livros e leituras

25 05 2008

“Chamo ética à convicção revolucionária e, ao mesmo tempo, tradicionalmente humana de que nem tudo vale por igual, de que há razões para preferirmos um tipo de acção a outros, de que essas razões surgem precisamente de um núcleo não transcendente, mas imanente ao homem, e situado para além do âmbito coberto pela pura razão; chamo bem ao que o homem realmente quer, e não ao que simplesmente deve ou pode fazer, e penso que ele o quer por ser o caminho da maior força e do triunfo da liberdade. Não quereria que, deste livro, o leitor tirasse quatro ou cinco dogmas, nem tão-pouco um código, mas um autêntico alento: porque a ética ocupa-se do que alenta o homem e no homem.” (p. 14)

“A pergunta radical em torna da qual gira a ética não é: “Que devo fazer?”, pois, para além dela, poderá sempre perguntar-se, como fazia Wittgenstein: “E que acontecerá se não fizer o que devo?” ou talvez: “Porque devo eu fazer o que devo?”. O dever não é a última palavra ética, uma vez que também ele terá de ser, por seu turno, fundado (…) há uma pergunta para além da qual deixa de ser possível seja como for continuar e na qual a ética assenta com toda a sua firme fragilidade: Que quero fazer? É do meu querer essencial, não de um querer parcial ou coisificado, mas do querer que radicalmente me constitui, que têm de brotar as minhas normas e os meus valores. O meu querer é o meu dever e a minha possibilidade: o dever é o que o querer funda; a possibilidade, o que o querer descobre.” (p. 30-31)

E assim, com um texto aparentemente simples, Savater põe Kant em causa… vale a pena ler…





escolha(s) dificeis

17 05 2008

É sabido que quantidade e qualidade não apenas não se equivalem como nem querem dizer a mesma coisa.

A imagem evoca(-me) a escolha de um livro significativo, que pesa tanto como um monte deles.

E fico a pensar no que colocava do lado esquerdo…





Livros e leituras

26 04 2008

Uma boa surpresa, o estilo de Bernard Schlink. Lê-se bem, «O Leitor». E podemos escolher se a história pessoal de Michael e Hanna não é apenas o mote para uma vivência geracional da vergonha. Particularmente na Alemanha, no pós-guerra. Isto, se considerarmos a partir de metade da obra, naturalmente.

As três partes da narrativa correm por décadas. Um caso de amor entre um adolescente e uma mulher madura, que teêm um ritual e em que ele é Leitor. Um reencontro durante um processo em tribunal de guerra. As décadas seguintes - em que ele volta, de outra forma, a ser Leitor - e a imprevisivel etapa final.

A riqueza de sentimentos a que se segue o embotamento, o embaraço e a vergonha são traços relevantes.

Contudo, fomos felizes! Por vezes, quando o final é doloroso, a recordação trai a felicidade. Por que é que a felicidade só é verdadeira quando o é para sempre? Por que é que só pode ter um final doloroso quando já era doloroso, ainda que não tivéssemos consciência disso, ainda que o ignorássemos? Mas uma dor inconsciente e ignorada é uma dor?” p.28

Não devemos aspirar a compreender o que é incompreensível nem de fazer perguntas porque aquele que pergunta, ainda que não ponha em dúvida o horror, torna-o objecto de comunicação em vez de o assumir como algo perante o qual só se pode emudecer de espanto, de vergonha e de culpa” p. 70

Apontar o dedo aos culpados não nos libertava da nossa culpa. Mas tornava o sofrimento mais suportável. Transformava esse sofrimento passivo em energia, actividade, agressão.” p.112

Lê-lo, também é re-trazer Hannah Arendt ou Etty Hillesum.





de 23 de Abril…

23 04 2008

Foi no quadro de um encontro transdisciplinar que Sérgio Deodato se propôs construir um percurso, que agora se apresenta à luz clara do domínio público, como diria Arendt. Publicado e ao dispôr, com a chancela da Almedina, a obra: «A responsabilidade profissional em enfermagem: valoração pela sociedade».

À natureza transdisciplinar da Bioética, juntou a transversalidade da Enfermagem e a dimensão do Direito - mais, ancorou a pesquisa nos territórios de encontro e de cruzamento entre o Direito, a Ética e a Deontologia de Enfermagem, tendo como cenário, ou pano de fundo, a Bioética.

Por isso emerge facilmente a ideia de uma moldura entalhada à mão, ora retocada com o rigor formal do direito, ora deixando-se embalar pela discussão ética, ora adoptando o vinculativo da deontologia, ora mergulhando em exemplos concretos da práxis de enfermagem. Esta moldura, que enquadra o raciocínio e estabelece os limites dos argumentos, não apenas se mantem como se majora, ao longo do trabalho, sendo que todas as dimensões ficam a ganhar. Na interface pela vida e pelo cuidado com o ser humano.





