em jeito de glossário (I): categorização e taxonomia

14 06 2008

Pode ajudar a estabelecer diferenças. Por exemplo, entre classificações, taxonomias e ontologias.

Categorização - processo pelo qual as ideias e objectos são reconhecidos, diferenciados e classificados. Em linhas gerais, consiste em organizar os objectos de um dado universo, em grupos ou categorias com um propósito específico. Há inúmeras teorias e técnicas de categorização que, numa perspectiva histórica mais ampla, se podem sintetizar em três abordagens: clássica, por conceitos e de protótipos.

Categorização clássica, agrupa objectos baseados na semelhança de suas propriedades (Platão, Aristóteles). Pressupõe que as categorias são entidades discretas, caracterizadas por um conjunto de propriedades compartilhadas por seus membros. Adicionalmente, as categorias devem ser claramente definidas, mutuamente exclusivas e colectivamente exaustivas. Desta forma, qualquer objecto do universo de classificação deve pertencer inequivocamente a uma, e somente uma, das categorias propostas.

Agrupamento por conceitos, ligada à representação do conhecimento - classes, clusters ou entidades são geradas pela formulação das suas descrições conceituais, seguida da classificação das entidades à luz destas descrições; intimamente relacionado à teoria de conjuntos difusos ou “fuzzy sets”, na qual onde os objectos podem pertencer a um ou mais grupos, em graus diferenciados de pertinência.

Teoria dos protótipos - o processo de agrupamento baseia-se em protótipos (membros mais típicos de uma categoria), uma vez que critérios necessários e suficientes para a definição precisa de categorias são raramente encontráveis no mundo real. Esta visão sustenta que sistemas conceptuais de categorias não existem objectivamente no mundo real, mas estão enraizados nas experiências pessoais e colectivas. Desta forma, as categorias conceituais diferem de cultura para cultura e mesmo entre indivíduos de mesma cultura.

Taxonomia - ciência de identificar e classificar. Inicialmente associada a organismos vivos e depois alargada a classificação de coisas ou aos próprios princípios subjacentes da classificação. Quase tudo - objectos animados, inanimados, lugares e eventos - pode ser classificado de acordo com algum esquema taxonómico. A taxonomia dos objetivos educacionais de Bloom é uma estrutura de organização hierárquica de objectivos educacionais. Cada um dos três domínios tem diversos níveis de profundidade - por isso a classificação de Bloom é denominada taxonomia: cada nível é mais complexo e mais específico que o anterior.

Taxonomies: a controlled vocabulary organized into a hierarchical structure. There might be more then one parent-child relationship in a taxonomy (es. whole-part, broader-narrower, genus-species, type-instance). In some cases, a term can have multiple parents so the term can occur in different places of the taxonomy (however, it must have the same children everywhere)

Na Filosofia, alguns afirmam que a mente humana organiza naturalmente seu conhecimento do mundo em tais sistemas. Esta visão é baseada frequentemente na epistemologia de Kant.

Na Biologia, aparece ligada à sistemática (estudo da diversidade das características dos organismos vivos). Os grupos taxonómicos mais importantes, e de mais corrente uso, são: Família, Género e Espécie, sendo de salientar que podem ainda existir subdivisões em todos estes grupos. Trata-se da taxonomia científica mais famosa e utilizada.

Na Antropologia defende-se que as taxonomias são inerentes à cultura local e aos sistemas sociais, servindo a várias funções sociais. Um dos estudos mais conhecido e mais influente de taxonomias populares considera-se ser o The Elementary Forms of Religious Life de Emile Durkheim. Mas também não estaremos errados se considerarmos Totemism e The Savage Mind de Levi-Strauss. Distinguem-se as taxonomias populares das taxonomias científicas, que sustentam a dissociação das relações sociais e assim chegar ao objectivo e ao universal.





“advogado do diabo”

21 05 2008

… uso a expressão ocasionalmente e gosto de fazer o papel… hoje, perguntaram-me o que queria dizer, na origem, por issso, e porque me parece interessante, aqui fica a história:

O termo pertence ao vocabulário da cúria romana: “advocatus diaboli” é uma figura transposta para a linguagem popular, a partir do processo de santificação, de beatificação que se desenrolava perante a congregação do culto do Vaticano. O modelo é aquele a que se chamou “promotor fideii”, cuja missão era a de submeter a um teste de resistência os argumentos que defendiam a santificação de um defunto - advogava a favor, portanto.

