… de efemérides e silêncios

16 03 2008

Em cada dia, poderíamos recolher o que esse dia concreto teve de relevante e conhecido (assumindo que há relevantes não assinalados) na história do mundo. Assim, hoje, mas em

37, morreu Tibério, imperador romano.
1800, nasceu Ninko, imperador japonês.
1812, começou a Batalha de Badajoz (16 de Março até 6 de Abril), as forças britânicas e portuguesas cercam e derrotam a guarnição francesa durante a Guerra Peninsular.
1813, a Prússia declarou guerra ao império napoleónico
1877, nasceu Reza Pahlavi, xá do Irão.
1917, Kerenski proclamou a República na Rússia.
1926, Robert Hutchings Goddard lançou com sucesso o primeiro foguete propulsor de combustível líquido do mundo.
1935, Adolf Hitler ordenou o rearmamento da Alemanha, violando o Tratado de Versalhes. A obrigação do serviço militar foi introduzida para a formação da Wehrmacht.
1939, Hitler proclamou a Boémia e a Morávia como protectorados alemães.
1940, morreu Selma Lagerlöf, escritora sueca, Nobel de Literatura em 1909.
1945, terminou a Batalha de Iwo Jima, permanecendo alguns focos de resistência japonesa, durante a II Guerra Mundial; na Europa, 90% da cidade alemã de Würzburg é destruída, com 5.000 mortos, em 20 minutos de bombardeio britânico.
1962, a URSS lançou para o espaço o primeiro satélite da série “Cosmos”.
1966, é o lançamento da Gemini VIII, o 12º voo espacial tripulado dos Estados Unidos e o primeiro a realizar a acoplagem com o módulo Agena.
1978, o petroleiro “Almoco Cadiz” naufragou ao largo da Costa da Bretanha, provocando, com o derrame de 230 mil toneladas de nafta, a maior “maré negra” até então registada
1979, morreu Jean Monnet, considerado um dos pais espirituais da Europa, pelo seu papel na criação da CEE
1986, através de referendo, a maioria dos suíços rejeita a entrada do seu país na Organização das Nações Unidas.
1998, o Papa João Paulo II pede desculpas pela omissão e silêncio de alguns católicos romanos durante o Holocausto.
2001, o único dia entre 1993 e 2002 que ninguém se mata no Reino Unido, de acordo com dados estatísticos da saúde.

Destaco a efeméride do pedido de desculpas pela omissão durante o Holocausto.

Recebi, esta semana, um email sobre o Holocausto, que transcrevo aqui:

” É uma questão de História lembrar que, quando o Supremo Comandante das Forças Aliadas, General Dwight D. Eisenhower encontrou as vítimas dos campos de concentração, ordenou que fosse feito o maior número possível de fotos, e fez com que os alemães das cidades vizinhas
fossem guiados até aqueles campos e enterrassem os mortos.
E o motivo, ele assim explanou: ‘ Que se tenha o máximo de documentação - façam filmes - gravem testemunhos - porque, em algum
ponto ao longo da história, algum bastardo se erguerá e dirá que isto nunca aconteceu’.

‘Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam’. (Edmund Burke)

Relembrando:
Esta semana, o Reino Unido removeu o Holocausto dos seus currículos escolares porque ‘ofendia’ a população muçulmana, que afirma que o
Holocausto nunca aconteceu…
Este é um presságio assustador sobre o medo que está atingindo o mundo, e o quão facilmente cada país está se deixando levar.

Estamos a mais de 60 anos do término da Segunda Guerra Mundial.
Este email está sendo enviado como uma corrente, em memória dos 6 milhões de judeus, 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, e 1900
padres católicos que foram assassinados, massacrados, violentados, queimados , mortos de fome e humilhados , enquanto Alemanha e a Rússia
olhavam noutras direcções.
Agora, mais do que nunca, com o Irão, entre outros, sustentando que o ‘Holocausto é um mito’, torna-se imperativo fazer com que o mundo
jamais esqueça.
A intenção em enviar este email, é que ele seja lido por 40 milhões de pessoas em todo o mundo.
Seja um elo desta corrente e ajude a enviar o email para o mundo todo.”

Não gosto particularmente de correntes. Mas este é um libelo pela memória…

Verifiquei a veracidade da afirmação, naturalmente. Daily Mail, notícia.

E como também há relutância em falar das Cruzadas, podemos pensar que qualquer dia se apague igualmente a Inquisição. Ou outros momentos, por alguma razão, politicamente «embaraçosos»….

(imagem: Memorial das Vítimas do Holocausto, Berlim)

vale a pena passar por aqui, Forget You Not 





16 01 2008

 

Na Temperamentvm, REVISTA INTERNACIONAL DE HISTORIA Y PENSAMIENTO ENFERMERO, que já por aqui referi,

Pela mão de Ricoeur e Arendt:história e identidade. A propósito da memória histórica.

A navegação pela memória, feita por Paul Ricour em La mémoire, l’histoire et l’oubli, reúne a fenomenologia da memória, o percurso epistemológico e a hermenêutica da condição histórica - em comum, estão a problemática da representação do passado, que se descobre exposta ao esquecimento, e, simultaneamente, confiada à sua guarda, assim como o enigma de uma imagem, de um “eikon que se dá como presença de uma coisa ausente marcada pelo selo do anterior”.Encontramos o risco de prevalência do “império do esquecimento” dividido entre a ameaça do apagamento definitivo e o seguro dos recursos da anamnese.

Para o que ora nos importa mais, a memória desenha a capacidade de lembrar pelo que se relaciona aos poderes de base do sujeito, como o de falar, de agir, de narrar, de ter-se por autor dos seus actos; por tal nos reenvia para uma antropologia do sujeito. E sendo que “não ter-se esquecido é o poder de recitar sem ter de reaprender”, esboçando-se uma ligação à pedagogia da memória, ao nível ético-político assume um dever duplo que se reúne em forma de futuro e de imperativo, de ambição de veracidade e de uso prático.

O esquecimento (do qual decorre a futilidade) foi abordado, por Ricour, de uma forma particular, como “um atentado à fiabilidade da memória (…), uma falha, uma lacuna”.Na abordagem do nível ético-político da memória, Ricour considera o dever de memória como imperativo da justiça; aliás, o seu discurso sobre a memória traça “duas linhas paralelas”: a da ambição verídica da memória (da fidelidade epistémica da lembrança) e a da utilização prática da memória (visível na técnica de memorização).