Dia Mundial do Livro

23 04 2008

“…ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude. A juventude comunica ao ato de ler como a qualquer outra experiência um sabor e uma importância particulares; ao passo que na maturidade apreciam-se (deveriam ser apreciados) muitos detalhes, níveis e significados a mais. Podemos tentar então esta outra fórmula de definição:

Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.”

Por que ler os clássicos, Italo Calvino

Este ano, pela 13ª vez, celebra-se o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor.

Dia de celebrar os Livros. Companheiros certos de viagens pela imaginação e pelos olhares dos Outros. Que em Si ecoam. Dia de evocar livros significativos. De relembrar Shakespeare.





Leituras

2 03 2008

 

“3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas sobras da memória, mimetizando-se como inconsciente colectivo ou individual.

Por isso, deveria existir um tempo na vida adulta dedicado a revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permaneceram os mesmos (mas também eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente), nós com certeza mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo.

Portanto, usar o verbo ler ou o verbo reler não tem muita importância. De fato, poderíamos dizer:

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.”

Porque lêr os clássicos, I. Calvino 





desafio de página

22 11 2007

Testemunho de um curioso passatempo - vindo do Directriz, e a fazer-me escolher um, entre a pilha de livros aqui do lado direito.

1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

Parece próximo daquela ideia de abrir o Corão, ou outro livro sagrado, e ler como mensagem dirigida a primeira frase onde cair o olhar. Seja:

Existem montes de coisas que não conseguimos ver.

In O Dia em que Sócrates vestiu jeans, de Lucy Eyre, p. 161, 5ª frase.

Passo o desafio a todos os que por aqui passarem…. e quiserem levá-lo.

É curiosamente aleatório e potencialmente divertido.





Leituras

22 11 2007

 

“Toda a desilusão é para mim uma doença que certas circunstâncias podem tornar inevitável, é verdade, mas que, quando se produz, nem por isso deve deixar de ser tratada o mais rápidamente possível, em vez de ser olhada como uma forma superior de sabedoria.

Um homem, suponhamos, gosta de morangos e um outro não gosta; em que é que o último é superior ao primeiro? Não há nenhuma prova impessoal e abstracta de que os morangos sejam bons ou maus. Para quem gosta são bons, para quem não gosta são maus. Mas o homem que gosta tem um prazer que o outro não conhece; sobre este ponto, a sua vida é mais agradável e está melhor adaptado ao mundo onde ambos têm de viver.

O que é verdadeiro neste exemplo trivial é igualmente verdade nas questões mais importantes. O homem que gosta de assistir a desafios de futebol é sob esse aspecto superior ao homem que não gosta. O que aprecia a leitura é ainda mais superior do que aquele que não a aprecia, pois as oportunidade de ler são mais frequentes do que as de ver desafios de futebol. Quanto mais objectos de interesse um homem tem, mais ocasiões tem também de ser feliz e menos está á mercê do destino, pois se perder um pode recorrer a outro. A vida é demasiado curta para nos permitir interessar-nos por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias. Somos todos propensos à doença do introvertido que, perante o multiforme espectáculo que o mundo lhe oferece, desvia a vista para contemplar somente o vazio dentro de si.

A felicidade que satisfaz verdadeiramente é acompanhada pelo completo exercício das nossas faculdades e pela compreensão plena do mundo em que vivemos.”

Bertrand Russell,
A Conquista da Felicidade





Leituras

16 10 2007


Tudo o que eu devia saber na vida, aprendi no jardim de infância,
de Robert Fulghum

“A sabedoria não se encontra no topo de nenhuma montanha, nem no último ano de um curso superior. É num pequeno monte de areia do recreio do jardim de infância que se pode aprender tudo o que é necessário saber na vida:
partilhar;
respeitar as regras do jogo,
não bater em ninguém,
guardar as coisas nos sítios onde estavam,
manter tudo sempre limpo,
não mexer nas coisas dos outros,
pedir desculpa quando se magoa alguém;
viver uma vida equilibrada: estudar, pensar, desenhar, pintar, cantar, dançar; brincar, trabalhar, fazer de tudo um pouco todos os dias.
É o que nós temos de fazer!!!
Afinal, o segredo de uma vida feliz está nas pequenas verdades do dia a dia!”

de ficar a pensar…





Os 10 livros que mais…

15 10 2007


Vim da Maré Alta, o sítio onde a Vague toca o céu, e deixou uma lista de livros.
Daqueles que mais marcaram.
Livros… livro. Que cada um, em singular, dá muito mais do que percebemos ao lê-lo.

