“Ler entre linhas”

13 11 2009

A Carris vai distribuir livros….

A Carris vai passar a oferecer mensalmente nos seus autocarros e eléctricos 25 mil livros de bolso com capítulos ou excertos de obras literárias para “tornar as viagens mais agradáveis” e incentivar o gosto pela leitura.

Até ao final de 2010, ano em que ganhará maior dimensão com novas iniciativas, o projecto “Ler entre Linhas” vai incluir a distribuição, durante um ou dois dias, de parte de uma obra lançada pela editora Objectiva aos passageiros dos 750 autocarros e 55 eléctricos da sua rede.

A lista de livros ainda não está fechada, mas o primeiro, a ser oferecido no próximo dia 19, já está escolhido: “Querido Gabriel”, no qual Halfdan Freihow descreve a complexa relação com o filho mais novo, a quem foi diagnosticado autismo aos três anos.





Leituras de Verão: artigos da «Abstracta»

13 09 2009




Companhias de A-gosto

13 09 2009

eco

Companhias de Agosto





Conversa, leitura e pensamento: Amin Maalouf

13 07 2009

Amin Maalouf esteve na Fundação Gulbenkian, num encontro apresentado pelo embaixador António Monteiro e moderado por António Vitorino.Esgotou o auditório 2, bem como o  3, o átrio  e  a escadaria…

Os temas andaram em torno do novo livro intitulado «Um Mundo sem regras» (Difel), que reflecte o “desregramento intelectual, económico, geopolítico e ético do mundo no século XXI”, onde “entrámos sem bússola”, como refere. Foi «uma coincidência feliz» o livro ter sido colocado à venda nesse dia e local. Muito menos feliz, o global do desempenho do entrevistador…

Amin Maalouf

Entrevista no Público

Ao vivo, na FCG

“É um diagnóstico arrasador quanto ao esgotamento em que o mundo mergulhou. À tese do conflito de civilizações, Maalouf contrapõe a união numa só civilização como única hipótese de sobrevivência. Fala das mudanças climáticas, da crise económica e da crispação das identidades, que divide os homens em tribos. Depois de falharem comunismo, ateísmo, capitalismo, e religião, o século XXI, diz, será o da cultura ou não será.”

«Ou nos entendemos numa civilização comum, ou caminhamos para uma bárbarie comum».

No original, o desregramento do mundo. Vale a pena ler… penso, ao fechar o livro. E valeu a pena ouvi-lo, naturalmente.





Livros e leituras: “A passo de caranguejo”

13 06 2009

eco_apassodecaranguejo

“Os escritos reunidos neste livro foram publicados entre o início de 2000 e o final de 2005, os anos do 11 de Setembro, das guerras no Afeganistão e no Iraque, da instauração de um regime de populismo mediático em Itália. Ao lê-los, o leitor comprovará que desde o fim do último milénio temos vindo a caminhar para trás a um ritmo dramático. A seguir à queda do Muro de Berlim foi necessário desenterrar os mapas de 1914. As nossas famílias voltaram a ter empregados de cor, como em E Tudo o Vento Levou. A pouco e pouco, o vídeo fez com que a televisão se pudesse converter num cinematógrafo e, graças à ajuda da Internet e das pay-tv, Meucci levou a melhor sobre Marconi e a sua telegrafia sem fios. Agora, o i-Pod reinventou a rádio.

Terminada a Guerra-fria, os conflitos no Afeganistão e no Iraque fizeram-nos regressar à Guerra Quente; desenterrámos o Grande Jogo de Kipling e voltámos aos tempos do choque entre o Islão e a Cristandade, com os novos assassinos suicidas do Velho da Montanha e os gritos de «socorro, os Turcos!».

Apareceu outra vez o fantasma do Perigo Amarelo, ressurgiram as disputas entre a Igreja e o Estado, a polémica antidarwiniana do século XIX e o anti-semitismo, e o nosso país voltou a ser governado pelos fascistas (muito post, é certo, mas alguns indivíduos ainda são os mesmos). Quase que parece que a História, cansada das confusões dos últimos dois mil anos, se está a enrolar em si própria, caminhando velozmente a passo de caranguejo.