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da História, da perspectiva de um filósofo

29 11 2007

A história pertence ao ser vivo por três razões: porque ele é activo e ambicioso; porque tem o gosto pela conservação e pela veneração; porque sofre e tem necessidade de libertação. A essa relação tripla corresponde a forma tripla da história, na medida em que é permitido distingui-las: história monumental, história tradicionalista, história crítica.
(…) Quando o homem que quer criar grandes coisas precisa do passado, usa a história monumental. Ao contrário, aquele que quer perpetuar o que é habitual e há muito venerado ocupa-se do passado mais como antiquário do que como historiador. Apenas aquele que a necessidade presente sufoca e quer a qualquer preço afastar o seu peso sente a necessidade de uma história crítica, isto é, que julga e condena.

Friedrich Nietzsche





uma certa concepção da História…

15 11 2007

 

…só possível depois dos Annalles. A revista com que Lucien Fébvre e Marc Bloch (Annales d’histoire économique et sociale) quiseram renovar a história, advogando a aproximação com outros saberes e dirigindo a atenção, não para os acontecimentos espectaculares, como revoluções e guerras, ou conquistas (a chamada história dos vencedores), mas para as mentalidades e para as transformações silenciosas, “os jogos subterrâneos de longa duração”. Já Rosseau criticara a história, por mostrar as acções dos homens com as vestimentas de gala e por só apresentar “o homem público que se arranjou para ser visto: não o acompanha em sua casa, em seu gabinete, na sua família, entre seus amigos; só o pinta quando ele representa...”

Os Annales e as suas influências nas Ciências Sociais
Questões acerca da história em Rousseau

Uma das obras mais conhecidas, nesta perspectiva, data de 1961, a História da loucura, de Michel Foucault. Emergiram novos terrenos, até então considerados pouco nobres, como a história das festas, da feitiçaria, da morte, da infância, da família, da sexualidade, do suicídio.

A história passou a contemplar o homem comum, os seus hábitos, as suas diversões, os seus afazeres quotidianos. Atente-se, porém, ao resvalar desta linha histórica para o exagero ou, como bem disse François Dosse, para uma história em migalhas..

 

(imagem aqui)





da “geração de 70″: Antero de Quental

28 10 2007

Cada homem é o resultado da interacção de circunstâncias na maioria das quais não interferiu.Ninguém escolhe os progenitores, o local onde nasce ou o período da história em que construiu o pensamento e, no entanto, todas estas variáveis têm papel decisivo na evolução de cada vida e condicionam o comportamento individual.
Penso que o nosso poder de decisão, nos diversos momentos em que fazemos as nossas opções, é menor do que gostaríamos que fosse.
O Homem é um ser responsável mas limitado nessa responsabilidade, o que deveria ser assumido na avaliação dos actos individuais e colectivos.

Foi nesta perspectiva que procurei interpretar Antero de Quental, o Homem e o Poeta.

Antero e a circunstância, por Nuno Grande.





dar conta de…

7 08 2007

TEMPERAMENTUM
REVISTA INTERNACIONAL DE HISTORIA Y PENSAMIENTO ENFERMERO
ISSN: 169-6011

Las imágenes como documentos de memoria
Antonio Galindo Casero

La imagen, como elemento de comunicación e información, ha acompañado al hombre en distintos tipos de soportes que comenzaron en las paredes de las cuevas prehistóricas y que hoy se proyectan a través de soportes digitales. Algunas de estas imágenes son documentos de memoria histórica y uno de los métodos con los que captar las mismas nos resulta especialmente sugerente. Nos referimos a la fotografía, que habiendo iniciado sus primeros pasos en la primera mitad del siglo XX ha visto ampliar más y más su potencialidad.

Nuestra propuesta historiográfica se atreve a sugerir un cambio en el modo de hacer la historia, consistente en poner en la mesa del historiador de la enfermería todas aquellas imágenes que no deberían ser ignoradas o desechadas por más tiempo y que forman parte de una historia que puede y debe ser investigada. No es fácil. Su lectura exige entrenamiento, aunque, como tantas otras veces, el historiador cuenta con métodos con los que afrontar su tarea. La iconografía3 y la iconología4 nos ayudarán a descifrar la historia que se nos revela a través de las imágenes, y recuperar las imágenes significativas es la primera tarea que se debe imponer el historiador. El acceso a los archivos y colecciones de imágenes no es tarea fácil en un país como el nuestro donde la imagen ha recibido tan poca atención. A esta dificultad general habrá que añadir la específica del campo de investigación propio de la imagen enfermera. Por eso, la primera tarea que se nos impone como investigadores de la historia enfermera es contribuir a la recopilación de todo el material iconográfico desconocido, disperso y desclasificado sin el que nos será imposible construir una historia completa de la enfermería española.

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quanto da história de enfermagem nacional por explorar…





do dia : dos celtas, iberos, lusitanos… das origens

6 08 2007

Na mitologia céltica, hoje, 6 de Agosto, é Dia do Festival de Tan Hill, em honra do fogo sagrado, chamado Teinne ou Tan.
Enquanto povo identificável, os celtas já não existem mas remanesce a influência nos que se afirmam “nações celtas” -
a Bretanha (região da França), a Cornualha (Inglaterra), a Irlanda, a Ilha de Man (Grã-Bretanha), a Escócia e o País de Gales. Em quatro (Bretanha, Irlanda, Escócia, Gales) existem áreas onde uma língua céltica ainda é usada pela comunidade.

Na península Ibérica, a Galiza e Astúrias são as áreas mais frequentemente destacadas pela influência da cultura celta. Como a Bretanha, a Galiza foi parcialmente colonizada pelos Bretões durante o período pós-romano. Todavia, nem na Galiza nem nas Astúrias se constata a sobrevivência de uma linguagem céltica, o que significa que o “teste” mais comum de celticidade não se aplica. A base para a origem celta é “justificada” pelas semelhanças na música, dança e folclore.
A Cantábria e Portugal (”Lusitania”) são ocasionalmente sugeridos como outras regiões célticas (aliás, o ano passado o norte de Portugal fazia parte do mapa do campeonato intercéltico…).

A nossa origem étnica é essencialmente uma mistura de tribos celtas e iberos (chamados celtiberos, como os lusitanos, os Calaicos ou Gallaeci e os Cónios, entre outras menos significativas). Os celtiberos - como a palavra afirma - terão resultado da junção da cultura do povo celta e do povo nativo da Península Ibérica (iberos, portanto).