Alguns viajam décadas conosco, nos seus mundos de palavras e de ideias, de imagens que re-criaram ou fizeram emergir em nós. E são de tantos estilos… ensaios, poesia, romance, ficção, policial,… pensados, vividos, imaginados. Já reconheci a minha bibliofilia vezes sem conta. Não espantará que tenha ficado a pensar nos 10.
Porque há cadeias com elos perdidos, e as que se fazem com elos inesperados, aqui ficam os 10 que hoje, primeiro aparecem ao meu pensamento, caminhando de trás para cá.

Eurico, o Presbítero, Alexandre Herculano.
Dos primeiros livros que li e me impressionou para o resto do tempo. Na época em que ler Herculano era de «liceu», as descrições de um homem solitário e atormentado, num particular momento da história.

Estranho em terra estranha, Robert Heinlein.
Foi fabuloso ter encontrado, há mais de duas décadas, a figura de Valentine Michael Smith, e a ideia de um entendimento entre pessoas. Umas raízes de libertarismo e de idealismo utópico à mistura.

Hobbit, O Senhor dos Anéis ou As Obras Completas de J. R. Tolkien.
A companhia do Caminheiro Aragorn e dos seus amigos, Legolas em particular, nos inícios da década de oitenta foi assombrosa. Um outro mundo, metafórico no combate do Bem e do Mal, onde uma Irmandade joga um papel determinante.

Presságio de Fogo, Marion Zimmer Bradley.
Se dela, também As brumas de Avalon, voltei mais vezes à figura mitológica da amaldiçoada, que sempre diz a verdade sem ser acreditada. Ou a tragédia dos deuses se vingarem!

Pássaros feridos, Colleen McCullough.
Li-o e marca o início da minha leitura e releitura de Colleen, das Senhoras de Missalonghi à Viagem de Morgan, ou a saga do Primeiro Homem de Roma.
As escolhas de gente que faz o melhor que pode com o que lhes acontece.

Fahrenheit 451, Ray Bradbury.
A coragem de ir contra as regras e de fugir do medo, afirma a Vague.
A possibilidade de se estar iludido no seio de uma ideologia dominante. Ou a necessária coragem para verificar o que se pensa (e de o descobrir primeiro).

Antologia Poética, Miguel Torga.
Porque «poesia, sempre…» e nele os temas se encadeiam em todas as direcções. Colocava-o ao lado das
Obras completas, Pablo Neruda,
que acrescenta, em meu entender, a força e o vigor dos sentidos e dos acreditados.

Humano, demasiado humano, F. W. Nietzsche,
como símbolo de toda a obra, dos ditirambos e aforismos que desafiam além da primeira, segunda, terceira, interpretação. A vertigem do abismo, no pensamento de um outsider.

A condição humana, Hannah Arendt.
Uma outra forma de pensar, de colocar o homo em diferentes esferas, de definir-nos na(s) condição de sermos plurais e de nos tornarmos na relação com os outros. A proximidade ineludível da ética e da política.

Portas de Fogo, Steve Pressfield
porque o romance histórico é duplamente fascinante e a aventura humana das Termópilas inesgotável.

Ultrapassei os 10. Páro aqui, mas a lista continua…





Prémio Nobel da Literatura 2007

11 10 2007

hoje atribuído a Doris Lessing, nascida em 1919 em Kermanshah (então Pérsia).

Motivos de satisfação: conheço algumas obras de Lessing, é uma mulher (a 11ª a receber o Nobel da Literatura desde 1901) e «mais vale tarde que nunca» (celebra 88 anos este mês, dia 22).

Algumas das obras: “Shikasta” (1985), “A Revoltada”, “O Verão antes das Trevas” (1988),”A Boa Terrorista” (1989), “O quinto filho” (1989), “A erva canta” (1990), “Um casamento apropriado” (1983), “Um murmúrio da tempestade” (1985), “Gatos e mais Gatos” (1995) saiu pela Cotovia.

Fica na companhia Selma Lagerloef (Suecia, 1909); Grazia Deledda (Italia, 1926); Sigrid Undset (Noruega, 1928); Pearl Buck (Estados Unidos, 1938); Gabriela Mistral (Chile, 1945); Nelly Sachs (Alemania-Suecia, 1966); Nadine Gordimer (África do Sul, 1991); Toni Morrison (Estados Unidos, 1993); Wislawa Symborska (Polonia, 1996) e Elfriede Jelinek, em 2004.

Mais dela aqui.





Leituras: Homo Ludens

15 09 2007


A tese central é a de que o jogo é uma realidade originária, uma das noções mais primitivas e profundamente enraizadas em toda a realidade humana, sendo do jogo que nasce a cultura - que aparece ou transparece sob a forma de ritual e de sagrado, de linguagem e poesia, permanecendo subjacente em todas as artes de expressão e competição, inclusive nas artes do pensamento e do discurso, bem como na do tribunal, na acusação e na defesa polémica, portanto, também na do combate e na da guerra em geral.