Este livro não pretende explicar o que é que devemos fazer para reencontrar a direcção certa, propõe-se apenas travar por alguns instantes este movimento retrógrado.”

A ler, com carácter obrigatório, por quem se interesse por olhares críticos para este mundo em que vivemos. Eco pode até nem ser amável mas é acutilante; pode parecer céptico, mas obriga-nos a repensar. Como diria,  hoje e noutros tempos: «cinco estrelas».





Livros e autores

17 05 2009

50 autores

Estive a passar os olhos pelos 50 autores mais influentes do século XX e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles. Primeiro, a ver se os conhecia a todos :) .Depois, se identificava obra ou obras deles.

A seguir reli por causa do último parágrafo de cada autor: O que nos ensinou.

Por exemplo, de Albert Camus, O que nos ensinou: a solidão existencial do homem moderno.

De Carl Sagan – O que nos ensinou: mesmo princípios científicos complexos, se explicados com clareza, podem ser entendidos por qualquer um.

Ou de Umberto Eco – O que nos ensinou: os académicos respeitáveis também podem ser best-sellers

Reconheça-se que o que influenciou o século XX pode bem nem ser o que influenciou cada pessoa individualmente. Apetece perguntar: que 5 autores mais o/a/me nfluenciaram e em quê, o que aprendi/aprendemos com eles.





Livros e leituras

3 04 2009

“Depois de trinta livros, vejo-me na obrigação de fazer o ponto da situação no que se refere à questão do hedonismo. Se tivesse que resumi-lo numa interrogação, essa interrogação seria evidentemente a de Espinosa: “de que é capaz o corpo?” Ao que teria que acrescentar: por que razão se tornou ele o objecto filosófico de predilecção? Depois, questões em catadupa: como pensar enquanto artista? De que forma instalar a ética no terreno estético? Que lugar deixar a Dionísio numa civilização completamente submetida a Apolo? Qual é a natureza da relação entre hedonismo e anarquismo? Quais são as modalidades pelas quais uma filosofia se torna praticável? Que pode esperar o corpo das biotecnologias pós-modernas? Quais são as relações que existem em filosofia entre a biografia e a escrita? Quais são os princípios a partir dos quis se fabricam as mitologias filosóficas? Como descristianizar a episteme ocidental? Serão possíveis novas comunidades? Responder a estas questões exige uma série de desenvolvimentos constitutivos de um pensamento existencial radical. Donde a subjectividade artista, a ética imanente, a estética cínica, a política libertária, o nietzscheanismo de esquerda, o materialismo sensualista, o utilitarismo do regozijo, a ética solar, a bioética prometaica, o corpo fáustico, o hápax existencial, a vida filosófica, a historiografia alternativa, a ateologia pós-cristã, os contratos hedonistas, outras tantas ocasiões para voltar a encantar o nosso tempo melancólico com a proposta de um pensamento a viver”.

Michel Onfray

(aqui)

Li Onfray a primeira vez há uns anos atrás – e fui á procura de um texto de 2005,  Não à Constituição Europeia.

Les gens qui vont voter Non à la constitution européenne sont des crétins, des abrutis, des imbéciles, des incultes. Petit pouvoir d’achat, petit cerveau, petite pensée, petits sentiments. Pas de diplômes, pas de livres chez eux, pas de culture, pas d’intelligence. Ils habitent en campagne, en province. Des paysans, des pécores, des péquenots, des ploucs. Ils n’ont pas le sens de l’Histoire, ne savent pas à quoi ressemble un grand projet politique. Ils ignorent le grand souffle du Progrès. Ils crèvent de peur.