Deste povo desenvolveram-se, na parte ocidental da Península, os Lusitanos, tribo que vivia entre os rios Douro e Tejo - a Lusitânia, «a mais poderosa das nações ibéricas e a que entre todas por mais tempo deteve as armas dos romanos», afirma Estrabão.
Lusitanos e calaicos eram aparentados, e mais tarde, o nome lusitano foi usado para descrever os Galaicos (povo celtibérico das montanhas a norte do Rio Douro) e outras tribos, devido à notabilidade deste povo em lutar contra o domínio romano, e também porque todos eram cultural e etnicamente muito semelhantes.
A romanização chegou depois de século e meio de lutas ferozes e de derrotas. É conhecida a expressão de Júlio César (Caio)
Há nos confins da Ibéria, um povo que nem se governa nem se deixa governar“.

A figura mais notável entre os Lusitanos foi Viriato(180 a.C. - 139 a.C.), pastor e caçador dos Montes Herminios (Serra da Estrela), um dos líderes no combate aos romanos.
(A este propósito, o romance notável de João Aguiar, A Voz dos Deuses e de quem apreciei igualmente «A Hora de Sertório»).

Existem muitas divergências nesta área, particularmente no que respeita às origens históricas e administractivas - portanto diria que parece haver um entendimento muito abrangente da Lusitânia, como um conjunto vastíssimo e territorial de muitas tribos “lusitani”. Falar de influências na nossa origem exigiria apontar, claramente, os gregos e fenicio-cartagineses, os romanos, depois as invasões bárbaras (os visigodos e os suevos, os vândalos e os alanos) e a muçulmana (os mouros, predominantemente berbéres). Da terra de Portucalis, do território entre Douro e Lima ao reconquistar que veio seguindo rios, do Minho ao Mondego, ao Tejo, ao Sado, ao Guadiana.
A ler Formação de Portugal - um problema controverso

(Imagem: Antiquorum Hispaniae Episcopatuum
Geographica Descriptio. Autore N. Sanson. Amstelodami, Apad I. Covens & C. Mortier
Mapa de Peninsula Ibérica no tempo do Imperio Romano. Colorido à mão.)





(longa) conversa sobre a Revolução Francesa, no dia da tomada da Bastilha

14 07 2007

“Como a Revolução Francesa não teve apenas por objectivo mudar um governo antigo, mas abolir a forma antiga da sociedade, ela teve de ver-se a braços a um só tempo com todos os poderes estabelecidos, arruinar todas as influências reconhecidas, apagar as tradições, renovar costumes e os usos e, de alguma maneira, esvaziar o espírito humano de todas as idéias sobre as quais se tinham fundado até então o respeito e a obediência.”
citação d’aqui

Revolução, palavra oriunda dos territórios da astronomia, transmite a ideia de “um impulso irresistivel e eterno, repetindo sempre os movimentos casuais, os altos e baixos do destino humano” (Hannah Arendt, Sobre a revolução, p. 49). A utilização política inicial apareceu muito próxima do significado original da palavra, no sentido de uma rotação regressiva a um ponto preestabelecido, ou seja, no sentido de restaurar ou de recuperar - que foi o objectivo das revoluções francesa e americana. Começaram por ser desencadeadas por homens “firmemente convencidos que mais não faziam do que restaurar uma antiga ordem das coisas (…) queriam voltar aos velhos tempos, em que as coisas eram o que deviam ser” (Sobre a revolução, p. 51).

Além de outras consequências de uma revolução “com trajes romanos”, que originou o nascimento do conceito de história na filosofia de Hegel, Arendt salienta que sem a Revolução Francesa “podemos duvidar que a filosofia alguma vez tentasse entrar no domínio dos assuntos humanos”, isto é, num campo em que a procura da verdade absoluta se dirigisse às ligações entre os homens, que é domínio relativo por definição.

Outra conotação relevante do movimento astronómico, que permanece, é a noção de irresistibilidade e, por consequência, de irrevogabilidade.
A palavra revolução deve ser utilizada com cautela e reservada para identificar “os únicos acontecimentos políticos onde enfrentamos directa e inevitavelmente o problema do começo”, pelo que não são simples mudanças.

Para a compreensão das revoluções da época moderna, é crucial a ideia de que a liberdade e a experiência de um novo princípio devem coincidir; tenha-se em conta que, no sentido do seu verdadeiro conteúdo, liberdade é “a participação nos negócios públicos ou a admissão no domínio público”. Por um lado, as “relações políticas no seu curso normal não caem sob a alçada da violência” e, por outro, as guerras e revoluções não são concebíveis fora do âmbito da violência, o que a transforma a violência no seu “denominador comum” e as separa de todos os outros fenómenos políticos.

As revoluções parecem resultar com espantosa facilidade na fase inicial porque os iniciadores tomam o poder de um regime em plena desintegração, pois, frequentemente, há já uma marcada longevidade de corpos políticos obsoletos, isto é, incapazes de garantir a autoridade e o respeito inerente. Mesmo quando a perda de autoridade é manifesta, a condição para uma revolução ocorrer e ter êxito é haver pessoas preparadas e dispostas a agirem conjuntamente, pois o traço do poder é agir-em-conjunto. E Hannah Arendt reitera que “nunca nenhuma revolução resultou, que poucas rebeliões nasceram quando a autoridade do corpo político estava intacta”.

Distinguindo claramente entre liberdade e libertação, Arendt alerta que a paixão pela liberdade pública ou política se pode confundir facilmente com “o talvez mais veemente, mas politicamente essencialmente estéril, apaixonado ódio pelos senhores, o anseio do oprimido pela libertação”.

Este ódio nunca resultou em revolução pela incapacidade de compreender (quanto mais, de realizar) a ideia central da revolução que é a instauração da liberdade, “a fundação de um corpo político que garanta o espaço onde a liberdade pode surgir”.

É ainda de notar que não foi a conspiração de reis e tiranos ou poderosos, mas sim “a conspiração muito mais poderosa da necessidade e da pobreza , o que os distraiu o tempo suficiente para que deixassem fugir o «momento histórico»” e, entretanto, a revolução francesa mudou de rumo e deixou de ter a liberdade por objectivo, passando a dirigir-se para a felicidade do povo.

Foi o povo, impulsionado pela pobreza, que entrou em campo e a sua necessidade era violenta, em consequência pré-política, e “parecia que apenas a violência poderia ser suficientemente forte e rápida para os ajudar”.