O jogo encontra-se também entre os animais - “quem já não observou a brincadeira movimentada de um grupo de cachorrinhos sobre a relva de um jardim? Convidam-se uns aos outros para brincar mediante um certo ritual de atitudes e gestos. Respeitam a regra que os proíbe morderem, ou pelo menos com violência, a orelha do próximo. Fingem ficar zangados e, o que é mais importante, eles, em tudo isto, experimentam evidentemente imenso prazer e divertimento”

No jogo “há algo em jogo” - que transcende a finalidade biológica -, a saber, o seu sentido, que determina sua carga intensa e múltipla de significados.

O jogo é uma categoria absolutamente primária da vida, tão essencial quando o raciocínio (HOMO SAPIENS) e a fabricação (HOMO FABER) - a denominação HOMO LUDENS afirma que o elemento do jogo, no lúdico, está na base do surgimento e desenvolvimento da civilização.

Huizinga define jogo como: “uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana.”

Daí, o seu sentido como divertimento - mesmo quando é sério, mantém afinidade com o sentido do humor e o gracejo.
Daí, a cultura surgir em forma de jogo - num regramento socialmente consentido.
Daí, acentuar-se a ligação entre o jogo e a guerra, e entre jogos de «guerra» (estou a pensar que podia ser estratégia).
A questão do sagrado, como outras, assumem o relevo fundamental para determinar a presença e os limites da noção de jogo na cultura humana.

Reconhecer o jogo é, forçosamente, reconhecer o espírito.
Afirmar o homo ludens é ir além, considerando o jogo essencial à humanitude.





Leituras… de(stas) férias

11 09 2007

Na linha de outras “introduções à filosofia”, e que não é parecida com nenhuma das outras, Ferret optou:

“Mais do que traçar uma cartografia dos autores e dos sistemas ou de me interrogar sobre o que é a filosofia, preferi soltar as amarras e confrontar-me directamente com problemas filosóficos.”(p. 7).

Portanto, engana-se quem vai preparado para mais uma história da filosofia. E como o autor mesmo afirma, contesta a redução da actividade filosófica à actividade enciclopédica ou, melhor ainda, esse encantamento da actividade filosófica pela história da filosofia.

O grosso da bibliografia apresentada é inglesa. E percebe-se a preferência pelos problemas da filosofia da mente.
Os problemas filosóficos são apresentados sem recurso aos nomes dos filósofos - não estão lá, a não ser entretecidas no pensamento (e explícitas no Post-Scriptum).

Já agora, os problemas são: os outros, a dúvida, as coisas, as espécies, a obra de arte, a identidade pessoal, o espírito, a liberdade, a acção, o bem e o mal, a morte.

Se gostar do estilo do autor de La leçon de choses : initiation à la philosophie, recomendaria Le Bateau de Thésée. Le problème de l’identité à travers le temps
(
Collection « Paradoxe », 1996, ISBN : 2.7073.1543.5)

« Un paradoxe et plus encore une énigme : l’identité à travers le temps. Que dire, par exemple, du bateau de Thésée, bateau perpétuellement réparé dont les sophistes d’Athènes se demandaient, au fur et à mesure que les pièces en étaient modifiées ou remplacées, s’il s’agissait encore du même bateau ? »

Stéphane Ferret





o mais feio e o mais sábio

29 08 2007


Refiro Sócrates muitas vezes e tenho-o como um dos maiores vultos do pensamento. O filósofo por excelência, como afirma Hannah Arendt.

Terá nascido em 470 (ou em 469 AC) num subúrbio de Atenas.

Filho de um escultor (Sofronisco) e de uma parteira (Fenareta), assumiu a profissão do pai e transformou a da mãe em paixão intelectual (integrando aqui a ideia do método maêutico).

Acreditava que se as pessoas entrassem em diálogo podiam encontrar as suas próprias verdades.

Auto-designou-se como moscardo e parteira, porque queria incomodar e ajudar as ideias a nascer.

Corajoso em combate – serviu como hoplita (soldado da infantaria) e participou na Guerra do Peloponeso, nas batalhas de Potidéia, de Délion, em que os atenienses foram vencidos pelos tebanos, e na batalha de Anfipolis, na Trácia. Relevo ter salvo Alcibíades numa batalha e noutra ter carregado Xenofonte, gravemente ferido, aos ombros.

Não se afirmou como filósofo, pois dizia não ter nada para ensinar e «sei que não sei» é uma escassa premissa para o ensino. Nem escreveu nenhum livro, pelo que o que sabemos (ou julgamos saber) dele foi-nos transmitido por terceiros. Particularmente por Platão e Xenofonte.