O “advocatus diaboli” tinha interesse em impedir que mais um defunto ascendesse à comunidade de santos, apresentava cepticismo quanto aos milagres, procurava lacunas nas provas…

O que não resiste à ironia, porque o “agente do inferno” com os seus argumentos, negações e subversões, visava des-confirmar a dignidade de santo ou de beato num candidato proposto, de modo que acabava por dar lugar a um resultado válido, à luz do direito canónico. Ou seja, ao fim de contas, jogava contra mas fortalecia o jogo do adversário.

O ofício de “advogado do diabo”, estabelecido em 1587, foi abolido em 1983 (o que causou uma subida no número de canonizados - sugerindo que os Advogados do Diabo, de facto, reduziam o número de canonizações. Alguns pensam que terá sido um cargo útil para assegurar que tais procedimentos não ocorressem sem causa merecida, e que a santidade não era reconhecida com muita facilidade.

Hoje em dia o termo designa uma pessoa que discute a favor de um ponto de vista (e nem acredita nele) no sentido de esgrimir argumentos, testar a qualidade do argumento e identificar falhas ou erros na estrutura.

(A ler: O advogado do diabo, entre a ética e a sistemática (Peter Sloterdijk), em Para onde vão os valores?, Dir. Jérome Bindé, 2006)





revivalismo: glossário de palavras mui amadas - * desafio

10 11 2007

Já teêm algum tempo, as outras palavras mui amadas. 1 - poesia ; 2 - aprender ; 3 - pensar ; 4 - metamorfose ; 5 - ética ; 6 - caminhos ; 7 - (desejo de) conhecer ; 8 - escolhas

9 - desafio

O acto de desafiar tem passado na provocação para um combate singular (um duelo) e na ideia de jogo ou concurso. Pode ser pensado enquanto competição (até no sentido mais simples, de cantar ao desafio) e também de tirar o fio (des-a-fiar). Tem o senso do repto ou do convite, do estímulo - desafia-se para um projecto, para um debate, para a construção de uma ideia.

O desafio é o que se condensa na necessidade de repropôr pressupostos ou de reexaminar. “Trata-se do desafio hermenêutico que representa o diálogo intercultural. Desafio, da perspectiva filosófica, condensa-se na necessidade de repropor os pressupostos da nossa própria teoria do entender.”

Desafios enfrentados e a enfrentar: tantos e difusos. Comuns aos seres humanos, na sua humanitude.
O desafio de controlar o tempo. O desafio de (auto)(hetero) capacitação, formação, salto à fasquia colocada.
O desafio da escolha pela relevância, pelo desenvolvimento. O desafio da clareza e da coerência, da esquiva ao descompasso.

O desafio de conter o medo e a ansiedade, de proteger a vulnerabilidade. O desafio de enfrentar e indignar-se, irar-se se caso fôr.

O desafio da difusão, da capacidade de transferir e partilhar.

O desafio da estratégia e do propósito.

O desafio das pontes com os Outros.

O desafio existencial de ser, de questionar(se) de reequacionar(se).

quantos mais!… conversamos?!

(imagem daqui)





Solidariedade

29 10 2007

opgevagen.jpg

Solidariedade, do latim, origem em solidum, sólido, designa apoio seguro, pela derivação de solus, chão.

Conta-se que um certo monge copista registou que um Bispo proferira um sermão utilizando a forma solitarius, sozinho, que foi transcrita como solidarius, que dá segurança. O erro era de uma letra apenas…

Há quem aponte que o latim jurídico já tinha a expressão in solidum, significando que em determinadas questões todos respondiam ou todos os bens estavam incluídos.

De qualquer forma, o vocábulo fez escala no francês - solidaire - cujo registo mais remoto se coloca no século XVI. Daí à solidariedade foi um pulinho e em 1723 encontramos o primeiro registro de solidarité com o sentido que temos hoje, na língua portuguesa. Atitude de apoio, de tornar sólido, de coesão.

Por mim, sigo a leitura de que a solidariedade é a união de simpatias, interesses ou propósitos entre os membros de um grupo. E, realmente, a solidariedade é escassamente virtuosa… “A solidariedade é um estado de facto antes de ser um dever; depois é um estado de alma (que sentimos ou não), antes de ser uma virtude ou um valor.” (Comte-Sponville)

O estado de facto é pertencer a um conjunto in solido, como se dizia em latim, isto é, “para o todo”. É o facto de uma coesão, de uma interdependência, de uma comunidade de interesses ou de destino. Ser solidários, nesse sentido, é pertencer a um mesmo conjunto e partilhar, consequentemente – quer se queira, quer não, quer se saiba, quer não – uma mesma história.