Seguindo a análise que Arendt faz das revoluções francesa e americana, ressalta-se ainda que, mesmo que se identifique adequadamente a revolução com “o estabelecimento da liberdade” permanece uma dificuldade ainda mais séria: “a de que existe muito pouco, quanto à forma e conteúdo das novas constituições revolucionárias, que seja, de facto, novo, para não falar já de revolucionário”.

Evocando a história da revolução no século XX, impressiona mais a fraqueza do que a violência das forças de reacção e contra-revolução - relevam-se “a frequência da sua derrota, a facilidade da revolução, e por fim, embora sem menor importância – a extraordinária instabilidade e falta de autoridade da maioria dos governos europeus restaurados após a queda da Europa de Hitler”. Problema decorrente passou a ser, na sociedade igualitária, a incapacidade óbvia e a evidente falta de interesse nos assuntos políticos como tais.

Voltando à efeméride de hoje, 14 de Julho, em 1789 marcará o futuro - a República Francesa está prestes a germinar, e os seus princípios: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O fim do antigo regime, por seu lado, significou, principalmente, a subida da burguesia ao poder político e também a preparação para a consolidação do capitalismo. Mas a Revolução Francesa não ficou restrita à França. As ideias espalharam-se pela Europa, atravessaram os oceanos e os séculos. E chegaram até hoje….





Dia de hoje

8 06 2007

A 8 de Junho comemora-se o Dia Mundial dos Oceanos, data definida na Cimeira do Rio, em 1992, para que organizações e cidadãos de todo o mundo celebrem os oceanos do planeta.
Afinal, o ambiente marinho compõe cerca de 72% da superfície do nosso planeta…

Ocean World Day

A Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e a Carta da Terra são de recordar e manter.





6 de Junho: o dia D

5 06 2007

Assim ficou conhecido o dia do desembarque na Normandia.

Há 63 anos atrás, começava no canal da Mancha a operação Overlord, comandada pelo general Eisenhower.

Ao longo de todo o dia, cerca de 170.000 soldados Aliados lançar-se-iam contra a famosa muralha atlântica do III Reich, e mais de 100 mil soldados americanos, britânicos e canadenses tomaram cinco praias pré-selecionadas cujos nomes em código eram Omaha, Utah, Juno, Gold e Sword.

Antes do desembarque, 204 navios caça-minas e 43 balizadores abriram caminho por entre as minas, para permitir chegar às praias normandas. Uma gigantesca esquadra: 2.485 lanchas de assalto, 263 navios de desembarque de tanques, 23 navios americanos, 49 britânicos e outros tantos de diversas proveniências, fizeram a cobertura de artilharia.

Dos filmes que recordo sobre o assunto, estão Invasão da Normandia e Saving Private Ryan, de Spielberg.

O Dia D reclamou milhares de vidas de ambos os lados do conflito.
Foi um dos dias mais importantes da História do século XX - em que o destino da guerra virou definitivamente para o lado dos Aliados.

A batalha da Normandia durou mais do que inicialmente foi previsto e passar-se-ia a outra etapa no final de Agosto de 1944, com a libertação de Paris.

Fotos aqui e aqui.
Alguns dados daqui, d’aqui e aqui, aqui e aqui.





8 Maio, Final da II Guerra

9 05 2007

Imagine-se Maio de 1945.

Dia 3, em Portugal, o governo de Salazar decreta luto oficial de três dias pela morte de Hitler (que se suicidou a 30 de Abril).
Dia 4, os alemães aceitam render-se na Holanda, Dinamarca e nordeste da Alemanha.
Dia 7, o general Jodl assina a rendição incondicional das forças alemãs, no quartel-general de Eisenhower, em Reims.
Dia 8 de Maio, Churchill e Truman declaram o dia como «V.E. Day» - Dia da Vitória na Europa.
Dia 9, ratificada a rendição das tropas alemãs em Berlim.

Neste artigo, encontrei referência interessante ao dia 8 de Maio.

“A História não é só uma sucessão de fatos, mas também o que fazemos deles. Nos últimos 60 anos, faltou consenso na Alemanha sobre como se deveria lembrar a Segunda Guerra e como interpretar a própria História. Um dos mais renomados conhecedores desta tenebrosa fase da história alemã é o historiador Ian Kershaw, autor de uma biografia sobre Hitler. Em entrevista à DW-WORLD, ele falou do significado do 8 de maio de 1945″ .

Ian Kershaw: O 8 de Maio foi o fim de uma era, o final das duas guerras mundiais. Embora a Europa estivesse em ruínas, o 8 de Maio de 1945 possibilitou um novo começo na Alemanha e na Europa. Naturalmente que isto levou tempo. O acontecimento principal, no entanto, foi o fim da Segunda Guerra Mundial.

(…) o final da guerra estabeleceu um marco na história europeia, especialmente na alemã.
Foi a transição entre as duas metades do século passado. Embora a segunda metade do século 20 seja marcada pela guerra, o 8 de maio possibilitou à Alemanha a chance de um novo começo, mesmo que de forma diferente para os dois lados do país.

Pode-se comparar o 8 de maio de 1945 com algum outro importante acontecimento da história mundial?
A única analogia possível talvez fosse o fim da era napoleônica. 1815 foi, da mesma forma, um recomeço para a Europa. Só que a ruptura de 1945 foi maior que a de 1815. Não há comparação. Depois de uma guerra, são necessários alguns anos até que a situação se estabilize, mas as modificações na Europa pós-1945 foram muito maiores do que as que se seguiram a 1815.
(…)
Nas décadas de 60 e 70, a opinião pública debateu pouco o Holocausto. Houve algumas obras científicas, mas pelo que sei não receberam muita atenção. Foi aceite que a Alemanha esteve envolvida em coisas terríveis. Mas não se estava disposto a investigar o papel do país ou da sociedade alemã nestes acontecimentos. A responsabilidade foi passada a Hitler e ao seu regime totalitário.
(…) Teme-se que com o falecimento das testemunhas que vivenciaram a Segunda Guerra também morra o interesse pelo conflito. O senhor compartilha esta opinião?
Sessenta anos após o final da guerra, pode ser esta a última oportunidade de refletir em conjunto com os sobreviventes. O interesse da opinião pública parece saturado. Na Grã-Bretanha, os programas sobre a Segunda Guerra não têm mais tantos telespectadores como antigamente. Mas isto é muito natural. Mesmo assim, a importância da guerra, do Holocausto e da era nazi permanece. Foi a mais dramática das tentativas de criar uma sociedade desumana. Enquanto os princípios humanitários continuarem sendo o fundamento social da Europa, não mudará a posição em relação a Hitler e à Segunda Guerra Mundial.