Era muito feio (aliás, em O Banquete, Alcibíades considerou–o extremamente feio, que se parecia com um sátiro ou um sileno e que era como aquelas estátuas de silenos que se abriam e que continham imagens de divindades, pois o rosto de Sócrates escondia a mais bela das almas).

Sendo considerado o homem mais feio de Atenas, era, simultaneamente, tido como o homem mais sábio do mundo antigo. Assim o afirmou a pitonisa do oráculo de Delfos…

Argumentador rigoroso, bem-humorado, que usava facilmente a ironia.Sentava-se ou passeava ou banqueteava-se, à conversa com amigos, discípulos, com quem aparecesse. Está descrito um notável auto-controle, a ingestão de vinho sem se embriagar assim como a resistência aos prazeres sensuais.

Igualmente notável a sua força moral - que exemplifico com um episódio. Atenas venceu uma batalha naval - Arginusas (em 406 aC) – e com a tempestade, os dez generais atenienses regressaram sem trazer os corpos dos soldados mortos, o que era, na altura, um crime punido com a morte.

Conta-se que Sócrates foi o único prítane responsável pela Assembleia que se opôs a que julgassem os generais em bloco, num só processo, pois o julgamento devia ser individual, um a um. Quem ia sendo linchado era ele, pela fúria do povo, que queria um só processo (e morte) para todos os generais.

Com 50 anos foi ao oráculo de Delfos, e apropriou-se da máxima escrita na entrada do templo, como lema para a vida: «conhece-te a ti mesmo».

Teria 55 anos (em 415 aC) quando se casou com Xantipa – senhora de um proverbial feitio irascível, no dizer de Xenofonte “a mais insuportável das mulheres passadas, presentes e vindouras“. Há uma história pouco apurada, relacionada com Mirto, antes, durante ou depois de Xantipa. Assim, e sem arriscar de quem, teve 3 filhos - Lamprocles, Sofronisco e Menéxeno.

Em 399, três cidadãos – Anito, Meleto e Licon – acusam-no de corromper a juventude e não reconhecer devidamente os deuses. A ideia é curiosa: dizer algo como pensa por ti, não obedeças aos deuses por tradição, procura as tuas convicções é corromper… é subversivo.

Sempre achei que Sócrates correu um alto risco ao defender-se a si próprio - da defesa ficou o texto de Platão, entitulado «Apologia de Sócrates».

Os acusadores pediram a pena demorte. Por pressão de Platão e dos outros amigos, Sócrates aceitou contra-propôr uma multa de 30 minas, que Platão e os outros se comprometeram a pagar.

Foi condenado à morte pela cicuta. Os amigos e discipulos – liderados por Críton - prepararam uma rota de fuga e asseguraram os meios para a evasão da prisão.

Sócrates recusou, declarando não querer desobedecer às leis da cidade e à decisão.

As suas últimas palavras foram:
“Críton, devemos um galo a Esculápio: pagai a dívida e não vos esqueceis”.

Tinha 71 anos.

Teve duas formas de escapar: ao julgamento se tivesse desistido da filosofia e à condenação se se tivesse evadido. Recusou ambas.

Convicção de um homem que se proclamou “cidadão do mundo”.

De quem terá afirmado: “é melhor suportar a injustiça do que praticá-la” e “seria melhor para mim que a minha lira ou um coro que eu dirigisse estivesse desafinado, e que multidões de homens discordassem de mim do que eu, sendo um, estivesse em desarmonia comigo próprio e me contradissesse”.

Socrates Life and Times, Kanna Philip
Socrates Life and Philosophy, Enciclopaedia Britannica





Leituras

25 08 2007







“O teatro é um espelho. Quem lá vemos, somos nós. E somos nós por dentro e por fora. E nós não seremos aquele que julgamos, porque também nós permanentemente nos descobrimos. Ambiguidade, duplicidade, o eu com que me falo, o eu que ponho a falar. O segredo do eu não tem chave de abertura. Eu penso e não digo, eu falo e não o penso. Umas vezes, sim, outras não. E quando sim, é apenas uma parte, aquela que se pode ver, e quando não, fica apenas o busto, o perfil, o retrato, a máscara, a bergmaneana Persona. A fazer um exercício, a transmitir a mudez, a ver se sem a palavra me consigo dizer. A ver se sem a palavra, me desdigo. A ver se com o que digo, nesta dualidade, me atesto na insanidade. A ver se na minha loucura me corroboro na minha normalidade. A ver se na minha normalidade me descubro na excepção que é o ser-se normal, a ver se na minha anormalidade, no meu pathos, me descubro enfim igual a todo o mundo. E sento-me na plateia, e vejo o palco aberto, e vejo as personagens a reflectirem-se no espelho da minha água, no meu próprio eu. E aí vão as personagens do drama, ou da comédia, ou da tragédia, aí vão elas encontrar o Outro, matar o Outro. Ou matarem-se a elas mesmas. Ou a rirem-se delas, ou das que estão com elas, ou seja, de mim, ou seja, de nós. O teatro tem esta cumplicidade criminal, é esta câmara aberta onde eu estou sem estar, onde os outros estão sendo eu. E venho para casa, e sento-me ao computador, na minha frente está um cubo-palco a que falta uma parede, e de súbito entra alguém. Senta-se. Espera. O outro aparece. O combate vai começar. Entre o palco e a plateia, através do véu da consciência, o vermelho transparente.”