Como estado de alma, a solidariedade é o sentimento ou a afirmação dessa interdependência.

É óbvio que esses sentimentos são nobres. Mas serão por isso virtudes? Se a solidariedade é comunidade de interesses, das duas uma: ou essa comunidade é real, efectiva, e então ao defender o outro nada mais faço do que defender a mim mesmo; ou essa comunidade é ilusória, formal ou ideal, e então se luto pelo outro já não se trata de solidariedade (pois meu interesse não está em jogo), mas de justiça ou de generosidade.

“Em suma, a solidariedade é demasiado interessada ou demasiado ilusória para ser uma virtude.”





Pensar e inteligir

19 10 2007



As palavras
pensamento e pensar procedem de um verbo latino, pendere, que significa ficar em suspenso, estar ou ficar pendente, suspender.

Diria Arendt, que Pensar é estar na Terra dos Invisíveis, por ser uma actividade do espírito que nos faz ausentar da acção.

Intelligere vem da composição de duas outras palavras: inter, isto é, entre, e legere, que significa colher, reunir, recolher, escolher e ler (isto é, reunir as letras com os olhos).

Por isso, intelligere significa escolher entre, compreender, ler entre, ler dentro de.
Daí o sentido de conhecer e entender.
(ciberdúvidas de língua portuguesa)

Cogitare, significa “desenvolver um pensamento atento, reflectido e meditativo.” (aqui)

Se reunirmos os vários sentidos dos três verbos – pensare, cogitare e intelligere -, configuramos que pensar é uma actividade pela qual o espírito coloca algo diante de si para, atentamente, considerar, avaliar, pesar, reunir, compreender, entender e ler por dentro.

O pensamento é a a inteligência saindo de si (passeando, portanto) para ir colhendo, reunindo, recolhendo os dados oferecidos pela experiência, pela percepção, pela imaginação, pela memória, pela linguagem, e voltando a si, para considerá-los atentamente, colocá-los diante de si, observá-los intelectualmente, pesá-los, avaliá-los, retirando deles conclusões, formulando com eles ideias, conceitos, juízos, raciocínios.

O pensamento exprime a nossa existência como seres racionais e capazes de conhecimento abstrato e intelectual, e manifesta sua própria capacidade para dar a si mesmo leis, normas, regras e princípios para alcançar a verdade de alguma coisa.





citações, máximas e aforismos

14 10 2007












Citar é referir (ao caso, transcrever) um excerto, em apoio ao que se quer dizer ou ao que se afirma. Citação é um texto citado, seja qual for a natureza do extracto. Usá-la é ir buscar a outros, recorrer a quem antes pensou e escreveu.

Máxima tem o traço de sentença moral breve. Usa-se também como sinónimo de princípio básico, de aforismo, de pensamento, de apotegma. E tem a característica de obedecer à gramática (não transgride o modelo gramatical, não permite a omissão).

Aforismo é uma sentença lacónica, de expressão curta, com máximo apuramento, que encerra em poucas palavras um princípio moral, e faz a ligação ou o contacto entre o filosófico e o literário. Pode aparecer como afirmação política, moral, filosófica, literária - apresentando um ideal de sabedoria. Em poucas palavras “explica e compreende a essência das coisas”

Apotegma (esta é uma palavra nova para mim…) Frase breve de carácter aforístico, geralmente de alcance universal. O apotegma aparece quase sempre com linguagem figurativa e na forma de uma máxima ou
sentença. Distingue-se do aforismo e do provérbio por ser mais prático e focalizado; a autoria do apotegma é também, regra geral, reservada a figuras notáveis da cultura, ao passo que o aforismo e o provérbio podem ter origem popular.

Lema é uma proposição que serve de emblema, de divisa.
Adágio, provérbio, ditado e refrão… têm origem popular (vox populi).
Há um fundo didático-filosófico-moralizante que serve de fio condutor. Em síntese, no global, uso pensamento, que agrega as diferentes expressões na intenção que as une.

André Gide afirmava que “todas as coisas já estão ditas, mas como ninguém escuta, é preciso recomeçar sempre“. Cito-o, para me recordar - e a citação é uma lembrança também.
Schlegel considerava que “um fragmento tem de ser como uma pequena obra de arte, totalmente separado do mundo e perfeito e acabado em si mesmo como um porco-espinho“. Porque há algo em algumas citações que incomoda, que espicaça.

