de novo, Mia Couto
19 04 2007
Há uns dias, falámos dele aqui, e do Planeta das Péugas Rotas.
Numa vitória inédita, Mia Couto, 52 anos, torna-se o primeiro escritor de África a receber o Prémio União Latina de Literaturas Românicas.
São 12 mil euros para distinguir uma obra literária de um autor de língua latina.
Originalidade e “poder criativo” foram os principais argumentos apontados pelo júri para a escolha do nome de Mia Couto para receber este galardão instituído em 1990.
Este ano, a concorrer estavam Mia Couto (Moçambique), Maria Velho da Costa (Portugal), Fernando Vallejo (Colômbia), Jaume Cabré (Espanha), Luigi Meneghello (Itália), Patrick Modiano (França) e Aminata Sow Fall (Senegal). À quarta volta do escrutínio, a decisão foi tomada e a favor de Mia Couto.
Excerto de entrevista de 2005:
“Assim, na maneira que eu vejo, acho que na minha vida há momentos que eu estou escritor. Estou a usar o verbo “estar” e não o verbo “ser” e faço isso de propósito. Os momentos que eu “estou” escritor são os momentos na minha vida em que tenho uma relação com o mundo, com os outros, com as coisas, com os seres, que é uma relação em que me permite ser criativo, me permite estar num estado de infância e em que estou olhando o mundo como alguém que ainda está se surprendendo com ele.
Esses momentos eu tenho quando estou biólogo, também. A biologia, para mim, não é uma profissão, é uma espécie de uma janela para olhar o mundo. A maior parte das vezes permite o sentimento de irrealidade que, se calhar, uma outra profissão não me permitiria . A biologia também permite que eu visite o interior de Moçambique, trabalhe com pessoas e recolha histórias. Quando estou nas zonas rurais principalmente, para mim, não é um trabalho. É uma espécie de uma ponte para eu estar desse outro lado em que eu sou escritor.
SB: Mesmo que a biologia seja, para você, uma janela e não um trabalho, influencia muito sua obra escrita?
MC: Imagino que sim. Quando eu leio o que eu escrevi- é raro, quase nunca leio as minhas obras depois de publicadas - quando releio as coisas que eu fiz, eu encontro alí coisas que eu descobri através da biologia. Particularmente aquilo que é a percepção de outras linguagens, a forma como eu posso estar próximo de uma árvore ou de um animal. Consigo isso através daquilo que a biologia me deu, que é uma maneira de olhar o mundo com outros entendimentos. Quer dizer, estou disponível. Isto é muito pouco científico no fundo. É muito pouco rigoroso no sentido da ciência biológica, mas a biologia permitiu mostrar que estas coisas que são seres vivos são construções que estão ainda em movimento, que estão inacabados; são uma espécie de pequenos brinquedos. Isso aparece nos meus escritos. Eu acho.”
(o negrito é meu)
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