Jorge Guimarães (2006)

Grata a AES, PG.
Imagem aqui





Hannah Arendt, sempre…

21 07 2007

“First I would like to write for you a poem to be
shouted in the teeth of
a strong wind.
Next I would like to write for you to sit on a
hill and read down the
river valley on a late summer afternoon,
reading it in less than a whisper….”

Carl Sandburg

Boa companhia, em livro, esta tarde. «A promessa da política» de Hannah Arendt.
Uma das mais fortes influências do meu pensamento, como é sabido.

Dizia Sócrates que em cada um de nós existe a possibilidade de fazer emergir uma verdade, a partir da opinião (da doxa, diriam os gregos, que significava opinião, mas também brilho e fama). Acreditava firmemente que o diá-logo a faria emergir, pela maêutica.

“O pressuposto era que o mundo se abre de modo diferente a cada homem segundo a sua posição nele (…) reside no facto de que o mesmo mundo se abre a todos e de que a despeito de todas as diferenças entre os homens e entre as suas posições no mundo - e por consequência entre as suas doxai (opiniões) - «tu e eu, ambos somos humanos».”(p. 1 8)

Acreditava ele que «sei que não sei» era a possibilidade de se abrir à perspectiva dos outros.
O que supõe interrogar-se e permitir(-se e aos outros) diferentes verdades.
Aceito, sem nenhuma dificuldade, que o caminho do entendimento entre as pessoas passa pela aceitação das diferentes visões e perspectivas do(s) outro(s).

Diferentemente do que entendia Platão, o papel do filósofo não é governar a cidade mas ser o «moscardo» -”Sócrates não queria tanto educar os cidadãos como, e sobretdo, tornar melhores as suas doxai, que constituíam a vida política na qual ele participava. Para Sócrates, a maiêutica era uma actividade política“, aqueles diálogos que concluem inconclusivamente, sem resultados definidos.
O facto de se ter falado, de se ter falado a propósito de alguma coisa, da doxa deste ou daquele cidadão, parece bastar. É evidente que esta espécie de diálogo, que não tem necessidade de chegar a uma conclusão para fazer sentido, é a mais apropriada entre amigos e é entre amigos que a vemos mais frequentemente partilhada“.
Daqui, o sentido político da amizade na cidadania… e viver com os outros começa com o viver plenamente consigo próprio.

O ensinamento de Sócrates significava: só aquele que sabe viver consigo próprio é capaz de viver com os outros. O si-próprio é a única pessoa da qual não me posso separar, que não posso deixar, à qual estou soldado. Portanto, «é muito melhor estar em desacordo com o mundo inteiro do que em desacordo comigo mesmo, que sou um só». A ética, não menos do que a lógica, tem a sua origem nesta afirmação, porque a consciência no seu sentido mais geral assenta também no facto de eu poder estar em acordo ou desacordo comigo próprio, e isso significo que não apareço apenas aos outros mas me apareço também a mim próprio.” (p. 23)

Não estamos na linha da concepção do homem como «animal racional» mas do homem como ser pensante, cujo pensamento se manifesta sob a forma da palavra - e, diria, da palavra que conversa e que interroga. E se espanta perante o que é como é, um espanto sem fala que se torna palavra - e nunca começa por afirmar mas sempre por fazer perguntas, que sejam quais forem “têm em comum o facto de não se lhes poder responder cientificamente” (p. 33).

Questões últimas e sem resposta, que o ser humano coloca a si mesmo, tornando-se no ser-que-interroga.
“É por isso que a ciência, que põe interrogações respondíveis, deve a sua origem à filosofia, uma origem que continua a ser a sua fonte sempre presente ao longo das gerações

O homem que se interroga, vive em comunidade, em relação com outros no Mundo.
De Platão a Marx, passando por Hobbes, a tradição da filosofia política do Ocidente chega ao fim.

Vivemos hoje num mundo em que já nem sequer o senso comum continua a fazer sentido. O colapso do senso comum no mundo presente assinala que a filosofia e a política, apesar do antigo conflito que as opunha, sofreram a mesma sorte. E isso significa que o problema da filosofia e da política, ou a necessidade de uma nova filosofia política a partir da qual poderia nascer uma nova ciência da política, está mais uma vez na ordem do dia.” (p. 37).

