formas e representações

9 01 2008

É sempre interessante ler quando outros escrevem sobre uma das figuras que preferimos. Espiral, é.

E representa quê? entre outras coisas, o desenvolvimento em ascensão. O «círculo hermenêutico» é muito mais uma espiral que um círculo. A espiral sobre (e ou desce) em retorcer-se sobre si. O sinuoso do que se mantem em torno de um eixo, ainda assim, que quase regressa ao mesmo local, reencontrando proximidade nesse retorno.

Pensar numa espiral tanto traz a (dupla) hélice do ADN como os redemoinhos e tornados ou os círculos dos ninhos dos pássaros. Traz os celtas e o mistério da vida. Traz os astecas e o ciclo do sol. Traz os hindus e a kundalini, fluxo de energia em espiral. Traz Arquimedes e a matemática. Evoca o crescimento das conchas e das pinhas. Relembra galáxias e escadas. Traz o Nautilus, caso raro entre os do seu género, que cresce em espiral logarítmica. Recorda Descartes e o modelo de crescimento contínuo sem modificação de estrutura. Recorda a sequência de Fibonacci e as noites de insónia de Einstein.

Como todas as representações, vive das dimensões de metáfora, de analogia, de abstractos, de apresentação próxima ao real, do imagético e do recriado. A forma, essa, é mais regular.





símbolos

7 08 2007

Nos ribeiros e riachos, junto a edifícios e nos terrenos dos templos, nadam tranquilamente as carpas - e eu pensava-as mais pequenas…

Dizem os japoneses que as carpas coloridas representam “jóias vivas que nadam”.
Curiosamente, a carpa é símbolo de masculinidade - a 5 de Maio, Dia das Crianças (hoje assim considerado, mas de tradição o Dia dos Meninos), acontece o Koi Matsuri (Festival das Carpas), em que figuras de samurai são exibidas em casa e carpas feitas de tecido ou de papel são postas a voar ao vento, atadas a postes ou corda. São os Koi Nobori e representam o desejo da família de que os meninos se tornem tão vigorosos quanto as carpas, capazes de nadar teimosamente contra a corrente. (por causa da referência ao Dia dos Meninos, devo dizer que existe ainda o festival da infância Shichi-Go-San (Sete-Cinco-Três), a 15 de Novembro, e o Hina Matsuri (Festival das Bonecas), a 3 de Março, dedicado à felicidade das meninas pequenas).

Diz a lenda que uma carpa nadou rio acima, contra a correnteza e galgando cascatas, e quando chegou ao topo, transformou-se num dragão.
Acredita-se que as carpas trazem sorte e sucesso na vida, e como podem nadar contra a corrente simbolizam perseverança e valentia. Dir-se-ia que os atributos que a carpa representa são virtudes guerreiras - força, persistência, coragem e sucesso. Todavia, o simbolismo associado às carpas inclui a sorte e o amor (Koi, em japonês, significa carpa mas também paixão, amor - para o qual os japoneses também teêm a palavra ).

Ficam as fotos - as que eu fotografei, e a que a DK enviou - obrigada :).
E o post, de conversa geral, e especialmente, para quem aprecia peixes e sabe de carpas.





de símbolos… e de Jung

11 03 2007

O pensamento simbólico é a marca distintiva mais específica da condição humana e resulta de uma transformação que se insere no processo de hominização. Aristóteles afirmava que não se pensa sem imagens…

Carl Gustav Jung afirmou que os símbolos são fruto do inconsciente e apontou a estreita relação dos símbolos mitológicos com os símbolos dos sonhos, assinalando a forte probabilidade de grande parte dos símbolos históricos provir directamente dos sonhos ou por eles ter sido estimulada. Já Freud referira que o simbolismo dos sonhos não pertence propriamente ao sonho, mas às representações inconscientes do povo, surgindo numa forma mais perfeita nos mitos, lendas e ditos espirituosos.

Além da mitologia cultural há referências à mitologia pessoal - e parte desses mitos pessoais vêm à tona nos sonhos, devaneios, sensações corporais, jogos, paixões, lapsos verbais, rituais, música, dança, escrita, desenho e pintura espontânea.

“Um símbolo não traz explicações; impulsiona para além de si mesmo na direção de um sentido ainda distante, inapreensível, obscuramente pressentido e que nenhuma palavra de língua falada poderia exprimir de maneira satisfatória” (Jung).

Figuras sintéticas, substitutivas de coisas conhecidas não são símbolos - são sinais. É o caso das asas estampadas na roupa dos aviadores.

Representações figuradas de objetos ideais ou materiais não são símbolos - são alegorias. É o caso da justiça representada por uma mulher de olhos vendados.

Os símbolos, segundo Jung, são a expressão de coisas significativas para as quais não há, no momento, formulação mais perfeita. Como a imagem da caverna, descrita por Platão, onde os homens acorrentados vêm o movimento de sombras que tomam por reais, sem se darem conta de que desconhecem a verdadeira realidade. Por isso, os símbolos são mediadores, de linguagem universal e muito rica, capaz de transmitir através de imagens…





preparados para a diversidade?…

25 06 2006


Há gente que utiliza o Ankh, pendurado ao pescoço. E, sendo certo que alguns não conhecem o significado do que usam, muitos portam significado ao que trans-portam consigo.