Jadis, ces mêmes débiles ont voté non à Maastricht ignorant que le oui allait apporter le pouvoir d’achat, la fin du chômage, le plein emploi, la croissance, le progrès, la tolérance entre les peuples, la fraternité, la disparition du racisme et de la xénophobie, l’abolition de toutes les contradictions et de toute la négativité de nos civilisations post-modernes, donc capitalistes, version libérale.

L’électeur du Non est populiste, démagogue, extrémiste, mécontent, réactif. C’est le prototype de l’homme du ressentiment. Sa voix se mêle d’ailleurs à tous les fascistes, gauchistes, alter mondialistes et autres partisans vaguement vichystes de la France moisie, cette vieille lune dépassée à l’heure de la mondialisation heureuse. Disons le tout net : un souverainiste est un chien.

En revanche, l’électeur du Oui est génial, lucide, intelligent. Gros carnet de chèque, immense encéphale, gigantesque vision du monde, hypertrophie du sentiment généreux. Diplômé du supérieur, heureux possesseur d’une bibliothèque de Pléiades flambant neufs, doté d’un savoir sans bornes et d’une sagacité inouïe, il est propriétaire en ville, urbain convaincu, parisien si possible. Il a le sens de l’Histoire, d’ailleurs il a installé son fauteuil dans son sens et ne manque aucune des manies de son siècle. Le Progrès, il connaît. La Peur ? Il ignore. Le debordien Sollers, le sartrien BHL et le kantien Luc Ferry vous le diront.

Bien sûr le Ouiste a voté oui à Maastricht et constaté que, comme prévu, les salaires s’en sont trouvé augmentés, le chômage diminué et fortifiée l’amitié entre les communautés. Le votant du Oui est démocrate, modéré, heureux, bien dans sa peau, équilibré, analysé de longue date. Sa voix se mêle d’ailleurs à des gens qui, comme lui, exècrent les excès : le démocrate chrétien libéral, le chiraquien de conviction, le socialiste mitterrandien, le patron humaniste, l’écologiste mondain. Dur de ne pas être Ouiste…

Citoyens, réfléchissez avant de commettre l’irréparable !

http://perso.wanadoo.fr/michel.onfray

Ei-lo que está com um livro recém-lançado entre nós.





Leituras

31 03 2009

“Questão intrigante: o que explicará a extraordinária expansão da magia em todo o mundo e em todas as épocas?

….

Aliás, é o próprio desenvolvimento das tecnologias que acaba por conduzir a questões de ordem mítica que reaparecem hoje com mais força do que a que tinham antes. Compreende-se, por isso, a muito actual observação de Marc Augé: “Definimos, por vezes, a modernidade como a passagem dos mitos de origem aos mitos do futuro, aos mitos escatológicos, a imagens radiosas, ao progresso. Agora, com o desenvolvimento da tecnologia, colocamos questões às quais o pensamento mítico (para não dizer simbólico), aquele que se exprime pelos mitos, de alguma maneira pré-simbólico, dava forma. A versão agradável ou banal desta questão é-nos dada pelos filmes de ficção científica. Muitos só imaginam o futuro tecnológico sob a forma de coisas mais arcaicas

in Américo de Sousa (2004), O homem.com medo de si próprio, Porto: Estratégias Criativas, pp. 19-20

O autor, em Retórica





Ler

14 03 2009


signac_paul_still-life-with-a-book-and-oranges

Hoje, que tantos meios e modos de informações existem disponíveis, ler permanece essencial.Fonte de entretenimento, de aprendizagem. Desafios a confrontar, peças a recolher e a juntar. Amplia o que se sabe, possibilita a aquisição e o desenvolvimento. E diverte, recria, entretém. É uma espécie de fitness mental, de ginástica e trampolim.

Etimologicamente, ler deriva de lego, que significa recolher, apanhar, escolher, captar com os olhos.Para outros autores, vem do latim legere, com os sentidos de soletrar, de colher e de tirar sentidos ocultos. Exige ou requer que se saiba ler, evidentemente.E todos os seres humanos são capazes de ler, de aprender a ler. Mesmo que décadas depois de se ter iniciado na leitura, se possa dizer, com Goethe: “Muitos não sabem quanto tempo e fadiga custa aprender a ler. Trabalhei nisso 80 anos e não posso dizer que o tenha conseguido”.

