Primavera

21 03 2008

A Páscoa sempre representou a passagem de um tempo de trevas para outro de luzes - aliás, a palavra significa exactamente “passagem”, uma transição anunciada pelo equinócio de primavera que, no hemisfério norte, ocorre a 21 de Março. A data foi fixada durante o Concílio de Niceia, em 325 d.C, como sendo “o primeiro domingo após a primeira Lua Cheia que ocorre após ou no equinócio da primavera boreal, adotado como sendo 21 de Março”.

A Primavera representa a renovação cíclica e rejuvenescimento.Associa-se habitualmente ao desabrochar das flores.

Ligo-a igualmente a um texto de Cecília Meireles:

Primavera

“A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.”

Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1
Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.





Pensamento do dia

11 04 2007


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O tempo pediu ao tempo
que tempo, o tempo lhe desse,
para fazer, como o tempo,
tudo que o tempo quisesse.
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Provérbio cigano





(di)vagação a pensar (n)o tempo…

4 02 2007

O tempo escorre, de um modo quase fluido demais.
Quando se dá conta, passaram, não apenas dias, mas semanas e meses.
Nada como um aniversário de alguém próximo para fazer «contas ao tempo» e rever, nesse exercício, a própria passagem do tempo nas relações…
E enquanto o tempo (de)corre e o (re)vemos, não se trata, já, de tempo vivido mas de tempo pensado.

Claro que o tempo pode ser organizado e analisado sob diferentes enfoques, em dois grandes campos: o do tempo vivido (campo onde os teóricos incluem o tempo mítico, o cíclico e o tempo da natureza) e o do tempo pensado.
Parece-me evidente, ainda que nele os autores nem falem, que existe um tempo de premência de um entendimento pessoal, onde o vivido e o pensado se encontram…

Na música, o tempo é organizador do acontecimento sonoro - ou seja, do espaço entre um som e o que se lhe sucede; e assim, a duração constitui-se, também, com sons e pausas (silêncios). O tempo define quando a música começa a existir e quando termina, aglutinando os conceitos de tempo e as ideias de ritmo e de andamento.
Às vezes, pensamos o tempo assim: como definidor da distância e quantidade entre um acontecimento e outro, um conceito cabível também no tempo musical.
A música - como a vida? - ou a vida - como a música? - depende do tempo para existir. Se o tempo parasse não seria possível nenhum evento (nem sequer o som, que precisa de uma vibração a ocorrer num intervalo de tempo…).
Para ser considerado existente, precisa-se do tempo ocorrente, com um início e, necessariamente, com um final. E ao olhar o tempo decorrido, percebem-se as transições, na duração.
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Distingamos o tempo que há na vida e o tempo que a vida é.
Na vida está o tempo da física, da astronomia, da teoria da relatividade - um tempo que está na vida, do mesmo modo que os objectos reais, ideais e os valores estão na vida. Neste tempo, o passado produz de si o presente e vai criando o futuro - que aparece como resultado do passado e do presente; conclusão de processo(s) começado(s).Tempo pensado, não é o tempo que constitui a vida em si mesma.

Se se imagina ou pensa um tempo que começa pelo futuro e para o qual o presente seja a realização do futuro (para o qual o presente seja um futuro que vem ser) ou, como afirma Heidegger, um “futuro sido”, esse é o tempo que a vida é.
Porque a vida tem isto de particular: quando foi, já não é. Quando passou e está no pretérito, transforma-se em algo solidificado, fixado.A vida, tão logo é (foi), deixa de ser.

Por isso o tempo vital, o tempo existencial em que consiste a vida, é um tempo no qual aquilo que vai ser está antes daquilo que é, aquilo que vai ser traz aquilo que é. Parece complicado?
Heidegger quase o faz parecer simples: o presente é um “sido” do futuro.
É um “futuro sido”
, o que nos faz ver a vida essencialmente como tempo.
Mais, como tempo no qual a vida, ao ir sendo, caminha à procura da vida.
O rasto dos caminhados vemos quando olhamos para trás no tempo.
Faz sentido?!….

Imagem: B. O’Neil, Beneath the willow





Pensamento do dia

28 01 2007

O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.

M. Quintana





Do Tempo: Kronos e Kairos

2 11 2006

Tempo… nas dimensões de KRONOS e de KAIROS, as duas palavras gregas para designar o tempo.

Kronos é o tempo mensurado, com dias, meses e anos. É finito, metódico, controlado, igual para todos. É o tempo linear, que cobramos aos outros e do qual dizemos que «tempo é dinheiro». É o tempo do calendário, o tempo do relógio.

