Archive for the 'poesia' Category

10 de Junho: no seu dia, sonetos…

10/06/2009

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Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra [...]

Poesia, sempre…

08/04/2009

Magnificat
Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? [...]

Este é o tempo

05/04/2009

Hands
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.
Sophia M.B. Andresen
Mar Novo, 1958

Poesia, sempre…. “Um rio de luzes”

22/02/2009

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Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca
No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido
Ana Hatherly

Poema de domingo

18/01/2009

Canção Mínima
No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

imagem aqui

Poesia, sempre…

02/01/2009

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Dualismo
Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de acções sublimes,
Não ficas [...]

poesia, sempre…

28/12/2008

Ladainha dos póstumos Natais
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e [...]

nestes dias

23/12/2008

Natal… de nascimento e de quadra festiva!
Mas também de solidão quando os discursos falam de família, de ruas apinhadas de gente onde alguns caminham sós, de diferenças que o diverso poder de compra desiguala mais. E tem algum desconforto, pelas assimetrias e os excessos…
Tem um sentido ambivalente do Natal, que podia ser quando um homem quiser, [...]

Poema do dia

14/12/2008

Em Dias de Luz Perfeita e Exacta
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer [...]

Poema de dia feriado: “Cântico Negro”

08/12/2008

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o [...]

efeméride do dia

23/11/2008

Nascido a 23 de Novembro de 1930, Herberto Helder é um poeta que dispensa apresentações.
Recusou o prémio Fernando Pessoa e escolheu viver de modo anónimo. O seu mais recente trabalho, lançado o mês passado, após sete anos sem edições e catorze anos sem inéditos,  “A Faca Não Corta o Fogo – súmula e inédita”, esgotou [...]

Ainda Sebastião de Alba

16/11/2008

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos [...]

Poesia, sempre

13/11/2008

A Sebastião Alba:
“Eu diria dos apátridas que somos
daquela pátria que nos sobra.
Diria daqueles que por amá-la
proscritos ficaram
proscritos morreram.
Diria do exorcismo de um povo
na beira-mar da aventura,
do medo que em nós germina,
da labareda do sonho,
do entardecer da agonia.
Diria da mordaça,
dos estropiados,
das flores precocemente emurchecidas
Diria também dos vagabundos
que nos calcorrearam
por dentro.
Diria ainda da História e [...]

… porque hoje é sábado

01/11/2008

evocando «O Dia da Criação», de Vinicius de Moraes.
I
(…)
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
II
(…)
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.
(imagem aqui)

Poesia, sempre…

27/10/2008

Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade
Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a [...]

Poesia do dia

27/09/2008

Astronomia
Contei os astros a dedo…
Agora, que estou no fim,
tenho medo
de ter errado na conta.
… De enganar-me em 1, por ter
contado também a mim.
Sebastião da Gama
grata pela oferta

Poema do dia

10/09/2008

Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o [...]

Poesia, sempre…

19/07/2008

Through many countries and over many seas
I have come, Brother, to these melancholy rites,
to show this final honour to the dead,
and speak (to what purpose?) to your silent ashes,
since now fate takes you, even you, from me.
Oh, Brother, ripped away from me so cruelly,
now at least take these last offerings, blessed
by the tradition of our [...]

este é o tempo…

29/06/2008

Trouxe-o de Outro Olhar:
“Este é o tempo
da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.”
Sophia de Mello Breyner,
Mar Morto (1962)
E se hoje pudesse ser o tempo em que se revoltam? se [...]

Poesia, sempre…

15/06/2008

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de [...]

Poesia, sempre…

12/06/2008

De tudo ficam três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando…
A certeza de que precisamos continuar…
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar…
Portanto, devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo…
Da queda, um passo de dança…
Do medo, uma escada…
Do sonho, uma ponte…
Da procura, um encontro…
Fernando Pessoa
(imagem aqui)