Ler requer aprendizagem. Ficar com os lidos requer memória. Deleitar-se com o que lê, requer um treino do gosto. É que ler não carece de finalidade específica (sim, também se lê porque se deve, porque se tem um estudo a fazer, porque se quer fundamentar algo mas não apenas…). Mais do que ler palavras, é preciso descortinar as unidades de pensamento, as metáforas e os sentidos implícitos, esclarecer as ideias de fundo.

A familiaridade com certos estilos de escrita (e o nosso estilo de leitura) faz com que ler alguns livros seja reecontrar os autores, ajude a ser capaz de perceber quando se tem de parar de ler e ficar a revirar as ideias lidas. A transformar. Que quem dá sentido ao que lê, é o Leitor.

Na formação de cada pessoa, de cada cidadão, a leitura mostra-se como uma das vias de acesso à construção do conhecimento. Especialmente, se depois se conversa e dialoga acerca do que se leu.


(imagem: Paul Signac, Still Life with a Book and Oranges)





pinturas e metáforas

22 02 2009

“Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquiliamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás  da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.

O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema contituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho pintor – sendo o vermelho nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica,  mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.

Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.”

Herberto Helder – Os passos em volta. Assirio & Alvim






voltar a Agostinho da Silva

19 02 2009

“Crente é pouco sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus”

Agostinho da Silva, Uns Poemas de Agostinho

Do “nada que é tudo”. A poesia pensante e mística de Agostinho da Silva

Para um diálogo e uma espiritualidade inter e trans-religiososuma reflexão a partir de Agostinho da Silva e de Sua Santidade o XIV Dalai Lama.

ambos, textos de Paulo A. E. Borges

imagem aqui





Livros e leituras

16 02 2009

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ÉTICA: RAÍZES E FLORESCÊNCIAS EM TODOS OS CAMINHOS
ISBN 978-972-8930-47-9, Fevereiro 2009

O entendimento de que a ética se enraíza na procura “de uma vida boa, com e para com os outros, em instituições justas”, de acordo com a fórmula tripartida de Paul Ricoeur, faz-se acompanhar da premissa que o pensar é um exercício de reflexão e de consciência, reportável aos valores que integramos, às condutas que temos, às coisas que valoramos, às procuras que fazemos, em suma, ao perfil da pessoa em que nos queremos ir tornando.

Neste livro, seguindo o trilho da ética filosófica e da sua configuração, fazemos caminho pelas ideias de felicidade, de autoconhecimento, da Pessoa que (nos) dizemos ser, da morte e da finitude, da vida como jornada e como narrativa, dos papéis de cada um, herói e protagonista da sua (própria e singular) história; seguimos os eixos das virtudes, os processos do desejo à acção, a indagação pelo Outro e pelo consenso, valorando as companhias nos percursos da Vida. O desafio da ética, que é o de pensar o modo como se quer viver também nos leva aos tópicos da educação e do florescimento humano, procurando-se o sentido de viajar ligeiro e de estar atento a argumentos e a falácias. Conversamos com pensadores de todos os tempos, de antigos a pós-contemporâneos, de Sócrates a Michel Renaud, passando por Aristóteles, Kant, Nietzsche, Heidegger, Hannah Arendt, Habermas, Hans Jonas, Lévinas, Ricoeur, Cortina, Savater, Rawls, Comte-Sponville e Martha Nussbaum , entre outros. O tempo presente é o da Vida e da itinerância humana, da (nossa) humanitude recortada na dimensão ética.”

(texto da contracapa)

Editado pela Lusociência (Lusodidacta).