Vejo o pensamento-citação como uma espécie de reconhecimento e de agradecimento, assim como uma peça de um mosaico que pode inspirar. Lucrécio afirmava que “nada pode ser criado a partir do nada“. Por isso, trata-se de ir buscar coisas, para construir com elas. A citação (seja máxima, aforismo, lema…) leva-nos a um livro, a um lugar, a uma vivência, a um tempo. Desafia-nos, ensina-nos, possibilita.





Das opiniões

4 10 2007

No Livro V de A República Platão distingue claramente entre episteme e doxa.
É da episteme, ou gnosis, termos habitualmente traduzidos por conhecimento, que surgem as verdades necessárias e fundamentais, nas quais a ciência se baseia.
A doxa, que se traduz por opinião, diferencia-se da episteme por fazer parte da verdade pré-crítica e de uma compreensão pré-ontológica. A doxa estaria situada num nivel intermediário entre o conhecimento e a ignorância, caracterizando-se pela multiplicidade e relativididade.

As opiniões discutem-se…
– se não se discutissem, seriam dogmas ao invés de opiniões.

Um dos elementos que podem ser decisivos é colocar as coisas sobre a mesa, de assumir que temos de discutir o que fazemos. E discutir não é zangarmo-nos pelas diferenças de opinião.

É muito mais no sentido de procurar as raízes das coisas, do debate de razões ou dos fundamentos das práticas – porque ter uma opinião não pode ser couraçar-se, fechar-se numa redoma mas antes confrontar-se com provas, factos e evidências. E julgo que as opiniões não valem todas o mesmo, não são todas igualmente respeitáveis.

Como afirmou Savater, todas as pessoas são respeitáveis; algumas opiniões não são. Pensar que a opinião de todos vale o mesmo é uma falácia, uma pretensa liberalidade.As ideias não valem a não ser que quem as sustente possa aduzir provas, dados, raciocínios.

Quando se afirma opinião, tem de se ser capaz de fundar e justificar essa opinião de forma consistente. E de pugnar por ela…





do uso das metáforas ou dos criadores de enigmas

1 10 2007

Gosto de metáforas.
Ando por elas, de quando em vez e de vez em quando.

Hoje, volto a elas. Porque juntam e cruzam diferentes tipos e categorias de seres que, na realidade, não podem ser reunidos.

São uma espécie de enigma ontológico, que podemos resolver (parcialmente, pelo menos), se compreendermos a metáfora. Portanto, metáforas como encruzilhadas de sentidos.

Podem fazer-se metáforas de quaisquer duas coisas para as quais existam palavras. Pois que as metáforas são feitas de palavras e as palavras não são as coisas mas nomes das coisas.

Cada metáfora altera ou modifica a realidade existente, pelo menos no que se refere à oralidade, ao verbal. E, assim, cada metáfora é potencialmente criadora - de novo sentido, de nova realidade. Até porque não segue as leis da lógica - na maioria das vezes, são ilógicas e lembram-nos que o ser humano não vive apenas da ou pela razão. Daí, a poesia. A literatura. A imaginação. A emoção.

Ademais, o uso das metáforas, como engimas, está destinado a ser resolvido.
Mesmo as mais obscuras e difíceis.
Pois que as metáforas criam a sua própria realidade tentando explicar uma parte de outra realidade — as nossas origens, a vida no planeta, os enigmas de ser. E são intrínsecas à utilização de símbolos.

Uma das piores coisas que pode acontecer é não se saber quando se está a lidar com metáforas, quando se confundem com a realidade, ou não conseguir resolver uma metáfora, perceber como é que a realidade está a ser mediada.

(imagem aqui)





Palavra do dia

20 03 2007

Educar vem do latim educare, por sua vez ligado a educere, verbo composto do prefixo ex (fora) + ducere (conduzir, levar), e significa literalmente ‘conduzir para fora’, ou seja, preparar para o mundo. Por mim, ligo à alegoria de Platão, e à saída da caverna.

A alegoria da caverna descreve o itinerário que conduz do mundo sensível das aparências ao mundo inteligível da verdade. A alegoria refere a vida, as procuras do crepúsculo e do amanhecer, e lembro que o prisioneiro é forçado a sair - “que se liberte” e seja obrigado… Por quem? por quem educa (e traz para fora).