Kairós significa “o momento certo ou oportuno”. Quando estamos totalmente absorvidos e vivemos no momento presente, sempre que nos sentimos apaixonados pelo que estamos a fazer ou pelas pessoas com quem estamos, empenhados, absorvidos, vivemos no Kairos.
Kairós é o tempo que alimenta a alma.
Como dizia T.S.Elliot, escutamos música tão profundamente ouvida que nem é ouvida, mas somos nós a música enquanto dura a música

Enquanto o kronos é um tempo espacializado e objetivo, o kairos (afirmava Lévinas), é um tempo significativo segundo um horizonte de sentido.





que horas são?… onde?

8 10 2006

Fica estranho, isto de ter gente em diferentes fusos horários e ter de pensar que horas são… lá!

Uma boa informação técnica diria que se entende por fuso horário cada uma das 24 partes em que se divide a Terra tendo em atenção os meridianos das longitudes. A cada fuso corresponde 1 hora e tem 15 graus de amplitude resultantes da divisão dos 360 graus de um círculo pelas 24 horas do dia.

O Tempo Universal Coordenado funciona como charneira (UTC zero) na definição dos fusos horários - é o nosso caso, pois o fuso UTC abrange o Meridiano de Greenwich e a sua área contém cidades como Londres e Lisboa, mas só durante o Horário de Inverno (no Verão será UTC +1) . Para a direita (para leste) do fuso UTC os relógios aumentam 1 hora por cada fuso horário - para ocidente dá-se o inverso com o atraso de 1 unidade na Hora.

Mas a constituição dos fusos horários não é tão linear assim - os países, os povos, modificam-nos à sua maneira, aderindo ou não aos horários de Verão e de Inverno. Por exemplo, no Brasil consideram-se 4 fusos horários, desde o UTC–2 de Fernando de Noronha ao UTC–5 do Estado do Acre passando pelo UTC –3 da capital Brasília.

Nestas alturas, percebo quem coloca vários relógios à mão…





gerir o perecível

27 09 2005

(fonte imagem aqui)

O tempo…

ou como reduzir a procrastinação

1 - Definir a tarefa em causa e tomar uma decisão informada (sugestão: listar vantagens e desvantagens do adiamento e tomar consciência da escolha).

2 - Identificar as diversões e as estratégias de evitamento pessoais (isto é, conhecer-se), tomando consciência delas. E até ser capaz de dizer: «lá estou a adiar…»

3 - Estabelecer objectivos claros e realistas, específicos e próximos no tempo (por exemplo, ler hoje à tarde o capítulo e fazer síntese), em vez dos inalcançáveis, que dissuadem de continuar.

4 - Estabelecer prioridades - colocar as distracções e tarefas mais agradáveis para o fim - depois de distinguir o urgente e o importante.

5 - Segmentar as tarefas em partes mais manejáveis (menos desagradáveis e mais alcançáveis).

6 - Monitorizar-se e valorizar os progressos. Controlar os maiores focos de tentação (telefone, internet, reuniões intermináveis…)

7 - Organizar-se - criar uma área de trabalho minimamente organizada, prestando atenção às condições de luminosidade, de temperatura, de alimentação, de sono e de fadiga.

8 - Saber de si e do que quer - tanto a altura do dia em que é mais produtivo, como dos seus valores e intenções, as expectativas. Saber dizer que não, inclui-se aqui.Tomar decisões honestas também.

9 - Registar as tarefas - usar agenda, anotar datas-limite, colocar post-its no frigorífico, verificar onde é que se está a despender demasiado tempo…

10 - Dedicar tempo ao ócio - à própria procrastinação, ao “dolce fare niente”.

11 - Usar a técnica dos 15 Minutos: comprometer-se apenas a 15 minutos de trabalho nas tarefas adiadas. E depois, parar (se conseguir, que ao fim desse tempo, muitas vezes, a tarefa entusiasmou) e fazer outra coisa 15 minutos. A questão é de começar a tarefa que se pretende evitar com o compromisso dos “15 minutos”.

12 - Reduzir os níveis de ansiedade - pedir ajuda ou solicitar apoio, delegar e partilhar.

conversamos?!





Carpe Diem!

4 06 2005
Recebi, de mail, uma mensagem interessante.

Imagina que existe um banco, que todas as manhãs adiciona à tua conta 86.400$.

Esse estranho banco, ao mesmo tempo, não transfere o teu saldo de um dia para o outro: todas as noites apaga da tua conta o saldo que não gastaste.
Que farias?
… Imagino que retirarias todos os dias a quantidade que não tinhas gasto, não?
Pois bem: todos nós temos esse banco: … o seu nome é tempo.
Todas a manhãs, esse banco adiciona à tua conta pessoal 86.400 segundos.
Cada noite esse banco retira da tua conta e dá como perdida qualquer quantidade desse saldo que não transformaste em algo proveitoso.
Este banco não arrasta saldos de um dia para o outro, não permite acumulações.
Todos os dias abre-te uma nova conta.
Cada noite elimina os saldos do dia anterior.
Se não utilizas o teu saldo diário só tu tens a perder, não tens uma segunda hipótese de utilizares o que sobra.
Não existe reforço do saldo diário: deves viver o presente com o saldo de hoje.
Por isso, um bom conselho é que deves utilizar o teu tempo de forma a obteres o melhor em saúde, felicidade e êxito.
O relógio segue a sua marcha…
Utiliza o máximo do teu dia.”