O Ankh é um símbolo antigo, que se reveste de uma variedade de significados. Desde a imortalidade e da crença que a vida nunca acaba, passando pela fertilidade (pelo grafismo de representação de «chave do Nilo») e símbolos feminino e masculino (Osiris e Isis, a união de céu e terra), até à grandeza do homem, de braços abertos para o universo. Centralmente, é um símbolo (chave) de Vida.

Preparados
para a diversidade?





caminhos de um mito

4 08 2005


Faz mais de uma década que passámos (eu e dois colegas), quase um ano às voltas com o Sebastianismo - por interesse intelectual, que acabou num evento de História das Ideias Europeias. A efeméride de hoje fez-me voltar a esses caminhos, de uma ideia messiânica, que acredita no advento de um Salvador que nos libertará…

À fé no regresso do desaparecido D. Sebastião juntou-se um conjunto de temas retomados em contextos de crise política. O Mito do Encoberto veio de Gonçalo Anes (o Bandarra), caminhando até ao século XX, com um momento alto na ideia de um «Quinto Império» e no entrosar dos temas e das ligações históricas, políticas e bíblicas.

A ideia de “há-de voltar numa manhã nevoeiro, montado num cavalo branco” garante uma visibilidade difícil… e na Madeira, há uns anos, mostraram-me o monte onde o povo diz que está guardada a espada.
Contos e histórias… que trazem ou reflectem desejos de libertação e de grandeza, os traços saudosistas (ah, a saudade como tema português) e aparece em textos de Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes e, naturalmente, Fernando Pessoa.

Aprecio o «link» que associa o mito sebastianista às lendas arturianas.
E reinterrogo se não houve uma etapa sabastianista nacional, na queda de um avião, nos inícios da década de 80. Aliás, até podia reinterrogar hoje… ou não?!…





detalhes

3 08 2005

Gosto de castelos.
De muralhas e torres de menagem.
De portas e brasões, deixando a marca do tempo.
E assinalando a história.
Como as marcas de côvado.
Ou os relógios de sol.
Detalhes.
Por vezes, quase insignificantes, que passam despercebidos a um olhar mais desatento.
Mas estão e permanecem além do tempo em que surgiram - para além do seu próprio tempo.

Pode ser metáfora para outras ideias, este permanecer para além





dos significados: as cores

30 06 2005

O template está fixado, por ora.

Se as cores têm significado (escuso-me agora, mas a cromoterapia é uma área interessante!) , o castanho junta a vitalidade revigorante do vermelho e o equilíbrio relaxante do verde. Côr da terra, raízes e troncos, da solidez. Vigor e fortaleza de espírito, ligada a projectos e a serenidade.

A imagem do ilhéu de árvores, no meio da água, quer juntar um colectivo que se reúne enquanto se separa… e junta-se pelos interesses, pela partilha, pela conversa.
O verde reflecte participação, adaptabilidade e generosidade. Dizem os entendidos que amplia a compreensão e é a cor mais harmoniosa e calmante de todas.
A água, do azul e do espectro frio, associa-se à paz e à confiança, favorecendo as actividades intelectuais e a reflexão.

Assim, porque procurar sentidos faz sentido, se reuniram os elementos gráficos e se renovam, na mudança, os desejos de conversa.





The Coming of Light

5 05 2005

Even this late it happens:
the coming of love, the coming of light.
You wake and the candles are lit as if by themselves,
stars gather, dreams pour into your pillows,
sending up warm bouquets of air.
Even this late the bones of the body shine
and tomorrow’s dust flares into breath.

in The Story of Our Lives
Mark Strand

If a man lets his poems go naked, he shall fear death.
If a man fears death, he shall be saved by his poems.
If a man does not fear death, he may or may not be saved by his poems.
Mark Strand


http://www.mipoesias.com/Volume19Issue2/strand.html





olhares

8 04 2005

… devo ter um “problema” com as formas e os desenhos…

Há uns dias, a filha de uns amigos tinha um casaco com uma forma bordada.
“Gira, a borboleta!”, disse eu.
E a catraia respondeu-me, com estranheza: “Não é uma borboleta, é a cabeça de um urso!”