“A alegoria da caverna é “uma alegoria da paideia (…) Uma alegoria da natureza humana e da sua atitude perante a cultura e a incultura”.
Werner Jaeger

Interessante observar que ‘educação’, na nossa língua, possui uma conotação associada ao sentido de boas maneiras (principalmente no adjectivo «educado») enquanto na língua inglesa «educated» refere-se unicamente ao grau de instrução formal.




raízes das palavras

20 03 2007

A etimologia traz as raízes e os percursos dos nomes. Das roupagens que foram vestindo.
Das palavras comuns mas também dos nomes próprios. Do próprio.

Sabe acerca do seu? Behind the Name.




Glossário de conversa reloaded

8 12 2006

(imagem: Mother and Child reading, BillBurguess)

Palavra são unidades da linguagem falada ou escrita. Como células. Ou como tijolos.
São termos e vocábulos que podem ser combinados para criar frases e proposições…
Vejo as palavras como roupagem das ideias e dos sentimentos. E roupagem aqui significa mesmo a roupa, a cobertura, escolhida para se apresentar.
Quando leio, é como se despisse as palavras à procura dos interiores que elas revestem, à procura dos sentidos que elas transportam. Quando falo, é como se vestisse o que penso para o poder apresentar fora de mim. Quando escrevo, procuro as roupas melhores para envolver as ideias e elas não se perderem ao sair de mim.

Estes exercícios, de revestir e despojar, podem ser também o que nos aproxima ou nos afasta.
Porque nem lemos as palavras com os sentidos que tinham para quem as escreveu, nem falamos transportando inteiramente o significado que tiveram as ideias que pensámos. Por isso podemos mesmo não compreender o que estamos a dizer uns aos outros.
Isto faz-me sentido… e ademais gosto de palavras.

Ainda organizei umas sequências, de palavras do quotidiano
- derrogação - teoria dos jogos - fazer a diferença - humor - livro - opinião - eufemismo - universidade - metáforas
e, depois, glossário de palavras mui amadas…
- poesia - aprender - pensar - metamorfose - ética - caminhos - (desejo de) conhecer - escolhas - a amizade lembrei-me dele, hoje, e de o retomar, além de o colocar numa caixa específica, na coluna da direita. Posted by Picasa





glossário de palavras mui amadas: * amizade

11 01 2006

(John William Godward, In The Balcony)

* poesia* aprender* pensar* metamorfose * ética* caminhos * (desejo de) conhecer* escolhas

Fruto do hábito e da vontade, a amizade, segundo Aristóteles, é qualquer coisa de extraordinário - a mais elevada virtude, quando o outro é amado por ele próprio e não por um cálculo mais ou menos egoísta. Ainda que Aristóteles considere que existem amizades estabelecidas com base na utilidade ou prazer, a verdadeira é a que decorre da bondade.

Montaigne é outro que fez a apologia da amizade: «Na verdadeira amizade, diz ele, dou-me ao meu amigo mais do que dele quero para mim.» Sob esta forma, a amizade é considerada, desde a Antiguidade, como a própria expressão da felicidade.

A intimidade própria da amizade em que os amigos se encontram à parte do mundo convive com a ideia da sua importância política. Assim o realça H. Arendt, que na perspectiva grega, a amizade entre cidadãos é a condição do bem-estar na cidade: o mundo comum deve tornar-se objecto de diálogo, sem o que se torna inumano. Graças ao «falar-em-conjunto», observa ela, humanizamos o mundo e aprendemos a ser humanos.

Michel Onfray, em A Escultura do Eu, afirma que electiva, a amizade é tida por aristocrática e anti-social. Reforça a singularidade de cada um, pois consente, nos meandros da escultura do eu, o recurso ao outro.
Inscreve a sua sumptuosidade por cima de quaisquer obrigações que não sejam provenientes dela. Por isso, é a virtude por excelência, pois não é possível criar normas que a excedam ou leis que a restrinjam. “O amigo é o único capaz de guardar segredos, o único que conhece o mundo do indizível. Tal termo não pode ser conjugado e dificilmente o consigo imaginar no plural”.

A natureza catártica da amizade é inegável, ajuda a viver instalando o equilíbrio, a paz interior, a ordem. Noutros casos, tais como de indecisãoperante uma escolha ou uma alternativa, a amizade confere um carácter de clarificação, também porque ao escutar permite que o amigo que formula os seus problemas, descortine uma solução. O ouvido amigo é a ocasião propícia a uma construção que jamais existiria sem aquele.