Do dia de hoje, Dia do Trabalhador

1 05 2007


O Dia do Trabalhador é reconhecido como dia internacional de reivindicação de condições laborais. No século XIX, a Revolução Industrial conduziu a condições desumanas de laboração. A necessidade de produzir o máximo ao mais baixo custo não respeitava idades nem géneros, tempos de comer ou de repouso e lazer.

As organizações sindicais eram incipientes - notemos que em 1864 foi criada a Associação Internacional dos Trabalhadores, em Londres. A esta associação se chamou mais tarde a Primeira Internacional Socialista que duraria sete anos. As divisões ideológicas entre as várias facções (sindicalistas, anarquistas, socialistas, republicanos e democratas radicais, entre outras) puseram fim à organização, mas deixaram mais explícitas as reivindicações e propostas pelas quais os trabalhadores se deveriam debater. A redução da jornada de trabalho para as 10 horas diárias era uma delas. Os objectivos saídos desta Internacional tiveram eco no IV Congresso da American Federation of Labor, em Novembro de 1884. As negociações falharam sucessivamente, com as entidades patronais.

Até que, em 1886, no dia 1 de Maio, teve início uma greve geral com a adesão de mais de 1 milhão de trabalhadores em todo o território norte-americano. A reacção a esta paralisação foi violenta. Na cidade de Chicago a repressão policial foi especialmente dura - ao quarto dia de manifestações (dia 4 de Maio) explodiu uma bomba entre a multidão matando dezenas de trabalhadores e alguns polícias. Deste incidente resultou a prisão de oito líderes do movimento.Quatro foram condenados à morte por enforcamento e os restantes a prisão perpétua (um deles, suicidou-se na cela). Um ano depois, o julgamento foi anulado e os presos considerados inocentes - ficaram conhecidos como «mártires de Chicago».

Em 1889, a Segunda Internacional Socialista decidiu, em Paris, proclamar o 1º de Maio como o Dia do Trabalhador em memória dos que morreram em Chicago.
Em 1890, o Congresso americano votou a lei que estabeleceu a jornada de oito horas de trabalho.
A decisão da Comuna de Paris, de decretar o 1º de Maio como o Dia Internacional do Trabalhador teve repercursões em Portugal.

Afirma José Mattoso (História de Portugal, vol. 5), que houve um reforço da luta do movimento operário português em finais do séc. XIX sendo “em torno da associação e da greve que gravita o próprio movimento operário”. Entre 1852 e 1910 realizaram-se 559 greves no nosso país. A subida dos salários, a diminuição da jornada de trabalho e a melhoria das condições de laboração eram as principais exigências dos operários. Mas, segudo o mesmo autor, o movimento operário alcançava grande força quando “aquelas (associações) a que hoje chamaríamos propriamente «sindicatos» se juntavam com as recreativas, as de socorros mútuos e os centros políticos”.

Tal ficou demonstrado no 1º de Maio de 1900 que juntou em Lisboa cerca de 40 mil pessoas, numa altura em que “as classes médias ainda viam as organizações de trabalhadores com alguma simpatia”.

Durante a I República não deixou de se festejar o Dia do Trabalhador, ainda que possa relevar-se que um dos primeiros diplomas aprovados dizia respeito ao estabelecimento dos feriados nacionais e destes não constava o dia do trabalhador.

Em 1933 foi decretada a “unicidade sindical” e o “controle governamental dos sindicatos” desvanecendo-se o movimento operário que só ganharia, de novo, ânimo na década de 40.
Durante o Estado Novo as manifestações no Dia do Trabalho (e não do Trabalhador, chamo a atenção) eram organizadas e controladas pelo Estado.

Considera-se que o primeiro 1º de Maio celebrado em Portugal depois do 25 de Abril, em 1974, foi a maior manifestação alguma vez organizada no país. Só em Lisboa juntaram-se mais de meio milhão de pessoas. Para muitos, foi a forma dos portugueses demonstrarem a sua adesão ao 25 de Abril, que uma semana antes restituía ao país a democracia.
Só em 1996 ficou consignada, em Portugal, a semana de 40 horas de trabalho, oito por dia, de segunda a sexta-feira.

Hoje, em 2007, o 1º de Maio, Dia do Trabalhador, poderia majorar-se uma reflexão sobre as actuais organizações e o trabalho, as condições de trabalho, a exploração do trabalho infantil, da mulher e dos migrantes, entre outros. Sobretudo, ou especialmente, porque existindo um direito ao trabalho, tal coexiste com o direito à justa remuneração, ao lazer e ao repouso.

(na imagem: Lírio do Vale ou Muguet. Em França, o muguet é oferecido aos familiares e amigos, no dia 1 de Maio, para lhes dar felicidade. É a flor oficial do dia do trabalhador)





Do dia

25 04 2007

Trinta e três anos passaram.
Teremos hoje real consciência do significado?!
Ou, como herdeiros de uma fortuna invisível, malbaratamos esse poder e essa riqueza?!
Talvez seja importante sentarmo-nos a ouvir contar como era e possamos perceber a diferença.
Ah, e o risco! Que o poder existe se as pessoas se reunem e esvai-se quando elas se dispersam…

Vou buscar o que escrevi o ano passado, a propósito do mesmo dia - da Liberdade:

Diria Sartre que, queira ou não queira, estou condenada a ser livre.
A liberdade é tida como condição de alguém que está isento de constrangimento - relevo desde já que a ideia de «ser livre» não pode ser nem é absoluta: como nós, a nossa liberdade está situada e delimita-se. Costumo dizer que se não sou imortal nem sei voar, como podia a minha liberdade ser absoluta?

O género mais primário é o da liberdade de movimento, de ir daqui para ali.
Mesmo esta, tem limitações evidentes.
Da perspectiva política, a liberdade torna-se possibilidade de um cidadão agir segundo a sua determinação, nos limites da lei (aliás, refere-se a existência de “direitos, liberdade e garantias”).
A liberdade de pensamento não precisa de ser protegida mas a da expressão, de opinião, de consciência, precisam - porque se realizam no exterior de nós, se concretizam no mundo.

Filosoficamente, diria que a liberdade pode ser vista como uma das faces da dignidade humana, se viermos pelo caminho da autonomia (autodeterminação, enquanto faculdade auto-reger-se) e da razão.

Enquanto qualidade da vontade de se guiar por motivos e valores pessoais, noto que se distingue de livre arbítrio.
E cedo se relacionou com a responsabilidade, até se tornarem correlativas uma da outra.

