utilização das distâncias: a proxémica
30 01 2005Hall admite a existência de diversas personalidades situacionais num mesmo indivíduo, no decurso dos diferentes tipos de relações (íntimas, pessoais, sociais e públicas), em função da gestão do espaço, da distância, ou melhor, da proxémica.
Na distância pública (3,60 - 7,50m e mais) , ao nível da percepção, existe uma visão global mas afastada do corpo e sem se observar pormenores da cara. As particularidades comportamentais são a voz elevada e o discurso formal - estamos perante circunstâncias oficiais ou conferências, num «ver de longe».
Na distância social (1,20-3,60m) há uma sensação mais nítida da presença corporal do outro, a necessidade de manter o olhar para manter o contacto. As particularidades comportamentais são a voz ligeiramente elevada e a impossibilidade de ter um controlo físico sobre o outro.
É a distância de trabalho entre muitas pessoas, sem desconforto nem indelicadeza, a distância de reuniões. Noto, por exemplo, que os auditórios e as salas de aula apresentam a «mesa do professor» a uma determinada distância da primeira fila.
Na distância pessoal (45cm - 1,20) há uma impossibilidade de uma visão global do corpo do outro e a percepção precisa do rosto. A particularidade comportamental decorre de existir a possibilidade de ter controlo sobre o outro.
É a distância dos contactos próximos ou íntimos e de conversa sobre assuntos pessoais.
A utilização da distância pessoal pode ser ambígua - por um lado, aumenta a percepção da presença (é perceptível a intensidade do olhar, as variações da voz, a respiração, a expressão facial) e pode favorecer a relação; por outro lado, pode provocar uma sensação de mal-estar, irritação, afastamento ou ansiedade, dependendo da relação entre os intervenientes.
Na distância íntima (contacto - 45 cm) a visão é muito próxima e “deformada” (nariz alongado, aumento da íris…) e junta-se a percepção do cheiro, do calor da pele, do ritmo respiratório. As particularidades comportamentais são a voz baixa ou murmúrio, a comunicação não verbal transmitida na palavra e o contacto físico ou a sua eminência domina provavelmente a consciência dos envolvidos. As circunstâncias são de reconforto ou protecção, de acto sexual ou de luta. Esta distância favorece a proximidade afectiva - os gestos de cuidado situam-se na esfera da distância íntima. Está descrita a sensação de desconforto e desagrado quando esta distância é «quebrada» por desconhecidos (como numa carruagem muito cheia do Metro…).
A proxémica é influenciada pelas dimensões sociais, culturais e individuais, naturalmente.
Tocar as pessoas implica quebrar os limites territoriais do outro lado - que são fluidos e pessoalizados.
Às vezes, com gente que fala «muito em cima», sentimo-nos como que agredidos no espaço pessoal.
Assim como com pessoas que mal conhecemos e que nos tocam, nos «batem» com uma familiaridade inexistente e cega.
Se para mim a distância íntima pode ser agradável no diálogo com uma pessoa, pode ser potencialmente agressiva e ameaçadora ou simplesmente desagradável com outra.
Quem diz para mim, diz para qualquer um…
A consciência do espaço e a gestão da distância são ferramentas de trabalho - existe uma proxémica adequada para informar, admoestar, advertir, tocar.
Aliás, passar-se-ia daqui aos tipos de toque com imensa facilidade. Mas não agora…
Hoje, agradeço mentalmente às duas estudantes que me fizeram reler Hall e deixo-me a pensar na proxémica, sendo certo que cada um procura preservar a integridade do seu espaço.
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