Distingo figuras - as do conhecido, do colega, do parceiro, da pessoa com quem é agradável estar, das pessoas de quem se gosta e os Amigos. Raros e preciosos, numa reciprocidade e partilha especiais. É-se mais abençoado, por eles existirem.





glossário de palavras mui amadas: * 8 - escolhas

28 12 2005

(Cross Roads, Anita Wolfenden)

* 1 - poesia
* 2 - aprender
* 3 - pensar
* 4 - metamorfose
* 5 - ética
* 6 - caminhos
* 7 - (desejo de) conhecer
* 8 - escolhas

Tomar decisões é «da vida» e faz parte do dia-a-dia. Muitas vezes, decide-se sem grandes análises e, também, sem uma avaliação acurada do que se está a fazer - até porque situações simples, habituais, levantam poucas dúvidas. Mas quanto menos familiares (logo, mais instáveis e ambíguos) forem os problemas, mais morosa e analítica tende a ser a estratégia da decisão. Face a uma situação nova (ou inesperada) em que se exige uma decisão, somos desafiados (ou forçados) a reflectir no que estamos a fazer e temos de explicar os motivos que nos levaram a agir (ou não) de determinada forma.

As escolhas supõem decisões. E as decisões morais têm de ser fundamentadas numa cuidadosa deliberação racional sobre os factos existentes, no exame dos princípios morais relevantes, na apreciação das opções e possibilidades (chamo-lhes «cenários»), na monitorização dos efeitos e consequências das acções e na identificação de lições para o futuro.

Decidir é escolher uma acção (nunca em registo de pensamento binomial, já agora! exigindo sempre mais que duas alternativas, de forma crítica) de entre várias possíveis (daí, os cenários) e dirigida para (uma certa finalidade) a resolução de um determinado problema ou a opção por determinação situação. Por aqui se vê que, por um lado, a decisão pode ser orientada segundo uma ideologia, condicionada por crenças e valores, pelas prioridades e/ou pelos objectivos.
Por outro lado, resolver o problema (que era o pretendido) é condicionado pela escolha (supôr-se-ia da melhor acção) e à existência (ou não) de competências ou capacidade para a levar a cabo.

Deixo Ortega y Gasset com a sua afirmação inequívoca: «escolher é sempre rejeitar alguma coisa». Qualquer processo de tomada de decisão, exige deliberação e acção - ou seja, não basta decidir mentalmente, é preciso agir.





glossário de palavras mui amadas: * 7 - (desejo de) conhecer

18 12 2005

(mocho de Minerva)

* 1 - poesia
* 2 - aprender
* 3 - pensar
* 4 - metamorfose
* 5 - ética
* 6 - caminhos

* 7 - conhecer

O desejo de saber é intrínseco à natureza humana, como Aristóteles declarou no início da Metafísica - “todo o homem deseja necessariamente conhecer”.

Este desejo não é a «concupiscência dos olhos» (de Sto Agostinho), a curiosidade de cuscovilhice ou bilhardice, de instabilidade tagarela, do mito de Pandora (a curiosidade levou-a a abrir a arca) ou do irónico adágio inglês (da curiosidade matar gatos).

Entendo o desejo de conhecer como a curiosidade de procurar, a sede de saber, a ponte de desassossego contínuo do intelecto para a acção e os percursos de procura. Sugere curiosidade pelas coisas, espanto pelo mundo, apetite pelo que ainda não se sabe, desejo de compreender e integrar, de transformar em opinião própria e em convicção.

É o que faz seguir a pista de um nome desconhecido, de uma referência de livro, procurar um quadro de que se ouviu falar, aceder ao Mundo pela porta do conhecimento e da compreensão.
Sem estabelecer limites geográficos, políticos, históricos ou sociais - por isso, não se fica na filosofia ocidental, na historia europeia ou nos contornos do conhecido e próximo. É uma procura aberta ao que existe Por saber e Para perceber. Um dos caminhos para a sabedoria, provavelmente.





glossário de palavras mui amadas: * caminhos

10 12 2005


* 1 - poesia
* 2 - aprender
* 3 - pensar
* 4 - metamorfose
* 5 - ética

* 6 - caminhos

Trajectos, percursos, rotas, trilhos e outras similares encaixam triplos sentidos:
(1) da ideia de passagem e de temporalidade - olhando para trás (o percorrido) e para diante (a percorrer) assim como o presente (ir percorrendo);
(2) da direcção ou tendência pois ainda que pudesse bastar ir caminhando, é preciso saber com que rumo e em que sentido; por isso, se aninha aqui a ideia de escolhas (outra palavra amada);
(3) finalmente, da forma de proceder, por caminhos conhecidos ou inusitados, abertos ou inexplorados; o maior ou menor apetite pelo desconhecido ou pelo pouco percorrido.