Muito se cruza nestas faces da liberdade: falamos de liberdade de investigação, de autonomia do professor, de ideais liberais, de imunidades e direitos, de poder decidir com e sem motivos nas mais diversas esferas da acção humana…

A liberdade do juízo (que depende, por exemplo, do grau de autoconsciência e da visão pessoal) difere, por exemplo, da liberdade política.

Julgo que a liberdade se exerce dentro e fora de nós, em permuta de tipo osmótico.
E posso sentir-me livre mas é preciso que exista liberdade política e social para o realizar? ou que esteja disposta a correr os riscos que implica? Na inversa, posso ser pouquíssimo livre, numa sociedade politicamente liberal e democraticamente organizada? Ou não?!…

Aqui, vale a pena retomar os comentários da altura, e acrescentar que “só o banho cultural [e a cultura é aqui entendida com algo que foi acrescentado ao sujeito] é que permite ao sujeito ter consciência desse sentimento de liberdade.”, como afirmava MP.

E não obstante existir liberdade fora de si, na cultura e na sociedade, tal não significa que haja dentro de si.
E vice-versa, pois em ambiente de totalitarismo, a pessoa, individualmente, pode agir de modo livre (aqui, chamava os «Homens em tempos sombrios» de Arendt, para a conversa).

Agora, na perspectiva da génese da consciência da liberdade, preciso de ser educado para tal.
Educado no sentido da «paideia» grega a encaminhar-me o pensamento… Educação para Pensar por Si. Porque é preciso de desenvolver o pensar e o julgar.





(Nosso) Retrato de Grupo

17 04 2007

Retrato social - veja o vídeo
Esta série, da autoria de António Barreto e realizada por Joana Pontes , é um retrato da sociedade portuguesa contemporânea. Tenta responder às perguntas mais simples.
Quem somos? Onde vivemos? Como trabalhamos? Que saúde, que educação e que justiça temos?
Para isso, o autor recorre à comparação com o que éramos há três ou quatro décadas e sublinha especialmente
as grandes mudanças ocorridas desde então.
É o mesmo país, mas os portugueses já não são os mesmos.

Mudámos muito, em pouco tempo. Podemos viver melhor ou não, mas vivemos de modo diferente.

Ver o vídeo é deixar-se surpreender pelo início, da roda de partos com que começa e da comparação com a realidade de há 40 anos.
Devagar, pelo quotidiano, vão deslizando décadas, imagens e realidades do crescer, do estar, do comer, do vestir, da saúde, do viver… gente que fala do que recorda, do que viveu, imagens de arquivo, uma teia de história recente. E do que hoje se vive, se tem.
Obrigada, pela realidade complexa e que se esquiva ao simplismo, pela delicadeza, pela sensibilidade, pelo respeito por todos nós.
Vale bem o tempo que consome até pelo que nos fica, depois dele e da riqueza desta visão de nós.
Vídeo

Retrato social de Portugal nas últimas décadas
As grandes transformações sociais

As mudanças sociais verificadas em Portugal ao longo das últimas quatro décadas foram profundas e mais rápidas do que na maioria dos países europeus. Em certos casos, como na demografia, certas mudanças, medidas através dos indicadores sociais clássicos, ultrapassaram os valores médios dos países vizinhos.

A emigração, a guerra colonial, uma revolução política e social, a fundação do Estado democrático, a descolonização, uma contra-revolução, a adesão à União Europeia e a imigração foram alguns dos acontecimentos ou fenómenos históricos que marcaram estas quatro décadas e que resultaram ou aceleraram mudanças sociais profundas.
(…)
Mas nada permite afirmar hoje, como seria possível há poucas décadas, que Portugal mais parecia um país de outro continente. Os domínios do social e do económico foram mais dinâmicos do que o do político. Ainda a sociedade parecia imutável, nos anos sessenta, por causa do imobilismo político, e já as forças sociais, económicas e culturais registavam mudanças profundas, invisíveis à primeira vista.
(…)
As mudanças sociais e demográficas podem ser mais profundas do que as políticas, mas estas são mais perceptíveis, aparentemente mais radicais e têm um efeito acelerador. Removidos, com a democracia e a integração europeia, os obstáculos políticos, a mudança social e económica prosseguiu, depois de 1974, a um ritmo ainda mais rápido. Em todo este processo de mudanças rápidas ou graduais, invisíveis ou dramáticas, assistiu-se a uma permanente oscilação entre factores internos e externos. Mas sublinha-se a importância predominante dos factores externos: a emigração, o turismo, o comércio externo, os investimentos estrangeiros, os costumes, as modas, a ciência, a técnica, as artes, as mentalidades, a religião, etc.
(…)

Mas a sociedade não se limitou a digerir ou assimilar passivamente as influências externas. Pelo contrário, foi atravessada por acontecimentos e movimentos próprios, através dos quais teve de resolver os seus problemas atávicos, ultrapassar contradições, dirimir conflitos, encontrar as suas soluções e adaptar-se a novas situações. No que revelou uma notável plasticidade. Não era, com efeito, fácil, libertar-se um país de tanto quanto o condicionou durante décadas: a ignorância e a reverência; a delação e o medo; o autoritarismo e a repressão. Ao mesmo tempo que se separava de África e se voltava para a Europa; e que sacudia o paternalismo e criava uma República de cidadãos.

Causas e efeitos da mudança

O que explica a rapidez das mudanças? Em primeiro lugar, o atraso inicial em que o país se encontrava. De certo modo, “queimaram-se etapas”, dado que os factores de mudança, sobretudo os externos, eram já dos novos tempos (comércio externo, turismo, emigração, etc.).
(…)
Os portugueses (elites, classes médias, emigrantes, técnicos, etc.) tinham aspirações e expectativas muito acima das possibilidades que o país lhes oferecia. A mudança rápida tem, só por ser rápida, implicações e consequências. Representa uma espécie de “atalho”, na medida em que se podem saltar etapas de desenvolvimento e crescimento. Condiciona a solidez do desenvolvimento (aquilo a que os economistas contemporâneos gostariam de chamar “sustentação”).
Na verdade, o que de mais evidente se revela é a falta de preparação, de ordenamento e de planeamento. As escolas superiores e as universidades, por exemplo, cresceram muito rapidamente em dez ou vinte anos (em unidades e instituições, em número de estudantes e de professores, em número de cursos, etc.). Acontece que, para esse crescimento, não havia edifícios, salas, professores, cursos, técnicos, laboratórios, etc., em condições, com qualidade e experiência suficientes. Foi necessário construir à pressa, recrutar docentes (desqualificados) à pressa, criar instituições à pressa, estabelecer “numerus clausus” com o único objectivo de limitar o acesso depois de verificado o excesso.
O resultado está à vista: ensino de má qualidade, cursos e diplomas desqualificados, desperdício de recursos, multiplicação de cursos e instituições, investigação muito deficiente, deficiente ligação das escolas à sociedade e às empresas, etc. O paralelo pode ser estabelecido com outras áreas e sectores de actividade. A urbanização rápida, acompanhada de especulação, de corrupção, de falta de experiência no ordenamento urbano, de ausência de hábitos e tradições de envolvimento colectivo no ordenamento, etc., criou a desordem urbana que hoje caracteriza as áreas metropolitanas de Lisboa, Porto, Setúbal e outras.