Livros e leituras

4 02 2009

mentirasLying on the couch, brinca com a própria ideia de «lying» como mentir e como deitar-se. Julgo que se lê «de um fôlego», mas pode ser do interesse que  desperta uma história em torno de relações complexas, ao caso focada nas relações terapêuticas; e também, os modos como essa complexidade afronta e é afrontada por escolhas de terapias e de processos. O extraordinário poder da relação e do processo terapêutico invoca as fragilidades de uns e outros, as possibilidades de engano, fraude e falha bem como de descoberta, superação e júbilo. Um romance no mundo da psicoterapia e dos seus limites éticos.





Hergé/Tintin e a sétima arte

1 02 2009

A estreia está marcada para 2011 – “Tintin e o Segredo do Unicórnio”, com Steven Spielberg como realizador e Peter Jackson como produtor. Baseado no livro “O Segredo do Unicórnio” (Le secret de la licorne, 1943), o filme está em fase de produção, vai ser rodado em 3D digital e vai basear-se na tecnologia “performance-capture”. Numa “joint-venture” entre a Paramount e a Sony.

Boa razão para evocar os heróis desta BD e deixar o link do site oficial.

Entre as muitas personagens, estão também portugueses.

O mais ilustre representante de Portugal nos livros de Hergé/Tintin é Oliveira da Figueira, vendedor que surge em três álbuns (“Os Charutos do Faraó”, “Tintin no País do Ouro Negro” e “Carvão no Porão”).  Oliveira da Figueira, que salva Tintin em apuros (em  “Carvão no Porão”) é um comerciante conhecido por vender “tudo e mais alguma coisa”,  mesmo coisas inúteis ou desnecessárias para os compradores.  Hospitaleiro, Oliveira da Figueira quando reconhece Tintin diz que é preciso celebrar o acontecimento e serve “um copo de vinho de Portugal, do sol do meu país”, nas suas próprias palavras.

Outra figura portuguesa, nas histórias, é um professor de Física da Universidade de Coimbra – Pedro João dos Santos (“A Estrela Misteriosa”).

E assim, “a talhe de foice”, aproveito para saudar um amigo que aprecia Hergé e mo apresentou.

Boas (re)leituras, até que o filme não chega…





Leituras (de BD): Corto Maltese

28 01 2009

“Veneza seria o meu fim!”, exclama o marinheiro de Malta, num dos «contos» mais intimistas de Hugo Pratt. A cidade italiana é lugar de sortilégios, onde existem três lugares mágicos e secretos. Quando os venezianos, e por vezes malteses, se cansam das autoridades, dirigem-se a estes lugares e, abrindo as portas ao fundo desses pátios, partem para países fantásticos e outras histórias – Hugo Pratt localiza-os: “um na rua do Amor dos Amigos; um segundo nas proximidades da ponte das Maravilhas e um terceiro na Calle dei Marrani, perto de San Geremia, no velho Ghetto”.


Assim termina a “Fábula de Veneza”, porventura a mais emblemática das aventuras de Corto Maltese, o herói criado pelo Italiano Hugo Pratt no ano de 1967. “Em todo o seu recorte simultaneamente realista e mágico, este romance gráfico mostra de forma livre e criadora que a aventura é, antes de mais, uma atitude perante a vida e o mundo, e só depois uma deambulação aparentemente arbitrária pelos caminhos do mundo”.


Corto Maltese, o marinheiro nascido em Malta a 10 de Julho de 1887, de mãe cigana de Sevilha e pai marinheiro oriundo da Cornualha, deixa a sua discreta mas inconfundível marca em todas as geografias conhecidas do planeta. Esteve no conflito russo-nipónico nos primeiros anos do século XX (“A Juventude de Corto Maltese”), abriu trilhos na floresta amazónica e foi visto na costa ocidental da América do Sul (ciclos de “Sob o signo do Capricórnio” e “Sempre um pouco mais longe”). Durante a Primeira Guerra Mundial, passou pela Europa e pela África Oriental (ciclos “As Etiópicas” e “As Célticas”), enfrentou os rigores da Sibéria (“Corto Maltese na Sibéria”) e procurou os tesouros de Samarcanda (“A Casa Dourada de Samarcanda”). Atravessou meio mundo para procurar velhos amigos na Argentina (“Tango Argentino”) depois de uma nova incursão pela Veneza dos seus sonhos e mitos (“Fábula de Veneza”) e antes de mergulhar nos mistérios alquímicos (“As Helvéticas”). A sua saga termina em demanda do mítico continente perdido da Atlântida (“Mû”).