Caminhantes, somos todos, de alguma forma. E construímo-nos a nós mesmos enquanto vamos fazendo o nosso caminho, que desenhamos caminhando.
Por isso é tão perigoso caminhar sempre ao acaso, vagueando por onde calha, como ter um rumo tão pré-definido que não admite modificações nem desvios. Entre a dependência do contingente e a in-flexibilidade, algures no meio, estará a justa medida de um caminho pessoal, em equilíbrio e harmonia.





glossário de palavras mui amadas: * 5 - ética

20 11 2005

* 1 - poesia
* 2 - aprender
* 3 - pensar
* 4 - metamorfose

* 5 - ética

A “reflexão filosófica sobre o agir humano”, arte de viver, “ética como amor-próprio”(Savater) fundamentada na procura de si e autoconstrução.
Trata-se, não de impôr renúncia ao que somos, antes pretender a melhor realização do que somos (e como tenho veia aristotélica, diria procurar activamente ser felizes). Contrariando a tradição de uma moral renunciativa, que se centra na superação ou extinção do amor-próprio (mais comumente conhecido por «egoísmo»), a perspectiva da ética como amor-próprio não implica a recusa ou o abandono do outro - antes pelo contrário, diria. Porque o que essencial é que sou eu não contra os outros mas porque há outros e o apego do eu a si mesmo, à sua própria conservação, benefício e desenvolvimento exige a sociabilidade e uma profícua relação com os outros.
E se o eu que sabe o que lhe convém, interioriza e reforça as razões da sociabilidade: por isso, e em última instância, é o seu autêntico fundamento. Entendo que não há solidariedade nem altruísmo que não partam do mais primário egoísmo, por muito que o transcendam e o superem - se fico feliz ao fazer o bem e fazê-lo bem, esse contentamento reverte para mim, em primeira instância. E o eu que se quer desenvolver e potenciar, não é nada sem o reconhecimento humano, sem a vinculação social ao outro.

Gosto da palavra e da ideia, particularmente na acepção grega do «local interior de onde brotam os actos do homem». Acresce que não há modelos nem referências em ética e cada um traça o seu caminho: mais, construimo-nos ao construir o nosso caminho, ao escolher os passos. E cada eu escolhe, na sua circunstância específica. Ainda que possa não dar conta ou des-valorar as opções que faz.

Por mim, gosto de pensar que tendo para uma ética de respeito por si e pelos outros (vinculada ao amor e recuperando S. Agostinho “ama e faz o que quiseres“), na dimensão da tolerância activa, do reconhecimento da profunda ignorância que temos - cada um acerca de si, acerca dos outros e do mundo em geral - e da responsabilidade de conhecer-se e cuidar-se, de procurar “o sentido de uma vida boa, com e para os outros, em instituições justas” (e cito Ricoeur).





glossário de palavras muito amadas: * 4 - metamorfose

8 11 2005

Nascendo das palavras do quotidiano
# 1 - derrogação
# 2 - teoria dos jogos
# 3 - fazer a diferença
# 4 - humor
# 5 - livro
# 6 - opinião
# 7 - eufemismo
#8 - universidade
# 9 - metáforas

a ideia, passando pelo crivo de uma conversa, tornou-se em glossário de palavras mui amadas
* 1 - poesia
* 2 - aprender

* 3 - pensar
Faz sentido que hoje seja a metamorfose.
Metamorfose significa transformação, mudança de forma ou de estrutura - e tanto pode ser perspectivada a nível físico como psicológico, existencial ou espiritual -, geralmente profunda.
Metamorfosear significa mudar. Criar, recriar, inovar, ir além. Como se a metamorfose fosse fundamentalmente a mediação, o meio para e o território de. O processo pelo qual no casulo se vai germinando e transformando.
Podia falar de Kafka, ou de Nemésio, ou de Torga. Da metamorfose da formação, do poder, do conhecimento, da sabedoria dos vividos. Mas importa sobretudo o que trans-forma.




glossário de palavras mui amadas: pensar

16 10 2005

Em The Life of the Mind, Hannah Arendt analisou as três actividades que “não se podem derivar umas das outras e, embora tenham certas características comuns, não podem ser reduzidas a um denominador comum”.
Trata-se do pensar, do querer e do julgar.

