche, de nome inteiro e ar formal. Senhor dos aforismos e de breviários de citações.

Com uma visão crua da educação e dos educadores – “A educação procede geralmente dessa forma: procura determinar no indivíduo, com uma série de estímulos e de vantagens, uma maneira de pensar e de agir que, tornada por fim hábito, instinto e paixão, dominará nele e sobre ele, contra seus interesses superiores, mas ‘em benefício de todos’”

D-escritor de uma das mais controversas definições de verdade: “O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que de forma enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.”

A fazer a apologia do esquecimento – “Não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento”.

Colocando o cepticismo e a determinação, juntos – “Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.”

E a provocação, de sarcasmo e jocoso, de insulto – “Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza.”

E, finalmente por hoje, desafios do abismo – “A alma, em sua essência diz a si mesma: ninguém poderá construir a ponte que você em particular terá de atravessar sobre o rio da vida – ninguém além de você mesmo. Evidentemente existem inúmeros caminhos e pontes e semideuses prontos para o transportar através do rio, mas somente ao preço do seu próprio ser. Em todo o mundo, existe um único caminho que ninguém além de você poderá tomar. Para onde leva? Não pergunte, apenas siga-o. Quanto antes alguém diz: Eu quero permanecer eu mesmo, mais cedo descobre que a decisão é atemorizante. Agora ele terá de descer às profundezas da sua existência”.

E a beleza das metáforas – “É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela…”





dos intelectuais, na escrita de Foucault

20 05 2008

“A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.

Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo… Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir…”

“Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante. Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando “criticam” alguém, quando “denunciam” as suas idéias, quando “condenam” o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: “demolir”, “abater”, “reduzir ao silêncio”, “sepultar”. E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico.”

Michel Foucault, imagem e texto aqui





O pensar e o agir

27 04 2008

O Pensar é faculdade e actividade do espírito – já o Agir, para Arendt, pertence ao espaço da aparência, marcado pela participação dos homens e que supõe convivência, através de uma “teia de relações”.

O pensamento tem um efeito corrosivo sobre os critérios estabelecidos, os valores, os padrões para o bem e para o mal, em suma, sobre os costumes e as regras de conduta com que lidamos. Em sentido inverso, a ausência de pensamento permite a adesão “a tudo o que as regras de conduta possam prescrever numa determinada época para uma determinada sociedade”.

Entre o Pensar e o Agir, interpõe-se o Querer – a vontade, compreendida como o “nosso órgão espiritual para o futuro”. Di-lo ela:

“Toda a volição, ainda que seja uma actividade do espírito, relaciona-se com o mundo das aparências no qual o seu projecto deve realizar-se; em contraste flagrante com o pensamento, nenhum querer jamais se faz por si mesmo ou encontra satisfação na própria actividade. Qualquer volição não somente envolve particulares como também – e isto é de grande importância – anseia pelo seu próprio fim, o momento em que o querer algo se terá transformado em fazê-lo”.

O agir, portanto, comporta imprevisibilidade. Significa que do homem “se pode esperar o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável”.

Quanto ao pensar, dir-se-á que é perigoso (os gregos diriam subversivo) pelo desejo de encontrar resultados, porque o que tinha sentido no domínio do pensado se dissolve se queremos aplicar ao quotidiano; porque não origina nenhum credo mas traz a desordem às cidades, diz Arendt, pois “de cada vez que estamos confrontados com alguma dificuldade da vida temos de partir do zero”.

Face aos perigos de não pensar, “a vida privada de pensamento seria sem sentido, ainda que o pensamento nunca torne sábios os homens ou lhes dê as respostas para as perguntas do seu próprio pensamento”.





voltar a Arendt

6 04 2008

É sabido que leio e releio Hannah Arendt… Gosto da figura, do percurso, das ideias, do estilo de pensar. Cruzaram com ela alguns dos mais notáveis pensadores do século – Martin Heidegger, Karl Jaspers, Hermann Broch, Walter Benjamin, Husserl, Adorno, Hans Jonas, Raymond Aron, Paul Tillich, entre outros. Relevo a sua amizade com Mary MacCarthy e o trabalho (notável) que fez com os escritos finais bem como o de Jerome Kohn, herdeiro testamentário .