http://www.casterman.com/cortomaltese http:/perso.wanadoo.fr/web.on-line/maltese.htm





Livros e leituras

26 12 2008

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“escolhi um período de três meses da minha vida – de finais de Fevereiro a inícios de Maio de 1996 – e tentei encontrar as raízes históricas de acontecimentos e de objectos do dia-a-dia, desde um gesto tão banal como comprar um termómetro, a algo tão único e íntimo como assistir ao velório do meu irmão”.
De certa forma, dois livros num: a evocação de um irmão descobrindo o outro e o relato de coisas (e suas origens) do quotidiano, com raízes na física, biologia, matemática, filosofia, enfim, onde calha…

E “eis um livro de razões. (..) As razões, tal como o caos, podem ser múltiplas e difusas, disseminadas pelo espaço e pelo tempo, a menos que uma busca deslinde a confusão e lhe dê uma forma. Descobri, assim, que o acto da procura se torna uma tomada de responsabilidade.” (p.12)

Tomar conta das coisas do irmão aparece como o fundamento para o diálogo consigo, as coisas e a vida.

A fotografia cria imobilidade a partir do movimento e tranquilidade a partir da violência; rouba a memória à amnésia do tempo e conserva em luz o que apodrece e se desfaz e mergulha na escuridão da terra. As suas soluções, como as do embalsamador, são químicas e, tal como o embalsamador, fazem dos corpos efígies. De facto, os mortos foram os modelos ideais dos primeiros fotógrafos, que assim evitavam ter de dizer constantemente: «Não se mexa, esteja quieto». As fotografias não são apenas representações, ou espelhos, ou o apogeu do realismo científico; são efígies, fabricadas para duplicar os mortos e preservá-los para os vivos” (p.173).

Terá a vida de Paul sido um desperdício de vida? (..) Se foi vida, não foi desperdício; se foi desperdício, não foi vida. Foi? Cuidado. Vai com calma.  Algumas perguntas explodem na cara do inquiridor.  Não desperdiçaremos, todos nós, até certo ponto, as nossas vidas? Deixemos esta pergunta de lado. Deixemo-la atada e com dois laços, diz a voz interior, a mesma voz interior que mascara as suas tentações com uma calma de gelo. Será que ele desperdiçou a sua vida? O mais seguro seria dizer que ninguém sabe ao certo. Algumas perguntas não podem ser respondidas. Mas as perguntas sem resposta espalham-se como guloseimas envenenadas, interrogam-se vezes sem conta, atingindo inesperadamente o ponto de ebulição num milhar de bolhas secas, como açúcar caramelizado.(…) E o Paul era meu irmão. Foi a sorte ou o acaso que lhe deu a vida que eu não levei, a vida de que fugi? Uma necessidade da história, um defeito nos circuitos cerebrais, um capricho dos deuses? Partilháramos os mesmos pais, éramos sangue do mesmo sangue. O que tornara a vida dele tão diferente da minha? Então, pensei: Não era diferente, e entrei em queda livre através do espaço. Faço parte da vida dele, pensei, ele faz parte da minha.” (p. 252 e 288)

Um texto leve e rico, humano, entremeado de história pessoal e universal, das descobertas da ciência e de um ser humano.

John Vernon
Livro de Razões





Livros e leituras

10 11 2008

A questão central decorre de uma célebre frase de Adorno: «… Escrever um poema depois de Auschwitz é bárbaro e isto corrói também o conhecimento das razões pelas quais hoje é impossível escrever poemas».