Escolho, hoje, o pensar (que procura o sentido) e não deve ser confundido com o conhecer (que procura a verdade) - diferem, por três razões:
(1) a faculdade de pensar pode ser atribuída a toda a gente (não é privilégio de alguns, como o conhecimento);
(2) como lida com “invisíveis”, está fora da esfera do mundo de aparências em que nos movemos e não se pode esperar da faculdade de pensar a configuração de comandos morais (portanto, nenhum código de conduta) e,
(3) por mais que as formas de pensar possam estar em crise “a nossa capacidade de pensar não está em causa; somos o que os homens sempre foram – seres pensantes”.

Pensar não constitui prerrogativa de uns poucos mas uma sempre presente faculdade de toda a gente tal como a inabilidade para pensar é a sempre presente possibilidade.
Aliás, Heidegger alerta para a carência de pensamento – “hóspede inquietante” no mundo moderno –, distinguindo o pensamento que calcula e reclamando a recuperação da reflexão que medita. É necessário que o homem não rejeite aquilo que possui de mais próprio: o facto de ser um ser pensante.

Exactamente porque a característica mais saliente da vida do espírito é “ser eu próprio e ter relações comigo” (afirma Arendt), a principal característica das actividades mentais é a sua invisibilidade: nunca aparecem, embora se manifestem.
Mais diria (e ainda na companhia de Arendt), que o pensamento em si não traz grandes coisas à sociedade, não cria valor, não encontra a resposta para o que é o bem mas em momentos cruciais deixa de ser um assunto marginal, torna-se a aptidão para discernir o bem do mal, o belo do feio, etc… Trata-se, então, de manter acordado o pensamento. Por isso o apelo é para pensar, ousar pensar e confiar no seu juízo para reger a sua vida.

conversamos?!





glossário de palavras mui amadas: aprender

15 10 2005

Robert Liberace (Digital Learning)

Aprender… para mim, é sinónimo de libertar (por a-prender) embora, na realidade, a etimologia seja “apprehendere”, de adquirir e ficar sabendo. Estamos na área da instrucção, note-se, se considerarmos apenas os conhecimentos . Ou na da educação, se alargarmos ao sentido original da “paideia” grega.

Aprender liga-se ao novo, à descoberta, ao desconhecido assim como ao aperfeiçoar-se, desenvolver-se. Verdadeiro requisito do integrar em si, apropriar-se. Digo que tudo se aprende, e que as competências se treinam (naturalmente, os saberes suportam as competências). E que aprendemos com toda a gente, com qualquer pessoa: assim o queiramos e estejamos disponíveis.

Ligo-o também ao aprender-Se (aprender sobre si) pois que quem aprende, liberta-se progressivamente, vê por si mesmo para dentro e para fora de si. Daqui faço ponte do aprender ao interrogar-se e ao pensar pela sua cabeça (e o pensar será outra palavra deste glossário).





glossário de palavras mui amadas: poesia

14 10 2005
















(Geranium, foto de Steve Sowell)

A poesia brinca e joga com as palavras e com os significados e os sentidos… e cada qual escolhe a melhor forma de brincar. Há quem leia poesia como se fosse prosa de jornal, há quem queira «os conteúdos» ainda que não perceba as formas. Em arte, (e poesia, é-o) forma e conteúdo não podem ser separados ou tratados de forma distinta.
A busca pelo significado é, aparentemente, o motor que dirige qualquer leitura - vejo-o para alé, da mera explicação, da compreensão do conteúdo, mas como elaboração do pensamento de quem lê, a partir do escrito e do não-escrito que constitui qualquer texto, especialmente o poético.

Um poema, em primeira instância, lê-se e deixa-se absorver… E a mim, na generalidade, toca-me. Depois, pode ser possível questionar(-se) acerca das razões de estar disposto daquela forma, da escolha das palavras e do ritmo que elas provocam (as rimas, os sons). E provocam coisas diferentes em pessoas diferentes, claro.

Afinal, como se fosse um labirinto móvel, cada poesia tem uma forma nova de dizer, que inova e que ressurge, de forma criadora. Por isso a poesia não se presta ao aparente, ao imediato, à interpretação fácil.
Tenho aprendido que se ficamos diante da poesia como se fossemos detectives atrás dos sentidos ou dos significados, nos podemos esquecer do prazer, da possibilidade de ressonância do poema e da refiguração (e reconfiguração do dizer) que a poesia faz. Até porque nela e com ela se realiza o deslocamento de quem a lê. A poesia não é algo a dissecar ou um puzzle para tornar imagem - é uma forma estética de dizer e o dizer poético, liberto e libertador, faz de cada leitor um ser melhor. Ou mais profundo. Ou com mais ressonância.
Ademais, o dizer poético pode encontrar-se sem ser na poesia…