(…)
A “nação” é a mesma. Pela cultura e pelo património; pela língua e pela memória; pelos valores e pelos mitos; pelas referências históricas e culturais; pelo sentimento de pertença e pela herança dos antepassados. Mas a sociedade é muito diferente. Mesmo se há costumes que se mantém. Há ainda traços especiais que criam a ilusão de que a mudança foi pouca. Por exemplo, o sentimento de atraso diante dos países europeus. A obsessão com a comparação com os outros povos mais desenvolvidos. A síndrome de fidalgo arruinado: a sensação de que Portugal foi, noutros tempos, um “grande país” e uma “nação desenvolvida”, tendo conhecido nos últimos dois ou três séculos um processo de regressão relativa. A desilusão contemporânea é motivada pelo abrandamento do progresso e do melhoramento.

Há quarenta ou cinquenta anos alguns traços marcavam fortemente a sociedade: país pequeno, pobre, periférico e fechado. A pequenez manteve-se (eventualmente agravada pela descolonização). A pobreza também (mesmo se muito reduzida). A periferia também (mas esbatida pelas novas características das sociedades modernas, com a rapidez das comunicações, as estradas e auto-estradas, a globalização). O carácter fechado é que foi radicalmente alterado.

(…)
Em todos estes aspectos, a evolução rápida de Portugal foi sempre no sentido de se aproximar dos padrões europeus. No entanto, cada país, cada sociedade, em cada momento, faz esse caminho à sua maneira, com características próprias. O caso da integração das mulheres na sociedade pública e na economia é revelador deste duplo ponto de vista. Por um lado, passou-se em Portugal exactamente o que se passou nos outros países ocidentais. Por outro lado, os traços específicos foram reais: mais tarde no tempo; mais rápido; motivado directa e imediatamente pela emigração dos homens para a Europa e pela guerra colonial que retirava umas centenas de milhares de homens das actividades produtivas. Nação velha e Estado antigo. Povo com indelével sentimento de identidade e de independência.
(…)





Miguel Torga - link para a TT

29 03 2007



“Quando um diligente funcionário da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) informava os seus superiores, em Julho de 1947, que Adolfo Correia Rocha, “conhecido literariamente por Miguel Torga”, era “anti-situacionista, de ideias avançadas, mas moralmente nada consta”, o escritor transmontano era já uma figura bem referenciada pelo aparelho policial do Estado Novo.
Na viragem para a década de 40, Torga tinha já vivido a sua experiência de prisão nas cadeias salazaristas, na sequência da publicação, e posterior apreensão, do seu livro O Quarto Dia da Criação do Mundo, considerado pelaPIDE como “uma publicação obscena e de propaganda comunista”. Esta ficha de informação (do processo n.º 11.803) é uma das primeiras dos quatro volumes que constituem o extenso dossier de Miguel Torga na PIDE (e que inclui também os documentos da sua antecessora, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, que existiu entre 1933-45), que estáarquivado no Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IAN/TT). É
este espólio, já tratado, que a Torre do Tombo disponibiliza agora na Internet (http://www.iantt.pt/) como Documento do Mês de Abril (…).
O pretexto para o lançamento on-line do processo da PIDE é o centenário do nascimento de Miguel Torga (1907-1995), que está a ser evocado por todo o país. Neste contexto, uma exposição com os referidos documentos vai ser também apresentada em Outubro na Delegação Regional de Cultura do Norte,em Vila Real.”
(Fonte: caderno P2 do Público, 28.03.2007)

Letreiro
Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim — meu principal motivo
De insatisfação —,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.

Miguel Torga, Orfeu Rebelde (195 8)

(Miguel Torga, Quadro de Guilherme Filipe e Imagem daqui)
(obrigada, Hergé, pelo texto… )





Do Carnevale

20 02 2007

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Tem uma origem polémica, para dizer o mínimo…
Terão sido em homenagem a
Isis, no Egipto Antigo, as primeiras festas primitivas, de carácter orgíaco, comemorando a chegada da Primavera, por ocasião de rituais ligados à agricultura. Homens e mulheres pintavam o corpo e enlevavam-se em danças e festa.
Festas colectivas de 17 de Setembro (as Saturnais) e de 15 de Fevereiro (Lupercais, em honra a Pã ou Bacanais ou Dionísicas, em homenagem a Baco/Dioniso), apresentam contornos parecem próximos do do Carnaval.
Em Roma, em homenagem a Saturno, comemoravam-se as Saturnais, festejos de importância tal que tribunais e escolas fechavam as portas, alforriavam-se escravos, as pessoas saíam às ruas para dançar num registo de igualdade.
Na abertura dessas festas a Saturno, carros desfilavam pela cidade, com homens e mulheres nus. Estes eram chamados os “carrum navalis”, a que muitos atribuem a expressão carnevale, «o uso que se tira da carne».
Mas há também quem afirme falsa a ideia que liga o Carnaval às Saturnais - pois nestas, o principal papel cabia à extinção dos papéis sociais. E há quem ligue às celebrações de Dioniso ou às Lupercais ou às calendas de Inverno.

Na Idade Média, era uma festa muito popular e que veio a revelar-se de dificil extinção… até por poder entender-se que servia (e serve) de libertação saudável do quotidiano - desloca os problemas para uma alegre representação simbólica, como que um momento «oficial» de escárnio social.
A punição dos abusos, por parte da Igreja católica, foi seguida por uma tolerância e por uma «indexação» ao calendário religioso. O Carnaval passa a anteceder a Quaresma, festa de características pagãs que termina em penitência na Quarta feira de Cinzas!
No século XV, em que o Papa Paulo II autorizou o Carnaval romano, na Via Lata. Uma nova estética foi imprimida no baile de máscaras e nos cortejos de carros simbólicos. Famoso, entre os da Época, o de Veneza… a que a máscara desta entrada faz alusão.