«O mandamento de Adorno pareceu-me uma proibição francamente contrária à natureza; era como se alguém se tivesse apropriado do papel de Deus-pai e proibido os pássaros de cantar.» A forma de refutar Adorno seria «escrevendo», encontrar na escrita a via para superar a «consciência entre o nítido e o nebuloso de pertencer, não como criminosos, mas do lado dos criminosos, à geração de Auschwitz».

Um texto que se lê de um fòlego só, talvez pelo tom coloquial do discurso proferido no âmbito de umas Conferências de Poética na Universidade Johann Wolfgang Goethe (Frankfurt). Um re-olhar, com Günter Grass,  sobre a História da Alemanha no século XX e o seu próprio percurso, mas também sobre a escrita, a  arte, coisas de seres humanos, vergonhas e culpas.





livros e leituras

7 10 2008

O título já chama…Primeiro parágrafo:

A linha do horizonte situa-se no ponto indefinido onde o céu e a terra se unem. É indefinido porque recua à medida que avançamos. A linha do horizonte só é fixa e acessível à distância.

“Na verdade, nunca temos o que queremos. Nem teremos. É o não-ter ou o não-ter-ainda que alimenta o desejo. É o vazio que sustenta a avidez. O já-ter extingue o desejo. A vivência do ainda-não-ter ensina-nos a esperar, a ter esperança, categoria mental em que o tempo é simultaneamente castigo e recompensa. Não-ter coloca-nos num estado de tensão que nos desestabiliza e nos obriga a dirigir para o exterior de nós mesmos, a partir à aventura sem objecto ou com objectos provisórios e frustrantes, nada pacificadores do desejo inicial que assim muda de direcção em pleno movimento.”

a utopia coloca-nos entre a terra e o céu, ou, se quisermos, entre a razão civil e o mito escatológico (…). É uma revelação que registamos como improvável mas que, mesmo assim, põe em causa a coesão do nosso esmagador património de certezas.

O sub-título -  “peregrinatio ad loca utopica” – diz mais sobre o objecto deste livro: a história das utopias, numa peregrinação em que entram a filosofia, a literatura, a história, a música e a política.





leituras

3 10 2008

Nem sempre se tem tempo para apreciar leituras que se prezam…  e passar os olhos pela EDGE, faz parte do que não se dispensa.

Aproveito a citação

“Globalization creates interlocking fragility, while reducing volatility and giving the appearance of stability. In other words it creates devastating Black Swans. We have never lived before under the threat of a global collapse. Financial Institutions have been merging into a smaller number of very large banks. Almost all banks are interrelated. So the financial ecology is swelling into gigantic, incestuous, bureaucratic banks – when one fails, they all fall. The increased concentration among banks seems to have the effect of making financial crisis less likely, but when they happen they are more global in scale and hit us very hard. We have moved from a diversified ecology of small banks, with varied lending policies, to a more homogeneous framework of firms that all resemble one another. True, we now have fewer failures, but when they occur ….I shiver at the thought.

Nassim Taleb, The Black Swan (2006)

para evocar a leitura do «Cisne Negro», um desafio a interrogar-se sobre o incerto e o imprevisivel, acerca do qual encontramos explicações e entendimento apenas posterior aos acontecimentos…

Como não podia deixar de ser nos tempos que correm, a economia,colapso e austeridade, estão na ordem do dia. E do autor de «O cisne negro», a ler, The four quadrant: a map of the limits of statistics





Leituras de(stas) férias

26 08 2008

José Barata-Moura, Da Mentira: Um Ensaio – Transbordante de Errores. Editorial Caminho, 2007.

Um estudo sobre a mentira, que percorre, sem dispiciendos e com muitos aportes laterais, textos dos mais intransigentes defensores da verdade, passando pelos que admitem algum grau de mentira necessária ou perdoável, aos que entendem a mentira como categoria estética benéfica e aos que contestam pura e simplesmente a noção de verdade e mentira.

O texto tem umas passagens densas, mas é bem humorado, coloquial, de ir conversando sobre a mentira, no contexto da verdade, e distinguindo de veracidade.Estava à espera de encontrar Hannah Arendt, e a mentira dos «fabricantes de imagens». Mas não a encontrei….