Voltei a Homens em tempos sombrios,

Todas as dores podem ser suportadas se você as puser numa história ou contar uma história sobre elas” – é a partir dessa citação feita por Isak Dinesen, que Arendt escreve sobre a importância que, em tempos sombrios, obras, pessoas e actos possuem de iluminar a vida.

“O que verdadeiramente importa é que tal iluminação pode bem porvir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra.”

A sua preocupação com o mundo e a pluralidade humana impressionaram-me tanto quanto a ideia de nós como «seres mortais que pensam o eterno» e que devemos aceitar o humano que somos.

A acção tem como condição a pluralidade humana, que se afirma por meio da relação dialógica e pelo espaço-entre-os-homens. A verdadeira experiência consiste na abertura recíproca do homem e do mundo e é por interditar exactamente a possibilidade dos indivíduos se revelarem a si mesmos e aos outros para instituírem, em conjunto, um mundo, que o mundo totalitário é um não-mundo.

A unidade do género humano está longe de ser uniformidade: é a diferença absoluta entre homem e mulher que os torna humanos tal como entre os naturais de diversos países. Aliás, “um cidadão do mundo, vivendo sob a tirania de um império mundial, falando e pensando numa espécie de Esperanto solene, seria tão monstruoso como um hermafrodita”.

O mundo, enquanto mundo comum, é o espaço da aparência, o mundo público, onde aparecemos ao nascer e de onde des-aparecemos ao morrer, o mundo que se estende entre os homens ou entre as gerações de homens. Nós somos responsáveis por esse mundo que compartilhamos e temos a tarefa de cuidar dele.





modos de olhar a decisão

20 02 2008

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A identidade ética tem representações – nas virtudes, nos valores. E se aparecem em actos, é porque e na medida em que se materializam, pois a sua radicação é na interioridade ética mais profunda. Se os pensadores que advogam esta perspectiva tiverem razão, como julgo, posso afirmar que a ligação entre os pensados e os manifestados passa pela decisão.

Podemos pensar a decisão de um modo epistemológico como dispositivo para actualizar o saber, que é «convocada» sempre que se revela necessário produzir um veredicto de aceitação ou de recusa de integração de um facto novo ou de algo que emerge em contexto.

Podemos pensar a decisão de um modo ético, como etapa final de um processo, em que a deliberação assume maior relevo, ponto de chegada sempre que se atravessaram as perspectivas dos valores e se produz um juízo para agir.

No espaço de tensão gerada entre a teoria e a experiência, ou entre o problema e acção que o pretende resolver, a decisão encontra o seu lugar e a função de ser modo de superação, ao serviço do desenvolvimento do saber ou da melhor práxis da acção.

Ao decidir, o investigador desempenha um papel de árbitro entre factos e métodos, numa procura da solução mais conforme bem como a função de produtor (e inventor) de soluções, guiado, como afirma Perelman, por exigências de simplicidade, economia do pensamento, fecundidade, regularidade e generalidade.

Ao decidir, a pessoa escolheu uma possibilidade entre outras, tomando aquela como mais adequada, relevante. pertinente e profícua. Os actos que realiza decorrem dessa decisão, que foi procurando estruturar-se em torno da melhor resolução possível de um problema e de um julgamento relativo a valores.

Neste processo de pensar, chego à conclusão (provisória, como sempre) que a decisão, tanto em termos éticos como epistemológicos, desempenha papel análogo. Em ambos os domínios, a estrutura das proposições e dos processos é algo em permanente construção, o que convoca necessariamente uma decisão humana casuística e ajustada – e a assunção dos riscos que lhe estão associados, em termos de razoabilidade e eficácia, compreensibilidade e justeza.

Parece consistente?!





ser(es) humano(s)

27 01 2008

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A experiência da contingência radical é fundante da vida humana: nada nos garante, de antemão, que as possibilidades se efectivem.

O ser humano é, inevitavelmente, ser de decisões: toda a nossa vida é uma sequência de decisões, em que nos pomos diante de alternativas diversas e  optamos. Não estamos presos a um instinto, nem plenamente determinados. Actuamos num espaço em aberto pelo que a primeira tarefa da vida pode bem ser a tarefa de construção de si mesmo. Ou seja, de se autoconfigurar no mundo, entre os Outros e com os Outros, nas diferentes possibilidades da autorealização e realização de si.