(Couple reading under the trees, Warren Dennis)





livros e leituras

12 07 2007

Tendências gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, de Antero de Quental.
Edição de 1988, com apresentação e notas de Leonel Ribeiro dos Santos.
É a peça mais extensa e mais importante do ideário filosófico de Antero.

Quem por aqui passa há algum tempo, recordará referências a Antero, de quem aprecio particularmente as «Causas da decadência dos Povos Peninsulares».

Ora, as Tendências pretendem superar as divergências entre as principais correntes filosóficas do seu tempo – a síntese entre o realismo, o idealismo, o espiritualismo e o criticismo, que resulta num novo espiritualismo que se funda na natureza e se fundamenta na consciência.

vale ler:
Análise de Fernando Catroga a «O Socialismo» de Antero




livros e leituras

5 07 2007

“Hador Cabeça Dourada era um senhor dos Edain e muito estimado pelos Eldar. Viveu, enquanto os seus dias duraram, sob o domínio de Fingolfin, que lhe deu vastas terras naquela região de Hithlum a que chamavam Dor-lómin.” Assim começa Os Filhos de Húrin, mais um livro póstumo de JRR Tolkien.

A história passa-se na Primeira Era da Terra Média, mais de seis mil anos antes dos acontecimentos narrados em O Hobbit e O Senhor dos Anéis.

Os Filhos de Húrin começou a ser escrito por Tolkien no final da segunda década do século XX. Deixado incompleto, foi terminado por Christopher Tolkien, o terceiro filho e único executor literário. Christopher trabalhou na obra nos últimos 30 anos, transformando m conjunto de fragmentos, variantes e esboços, entre os inúmeros manuscritos não concluídos, numa narrativa coerente e autónoma. (Aliás, o mesmo que aconteceu com O Silmarillion, com Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média e The History of Middle-Earth).

Os Filhos de Húrin
é, juntamente com as também incompletas Beren & Lúthien, e The Fall of Gondolin, uma das três principais Great Tales fundadoras do “corpus de lendas mais ou menos relacionadas, indo do grande e cosmogónico até ao nível do conto de fadas romântico - as maiores baseadas nas menores em contacto com a Terra, as menores indo buscar o esplendor aos vastos panos de fundo”, com explicou o autor, numa carta de 1951, citada pelo filho no prefácio a Os Filhos de Húrin.

Como explicou Adam Tolkien, neto do escritor, “muitas partes do texto são essencialmente as mesmas que aparecem noutras obras (…) e outras serão novas, excepto para quem leu em detalhe a História da Terra Média”. Os Filhos de Húrin é, assim, um texto “‘novo’, no sentido em que recompõe excertos já publicados e ‘peças’ inéditas até agora. É como um puzzle enfim completado”.





de histórias e mitos

5 07 2007

(foto trazida de ninguém viu)

Um dos problemas de querer usar exemplos da literatura é deparar-se com um ar de incompreensão… As literaturas grega e latina, os mitos, a narrativa biblíca, costumavam fazer parte da educação, julgava eu. Vou tomando consciência de que toda uma tradição de informação do Ocidente se pode ter vindo a perder. Ou então, sou eu que a vejo pouco…
Dizer «alegoria da caverna» e ter de explicar o que é, usar a analogia do «prato de lentilhas» e ter de contar a história, são meros exemplos. Quotidianos.
Como o mito das Valquírias ou…

O que é que os mitos e a literatura teêm a ver com o hoje?
Eram (são) fontes de reflexão, dão suporte ao pensar e ligam-se aos problemas interiores, aos mistérios, aos percursos e limiares da nossa travessia pela vida e na continuidade da memória humana.
Aquilo que os seres humanos, ao longo dos tempos, partilharam está escrito nos mitos, nos romances, nos poemas. Os mitos, por exemplo, são histórias da busca da verdade, da busca do sentido. Para Jung, os mitos estão guardados no inconsciente individual ou colectivo - e de lá saem para integrar o consciente, produzindo o crescimento do ser humano. São «arquetípicos», afirma Jung, marcas antigas que se repetem e reaparecem, já que têm por base a natureza humana.

Por exemplo, a lenda do Graal, cuja busca representa o caminho espiritual que devemos fazer e que se estende entre pares de opostos, entre o perigo e a bem-aventurança, entre o bem e o mal, pois não há nada de importante na vida que não exija sacrifícios e algum perigo. Escrevo «caminho espiritual» e poderia escrever«caminho do espírito».
Uma das versões da lenda do Graal inicia-se com “Todo o acto traz bons e maus resultados”. Podemos partir daqui para uma (interessante) reflexão, não parece? Ah, mas toda a gente conhece a história do Graal.