Foi nesta altura que me lembrei de «Carpe Diem!»
E, em sequência:
de Horatio, claro, pai da célebre locução latina.

Carminum I, 11 («Carpe diem»)
No pretendas saber, pues no está permitido,
el fin que a mí y a ti, Leucónoe,
nos tienen asignados los dioses,
ni consultes los números Babilónicos.
Mejor será aceptar lo que venga,
ya sean muchos los inviernos
que Júpiter te conceda,
o sea éste el último, el que ahora hace
que el mar Tirreno rompa
contra los opuestos cantiles.
No seas loca, filtra tus vinos
y adapta al breve espacio
de tu vida una esperanza larga.
Mientras hablamos, huye el tiempo envidioso.
Vive el día de hoy. Captúralo.
No fíes del incierto mañana.
http://www.ciudadseva.com/textos/poesia/horacio.htm

de Shakespeare

Carpe Diem

O mistress mine, where are you roaming?
O stay and hear! your true-love’s coming
That can sing both high and low;
Trip no further, pretty sweeting,
Journey’s end in lovers’ meeting-
- Every wise man’s son doth know.

What is love? ’tis not hereafter;
Present mirth hath present laughter;
What’s to come is still unsure:
In delay there lies no plenty,-
- Then come kiss me,
Sweet and twenty,
Youth’s a stuff will not endure.
http://www.poemhunter.com/p/m/poem.asp?poet=3069&poem=32789

e de Robin Williams na personagem do professor, Mr. John Keating

KEATING: “They’re not that different from you, are they? Same haircuts. Full of hormones, just like you. Invincible, just like you feel. The world is their oyster. They believe they’re destined for great things, just like many of you. Their eyes are full of hope, just like you. Did they wait until it was too late to make from their lives even one iota of what they were capable? Because you see gentlmen, these boys are now fertilizing daffodils. But if you listen real close, you can hear them whisper their legacy to you. Go on, lean in.”
The boys lean in and Keating hovers over Cameron’s shoulder.
KEATING (whispering in a gruff voice): “Carpe.”
Cameron looks over his shoulder with an aggravated expression on his face.
KEATING: “Hear it?” (whispering again) “Carpe. Carpe Diem.

Seize the day boys, make your lives extraordinary.”
“The Dead Poet’s Society” script

Deixo-os aqui.
E reconheço o tom entre o hedonista e o dramático da expressão.
Cada dia como exemplo do limite - e do que não se sabe se se chega a ter por inteiro…





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1 05 2005

“O tempo verdadeiro nunca seria revelado por meros relógios - disso tinha Newton a certeza. Até mesmo a obra-prima de um mestre relojoeiro apenas poderia oferecer pálidos reflexos do tempo absoluto, mais elevado, que não pertencia ao nosso mundo humano mas ao «sensório de Deus». Newton acreditava que as marés, planetas, luas - tudo o que, no Universo, se movia ou mudava - o faziam sobre o pano de fundo universal de um ínico rio do rempo, que se escoava com velocidade constante. No mundo electrónico de Einstein não havia lugar para um tal «tiquetaque universalmente audível», a que podemos chamar tempo, nem forma de definirmos com algum significado o tempo, a não ser em relação a um sistema definido de relógios interligados.
O tempo escoa-se a velocidades diferentes em dois sistemas de relógios se um deles estiver em movimento em relação ao outro: dois acontecimentos simultâneos para o observador de um relógio que se encontre em repouco não são simultâneos para um observador que esteja em movimento A palavra «tempos» substitui a palavra «tempo». Com esse choque, no sólido fundamento da Física de Newtoin abriu-se uma brecha. Einstein sabia-o.
(…)
Para se falar de tempo, de simultaniedade a uma certa distância, temos de sincronizar os nossos relógios. E se queremos sincronizar dois relógios, tem de se iniciar a contagem de tempo com um, emitir um sinal luminoso para o outro e acertar este tomando em conta o tempo quue o sinal luminoso demorou a chegar. Poderia haver algo mais simples? Contudo, com esta definição procedimental do tempo, encaixou-se no seu lugar a última peça do quebra-cabeças da Relatividade, modificando a Física para todo o sempre. Este livro é sobre esse procedimento de coordenação dos relógios. Embora parecendo simples, o nosso tema, a coordenação de relógios é, ao mesmo tempo, uma abstracção sublime e algo de tão concreto como um produto industrial.

Peter Galison - Os Relógios de Einstein e os Mapas de Poincaré. Impérios do tempo.
Lisboa: Gradiva, 2005. p. 13/14.