Compreender a mentira não lhe transmuta as misérias e não lhe branqueia a imagem. Obriga, sim, a um melhor temperar dos instrumentos de que dispomos, a que se afinem os dispositivos de um pensar crítico, que não abdica de procurar discernimento e orientação nos diferentes planos e nos meandros da realidade.

Convoca também — porque toda esta questão da mentira nos interpela a todos de um modo descaradamente directo — uma firme mobilização exigente e um vinculado empenhamento,  ético e ontológico, na qualidade que vamos inscrevendo, com pensamentos e acções, no devir histórico da nossa realidade.
Uma leitura interessante, numa altura propícia.

Citando:

“Para Kant, a mentira – para além de desrespeitar a pessoa do outro (a quem se dirige, ou contra o qual é dirigida) na sua humanidade racional, e de, eventualmente lhe acarretar dano ou prejuízo (uma circunstância que decerto importará ponderar, como vimos, no âmbito do Direito, mas que não é genuinamente invocável desde, e para, o campo estrito da ética) – constitui-se, fundamentalmente, como «a maior infracção da obrigação do ser humano para consigo próprio». A mentira representa, assim, pura e simplesmente, um inaceitável tripúdio, um «deitar fora», um «aniquilamento» da dignidade humana, cuja sacra custódia e promoção aos próprios humanos acima de tudo incumbe – designadamente, através e nos institutos do Direito, da Moral e da Política” (p. 123)

“A natureza instrumental da mentira justifica-se no imediato, não através de uma sua iconoclástica apologia exibicionista (indiscrimnada e por atacado), mas pela necessidade de tomar em mão, e de orientar em proveito próprio, os «ventos da fortuna», o intrincado das situações, as contraditórias paixões e móbeis dos humanos” (p. 162).





Leituras de férias

26 08 2008

” – Não sei nada sobre Matemática.

- Não sei nada sobre caminhos-de-ferro – replicou SInger.

- Julga que o infinito me interessa?

- Julga que os caminhos-de-ferro me interessam? Se tivermos tempo, é o que teremos de fazer crescer juntos: o meu interesse pelos caminhos-de-ferro e o seu pelo infinito.” (p. 54)

Uma Janela para o Infinito (Villa des Hommes).  Editora Bizâncio, 2008.

Hans Singer, eminente matemático alemão (inspirado em Georg Cantor, que desenvolveu a Teoria dos Conjuntos e trabalho sobre o Infinito) é internado no hospital psiquiátrico após um colapso mental. No mesmo quarto («Villa des Hommes», vivenda 14) é colocado Matthias Dutour, soldado francês, vindo da frente de combate, antigo maquinista de caminhos-de-ferro, de anteriores convicções libertárias.

Em conversas e narrativas de dias, constrói-se a amizade e a relação de mestre e discípulo.

Ficamos a saber que Matthias salvara um soldado alemão que, afinal, o tinha salvo. Que a paixão dos caminhos-de-ferro tinha nascido graças à oferta de “A Besta Humana” de Zola por parte da mãe adoptiva. Percebemos que Singer insiste e investe em trazer Mathias do seu mundo indiferente e de silêncio. Que a aceitação da sua teoria do Infinito e o descrédito, ascensão e queda, a sua imersão nas matemáticas o levou a ter de escolher entre a matemática e os matemáticos.

É ténue o espaço desenhado entre a lucidez e a doença mental, espantosa a proximidade que os diálogos de Guedj conseguem estabelecer. Queira-se ou nem por isso, este livro pode bem ser uma Janela (como o título português considerou) para as infinitas probabilidades da vida…

“Numa estrutura narrativa muito original e habilmente tecida, Denis Guedj aborda, de forma singular e comovente, a temática da loucura e transmite-nos a mensagem de que a Matemática, como a Política, devem estar ao serviço do homem.” (contracapa)