Ser  de uma liberdade situada, ser de decisão, ser do risco e da história, do projecto e da finitude. Ser humano, ser pensante. Cada Eu.

 





16 01 2008

 

Na Temperamentvm, REVISTA INTERNACIONAL DE HISTORIA Y PENSAMIENTO ENFERMERO, que já por aqui referi,

Pela mão de Ricoeur e Arendt:história e identidade. A propósito da memória histórica.

A navegação pela memória, feita por Paul Ricour em La mémoire, l’histoire et l’oubli, reúne a fenomenologia da memória, o percurso epistemológico e a hermenêutica da condição histórica – em comum, estão a problemática da representação do passado, que se descobre exposta ao esquecimento, e, simultaneamente, confiada à sua guarda, assim como o enigma de uma imagem, de um “eikon que se dá como presença de uma coisa ausente marcada pelo selo do anterior”.Encontramos o risco de prevalência do “império do esquecimento” dividido entre a ameaça do apagamento definitivo e o seguro dos recursos da anamnese.

Para o que ora nos importa mais, a memória desenha a capacidade de lembrar pelo que se relaciona aos poderes de base do sujeito, como o de falar, de agir, de narrar, de ter-se por autor dos seus actos; por tal nos reenvia para uma antropologia do sujeito. E sendo que “não ter-se esquecido é o poder de recitar sem ter de reaprender”, esboçando-se uma ligação à pedagogia da memória, ao nível ético-político assume um dever duplo que se reúne em forma de futuro e de imperativo, de ambição de veracidade e de uso prático.

O esquecimento (do qual decorre a futilidade) foi abordado, por Ricour, de uma forma particular, como “um atentado à fiabilidade da memória (…), uma falha, uma lacuna”.Na abordagem do nível ético-político da memória, Ricour considera o dever de memória como imperativo da justiça; aliás, o seu discurso sobre a memória traça “duas linhas paralelas”: a da ambição verídica da memória (da fidelidade epistémica da lembrança) e a da utilização prática da memória (visível na técnica de memorização).

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Gianni Vatimo

23 12 2007

A Revista Espanhola de Filosofia de Novembro – A Parte Rei nº 54 – é dedicada a Gianni Vatimo.

Relevo Hermeneutica y Sociedade em Vatimo, de Mauricio Bechor. E outro artigo, de Hector Martinez, A Hemeneutica como Ontologia Nihilista. Reencontre-se Nietzsche, Gadamer e Heidegger, lidos por Vatimo.





Pensar e inteligir

19 10 2007



As palavras
pensamento e pensar procedem de um verbo latino, pendere, que significa ficar em suspenso, estar ou ficar pendente, suspender.

Diria Arendt, que Pensar é estar na Terra dos Invisíveis, por ser uma actividade do espírito que nos faz ausentar da acção.

Intelligere vem da composição de duas outras palavras: inter, isto é, entre, e legere, que significa colher, reunir, recolher, escolher e ler (isto é, reunir as letras com os olhos).

Por isso, intelligere significa escolher entre, compreender, ler entre, ler dentro de.
Daí o sentido de conhecer e entender.
(ciberdúvidas de língua portuguesa)

Cogitare, significa “desenvolver um pensamento atento, reflectido e meditativo.” (aqui)

Se reunirmos os vários sentidos dos três verbos – pensare, cogitare e intelligere -, configuramos que pensar é uma actividade pela qual o espírito coloca algo diante de si para, atentamente, considerar, avaliar, pesar, reunir, compreender, entender e ler por dentro.

O pensamento é a a inteligência saindo de si (passeando, portanto) para ir colhendo, reunindo, recolhendo os dados oferecidos pela experiência, pela percepção, pela imaginação, pela memória, pela linguagem, e voltando a si, para considerá-los atentamente, colocá-los diante de si, observá-los intelectualmente, pesá-los, avaliá-los, retirando deles conclusões, formulando com eles ideias, conceitos, juízos, raciocínios.

O pensamento exprime a nossa existência como seres racionais e capazes de conhecimento abstrato e intelectual, e manifesta sua própria capacidade para dar a si mesmo leis, normas, regras e princípios para alcançar a verdade de alguma coisa.