A imagem que coloco abaixo, para mim, continua a ser uma fonte de dificuldade e serve de exemplo paradigmático - há uns (muitos) anos, apareceu o cartaz
- estranho, este cartaz, com dois dentinhos, disse eu
- dentinhos???!!!
- mais precisamente dois em cima e dois em baixo!
- tu não vês o morcego?!
- qual morcego?! - eu só via os “dentinhos”…
Hoje olho e tenho de fazer um esforço para ver o morcego… gosto mais de ver os dentinhos!


dois dentinhos Posted by Hello

… pode ser que tenha um “problema” com o que identifico ao olhar …
mas faço analogia com a recusa em ver cenários apenas e totalmente negros.
Há sempre uma perspectiva diversa, que pode iluminar algo positivo.
Em qualquer imagem de morcego, estão lá também os dentinhos…





19 03 2005


Ohelo flowers Posted by Hello





dos gregos até nós

11 02 2005


Charyatids Posted by Hello

Os gregos acreditavam que o ser humano era o modelo ou a unidade básica das coisas - e isto é evidente na sua escultura.
A figura humana é forte e direita, vertical - indicando a relação com o erecto, o ordeiro, o firme, o seguro de si, o belo.
Por isso, aparecem muito como colunas, um elemento predominante na arquitectura dos templos gregos. A coluna representa o ser humano e o ser humano representa a vida, o intelecto e o espírito humano.
Daqui, a ilacção que os gregos dedicavam, os templos não apenas aos deuses mas também à ideia de ser humano. Aliás, os deuses eram antropomórficos, também eles à imagem do ser humano.

E tal como cada coluna contribui para suportar a estrutura, assim cada ser humano contribui para a comunidade como um todo.





símbolos

11 01 2005



Origami - Logo do Congresso do ICN, 2005 Posted by Hello

Há símbolos profissionais de enfermagem para os quais tenho pouquíssima (nenhuma, em abono da verdade) tolerância. Não lhes vejo utilidade, transmitem-me estereotipos desadequados (podiam ser adequados!) e mensagens que pervertem o sentido da relação com os clientes/utentes/doentes.

Dois exemplos:

- a seringa com a agulha em riste, qual espada brandida em ameaça, habitualmente às crianças (”se não te portas bem, levas uma pica”) com duplos e triplos inconvenientes. Como é que se explica à criança que uma vacina é “uma pica para não ficar doente”, se a tal seringa e agulha destapada tem precocemente uma associação punitiva?! além de dolorosa…

- a senhora vestida de branco, com quepe, de ar severo e com o indicador esticado sobre os lábios, num imperativo sinal de silêncio. Porque é que quem impõe silêncio está trajada de enfermeira?!

Felizmente, vão desaparecendo…

Este ano, o Congresso do ICN (International Council of Nurses) tem um logo inspirador..

Confesso: gostei muito do Origami da sua sequência…

(aqui, apresento a versão espanhola, mas podia ser outra…)

Numa profissão de prestar cuidado, na saúde e na doença, ao longo do ciclo vital, que parte de uma relação interpessoal para a promoção de projectos de saúde de cada um, a simbologia não é de menor importância. Pois não? Ou será?!!





mãos

3 01 2005

Posted by Hello

Olhei a foto das mãos.

É conhecida a expressão: “a mão que embala o berço, governa o mundo”.

No nosso tempo, sabemos que tem notas contraditórias:

as mãos que hoje, muitas vezes, não embalam o berço

(e vejam-se os indicadores da pediatria)

e as mãos que, embalando o berço, desgovernam o mundo…

Mas voltei a ler há uns tempos «A mão e o espírito» de Jean Brun.

E prevalece a valorização das mãos.

Mão que embala, que educa, que protege para diante. Da mãe ou do pai, preferencialmente, de ambos.

Revejo a mão como símbolo de apoio, de suporte, de elevação.

A mão de onde se parte para…

A mão que sustenta e que se une, que liga e mantem.

A mão, brevemente dada, sobre uma colcha branca, nisto de ser enfermeira, de procurar um aconchego que se expressa sem palavras.

De um «estou aqui» que fala silenciosamente. Com as mãos.





Caminhos, ainda e sempre

2 01 2005

Path Forest



Posted by Hello

Já afirmei (diversas vezes) que gosto muito da metáfora e da imagem dos caminhos…

Paixão assolapada como outras (como por etimologia e semântica, enfermagem e filosofia, etc, etc…)!

Neste início de ano, faz-me sentido re-olhar a ideia.

Trajectos, percursos, rotas, trilhos… encaixam, numa palavra, o triplo sentido:

(1) da ideia de passagem para trás (o percorrido) e para diante (a percorrer) assim como o presente (ir percorrendo);

(2) da direcção ou tendência pois não basta caminhar, é preciso saber com que rumo e em que sentido; por isso, se aninha aqui a ideia de escolha, de opções que podem ser de longa, média ou curta duração;

(3) finalmente, da forma de proceder, por caminhos conhecidos ou inusitados, abertos ou inexplorados; o maior ou menor apetite pelo desconhecido ou pelo pouco percorrido.

Caminhantes, somos todos, de alguma forma.

Muitos caminham ao acaso, vagueando por onde calha; outros têm um rumo tão pré-definido que não admite modificações.

Nem uns, nem outros me atraem - uns pela contínua dependência do contingente e ocasional; outros, pela rigidez de visão e pela in-flexibilidade.

Acresce que os caminhos - e aqui sigo literalmente A. Machado, embora toque o domínio da banalidade - se fazem ao caminhar…