Ainda que não se conheçam os antigos, alguns podem ver-se, reinventados, na Sétima Arte. Digo «Marco Aurélio» e é desconhecido. Pergunto quem viu o filme e se lembra do imperador do «Gladiador» e já há mais gente a saber quem é.

Usaria aqui o exemplo de «O Senhor dos Anéis» de J.R.Tolkien. Tinha ele 78 anos, quando, num documentário para a BBC, o entrevistador perguntou: “Poderia-nos dizer, sr. Tolkien, qual é o verdadeiro tema de ‘O Senhor dos Anéis’?”. E Tolkien responde: “O tema de ‘O Senhor dos Anéis’ é o que todos as epopéias falam sem excepção: a morte inevitável“.

Por morte, entenda-se dor e sofrimento, e esses dois são o cerne do maior problema que persegue o ser humano desde o início dos tempos: o problema do Mal.

Com um início banal, mostrando a vida no Condado e apresentando Frodo, o sobrinho de Bilbo, o hobbit que roubou o anel mágico a Gollum, “O Senhor dos Anéis” parece que será mais um conto de fadas no melhor estilo “eu acredito em duendes”. Depois, Gandalf entra em cena – e fica a saber-se que o anel aparentemente inofensivo é o Um-Anel, forjado entre inúmeros anéis por Sauron, o Senhor das Trevas que vive em Mordor.

Pouco a pouco, o que parecia ser uma história para crianças, torna-se uma saga sobre o Poder, e no momento em que se menos se espera, do lugar mais improvável, da pessoa menos preparada, vem a luz. Ou o Bem, que aparece de modo insólito, mais ilógico, mais alucinante - e mais dolorido. Tolkien trata, assim, num livro de fantástico, a busca de um sentido, a restauração de uma ordem.

A vida é uma peregrinação, aventura única em que todos têm uma missão, e ela deve ser cumprida, não importa o quão impossível. E agora, caberia a entrada ao «Doutor Fausto» de Thoman Mann. Todavia, acho que o exemplo já se alonga.

As grandes questões filosóficas, de fundamental importância para todos, acabam por ser preocupação de apenas uma minoria. Uma minoria minor. Esperemos que, por vias diferentes, esta e as próximas gerações saibam (re)encontrar o passado da humanidade e inscrever o seu próprio pensamento nessa história.





Livros e leituras

28 06 2007


O título fez-me sorrir.

Sendo certo que as mulheres leêm mais do que os homens - pelos dados do Consumidor da Marktest, do mês passado, em 2006, as mulheres apresentam uma taxa de leitura de 40.7% e os homens de 33.1% - o título fez-me pensar se são perigosas por lerem ou se leêm por serem perigosas. Afinal, a afirmação não tem causa-efeito, apenas diz: «mulheres que leêm livros são perigosas»…

«Ler é um acto de isolamento amigável. Quando estamos a ler, procuramos tornar-nos inantigiveis. Talvez fosse isso que interessou os pintores durante muito tempo no retrato dos leitores: mostrar pessoas num estado da mais profunda intimidade não destinada a outros».

Vale a pena fazer o percurso por pinturas, fotografias e desenhos que, do século XIII ao XXI, reflectem a relação das mulheres com os livros, através dos quais elas se apropriaram de “conhecimentos e experiências que não lhes eram destinados“, como se lê por lá.

A obra divide-se em seis capítulos - por ordem, as “leitoras abençoadas”, as “leitoras fascinadas”, as “autoconfiantes”, as “sentimentais”, as “apaixonadas” e as “solitárias”.
Reúne imagens de mulheres que lêem… seria a afirmação simples.
E ler conjuga-se como existir, penso.Por isso, o livro que refoca leituras, na inseparabilidade da vida e da arte, é representativo do poder e do triunfo do livro, da arte e da vida.

Há, no entender este livro à luz da breve história da leitura, um olhar sobre a história da cultura. E é fácil verificar o silêncio sobre a mulher foi votada ao longo dos tempos, o que permite integrar a noção de «leitura perigosa», a partir da evolução histórica, social, cultural.

Bollman explica, por outro lado, que as mulheres que aprendiam a ler (referindo-se aos finais do século XVII) eram, na época, consideradas perigosas:
Uma mulher que lê em silêncio cria um vínculo com o livro e foge ao controlo da sociedade e da comunidade que a rodeia“, pois “começa a criar a sua própria visão do mundo que não corresponde necessariamente à da tradição” o que “abre a porta que conduz à liberdade“.

A Quetzal tem razão quando descreve “Mulheres que lêem são perigosas” como “uma homenagem ao poder libertador da leitura e uma reflexão acerca do papel que esta tem assumido ao longo dos tempos“.

Pretexto para ir buscar a «História da Leitura» em que não pego há uns anos, e reler… e trá-lo-ei aqui, depois.