Poesia, sempre…

17 12 2007

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Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!…

Alberto Caeiro





poesia, sempre…

9 12 2007

Soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.


Vinicius de Moraes





poesia, sempre…

29 11 2007

Quando digo o nome do mar não é do mar
que digo o nome, mas de tudo o que
antes e para lá do mar ficou
em sobressalto nos perigos da sua travessia.

Aprendi isso em lugares raros,
como o último silêncio, a última gota

de água ou de mel.


Francisco José Viegas





poesia, sempre…

18 11 2007

 

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Nuno Júdice





poesia, sempre…

11 11 2007

É no momento que encerra a beleza de um gesto

que se prolonga a vida -

Na carne afeiçoada à mão apagam-se os sinais

de antigas fogueiras: o dilúvio do amor

veio lavar as cicatrizes deste mundo; e as pregas

de um rochedo que desafia o génio das marés

não lembram mais do que uma colcha amarrotada.

Agora pode pintar-se o retrato do vento

no esquadro da janela. O tempo não mexe.

A vida, por um instante, é enorme.

Maria do Rosário Pedreira

O Canto do Vento nos Ciprestes

(imagem aqui)





poesia, sempre…

4 11 2007

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Tenho sofrido poesia

como quem anda no mar.

Um enjoo.

Uma agonia.

Saber a sal.

Maresia.

Vidro côncavo a boiar

Doi esta corda vibrante

A corda que o barco prende

à fria argola do cais

Se uma onda que a levante

vem logo outra qua a distende.

Não tem descanso jamais.

António Gedeão, Vidro côncavo

Graças a Pólvora Negra





Poesia, sempre…

23 10 2007

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RUMOR

Acorda-me,
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.

A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive.

Talvez nada.
Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.

Mas não pode voar.

Eugénio de Andrade





poesia, sempre…

14 10 2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não digas ao que vens. Deixa-me

adivinhar pelo pó nos teus cabelos

que vento te mandou. É longe a

tua casa? Dou-te a minha: leio nos

 

teus olhos o cansaço do dia que te

venceu; e, no teu rosto, as sombras

contam-me o resto da viagem. Anda,

 

vem repousar os martírios da estrada

nas curvas do meu corpo - é um

destino sem dor e sem memória. Tens

 

sede? Sobra da tarde apenas uma

fatia de laranja - morde-a na minha

boca sem pedires. Não, não me digas

quem és nem ao que vens. Decido eu.Maria do Rosário Pedreira





Poesia, sempre…

13 09 2007



Regressámos ao anonimato
mais leves.
Mas é minha a muda inquietação
esse temor
da armadilha do cinismo.

A noite contempla-nos
despojados de sonhos
e, tu disseste
- tão próximas as estrelas –
tão longo o caminho para chegar a elas.

Maria Alexandra Dáskalos
Do Tempo Suspenso





poesia, sempre…

9 09 2007

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar…


Miguel Torga
Segredo, Diário VIII





Poesia, sempre…

4 09 2007


A verdade era bela,
como vinha nos livros.
À beirinha das águas
a verdade era bela.

Os que deram por ela
abriram-se e contaram

que a verdade era bela.

Quase todos se riam.
Os que punham nos livros

que a verdade era bela,

muito mais que os outros.

A verdade era bela
mas doía nos olhos

mas doía nos lábios

mas doía no peito
dos que davam por ela.

Sebastião da Gama





poesia, sempre…

3 09 2007

Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Tem maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.

Miguel Torga

(foto aqui)





30 08 2007

Mar,

Metade da minha alma é feita de maresia.

Sophia





Poesia, sempre…

30 08 2007


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia M. B. Andresen





do belo (nada) minimalista: haiku

24 08 2007


Este caminho

Ninguém já o percorre,

Salvo o crepúsculo.

Bashô Matsuo

O haiku (pela junção das palavras haikai e hokku) deriva duma forma anterior de poesia, em voga no Japão entre os séculos IX e XII, designada por tanka; tinha 5 versos, de 5 e 7 sílabas, que tratavam temas religiosos ou ligados à corte. aqui





Poesia, sempre…

22 08 2007


Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão

(Foto e texto explicativo de DK - “Mt Togakushi, Nagano. Um dos lugares sagrados do xintoísmo, associado aos mitos de criação do Japão, e destino de peregrinação há mais de mil anos. O caminho íngreme que conduz aos cinco templos (Houkousha, Okusha, Hinomikosha, Chusha e Kuzuryusha) fica no meio de uma floresta densa, com árvores monumentais. Destaque para um caminho belíssimo ladeado de trezentos cedros com mais de quatrocentos anos”.)





poesia, sempre…

21 07 2007

Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,
lavrados com a prata e ouro da luz.
Os tecidos azuis e foscos e de breu
Que têm a noite, a luz e a meia-luz
Estenderia esses tecidos a teus pés
Mas eu, porque sou pobre, apenas tenho sonhos;
são os meus sonhos que eu estendi a teus pés;
Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.

Yeats





Poesia, sempre…

10 07 2007

I

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que não foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
(…)
Vai, vai, vai, disse a ave; o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um fim, que é sempre presente.

T.S.Eliot





Poesia, sempre…

23 06 2007



A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Fernando Pessoa
Toda a Poesia aqui





poesia, sempre…

17 06 2007










Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem retorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Confidência, Mia Couto