Na senda da História

7 01 2007

Revista Lusitana foi uma revista científica que José Leite de Vasconcelos criou.
Fundada em 1889, apresenta um objectivo vasto de abranger todas as formas de conhecimento que, no espírito e na obra de Leite de Vasconcelos, podiam responder pelo nome de Filologia. Por lá cohabitam artigos de linguística histórica e história literária, etnografia, etimologia, a edição de textos ou a lexicografia, folclore e de regionalismo.
Foram publicados 38 volumes entre 1889 (o vol. I traz a data 1887-89) e 1943: o último volume, póstumo, saiu com a data 1940-1943, ainda tendo sido preparado, em grande parte, por Leite de Vasconcelos. Em meio século, e por acção dele, a revista manteve uma periodicidade rigorosamente anual.

Ainda mexi em muitos volumes em formato de papel, durante a pesquisa sobre Zóphimo Consiglieri Pedroso, para a monografia de mestrado. E ainda hoje me delicio com alguns artigos. Aceder a eles, agora, em formato digital, é francamente uma possibilidade notável, de preservação e recuperação valiosa. É que o desenvolvimento científico de hoje não faz perder a frescura - diria, antes pelo contrário - aos dados recolhidos e analisados pelos senhores da etnografia portuguesa.
No Prólogo, Leite de Vasconcelos afirmava que “uma nação não pode ter uma vida completa e independente se desconhecer a sua história”…concordo com ele. Já agora, as pessoas também não!

Deixo alguns exemplos:
Contos populares portugueses de Z. Consiglieri Pedroso
Cancioneiro popular das ilhas dos Açores, por Teophilo Braga
Canções do Berço segundo a tradição popular portugueza
Matrizes para o estudo dos dialectos portugueses, Gonçalves Viana
Poesias Populares, Fernandes Tomás
Observações sobre as cantigas populares
Superstições portuguezas no século XV Posted by Picasa





Alea jacta est!

15 10 2006

Ontem, um amigo usou a expressão quando falávamos. Hoje, deixo aqui a história.

Júlio Cesar hesitava na travessia da torrente do Rubicão…supostamente quando Pompeu ordenou o regresso das suas legiões e proibiu a sua candidatura ao segundo cargo de cônsul. Terá murmurado, aproximando a cabeça de Asínio Polião:

— Renunciar a atravessar este rio fará minha desgraça, mas atravessá-lo fará, talvez, a desgraça da humanidade. Será preciso combater, legião contra legião, romanos contra romanos. Será preciso conduzir a guerra contra o Senado, contra Pompeu. Mas há alguma lei além da força? Como a Fortuna e a Vitória viriam a escolher um homem que renuncia à força?

Nas margens do Rubicão, envoltas em densa névoa, César terá saltado do carro e marchado rumo à pequena ponte que atravessava o rio. Perceber-se-iam, a alguns passos, a XIII legião, as bandeiras brilhantes sob o céu cinza.
— Agora, ainda podemos voltar atrás — murmurou —, mas, quando atravessarmos esta ponte, tudo deverá ordenar-se pelas armas.


Avançou rumo ao rio que se via através da névoa.
- Afinal - falou, levantando a cabeça para o alto —, só há um lance arriscado a jogar. Avante!
Ter-se-á voltado para os batalhões e clamado:
— Vamos onde nos chamam os sinais dos deuses e a injustiça de nossos inimigos! Alea jacta est!


“Alea jacta est”, “A sorte está lançada”, “The game is afoot” - afirmação de quem se recusou a obedecer às ordens e a ser eliminado da vida política.
O galope de César, à beira do Rubicão, é a imagem de um homem que sabe que tem de decidir, numa situação precária e difícil - e quando o fizer, será irreversível.
Fará o que puder, ainda que tal possa não ser determinante. Até por que o resultado «lhe sai da mão». Alea jacta est! A sorte está lançada.

Felizmente, há muitas coisas que não têm a ver com a «Alea».

(imagem: detalhe do desenho de M. Valantin)





raridade…

14 09 2006

A Vindication of the Rights of Woman

Mary Wollstonecraft

Published in 1792, A Vindication of the Rights of Woman was the first great feminist treatise. Wollstonecraft preached that intellect will always govern and sought “to persuade women to endeavour to acquire strength, both of mind and body, and to convince them that the soft phrases, susceptibility of heart, delicacy of sentiment, and refinement of taste, are almost synonimous [sic] with epithets of weakness.”

E está on line - aqui.





História e hermenêutica

29 06 2006

Sob o signo da alteridade e da diferença no tempo (como afirma Ricoeur) – sem o qual não é possível a reconfiguração do passado – é preciso ter em conta que pensar o que já-passou nos leva a respostas construídas, cumulativas, parciais, datadas, prováveis, e que cabe ao historiador procurar tornar o mais verossímel e convincente. Daí uma estreita ligação entre a história e a hermenêutica.

Já Droysen entendia que tanto a natureza quanto a história eram concepções geradas pela mente dos homens a partir da percepção empírica do mundo. Ou seja, o que faria com que se formasse, a partir do caos das percepções sensíveis do mundo empírico, a construção de um saber acumulado sobre o passado, era uma vontade do espírito. A história era, para Droysen, esta vontade, ou este querer atribuir sentido às coisas, fazendo com que a realidade se constituísse como um mundo moral, ou seja, qualificado, dotado de valor e significado.

Droysen estabelecia, assim, uma construção epistemológica para mostrar como a ciência da história era um resultado de percepções sensoriais, orgânicas, sobre o real. Era esta capacidade humana de atribuir sentido às coisas – formando, ao longo do tempo, a humanitas, ou a cultura – o real conteúdo da história.
Nesta medida, Droysen referia, explicitamente, as representações construídas pelo historiador e tratava as fontes ou registos do passado (material objectivamente imprescindível, quer enquanto fontes primárias, quer secundárias), como representações construídas num outro tempo, cabendo ao historiador, por seu turno, representar o já representado (portanto, o próprio material chega ao historiador como representação).

o historiador, diga-o ou não, impõe sempre o seu olhar, já que, para ele, encontrar um caminho para a memória equivale a traçar o seu relato preciso na espessura do esquecimento, essa multiplicidade informe e indefinida de relatos possíveis(Joseph Beaude).

(Mateus, Rembrandt)