do coração



coração Posted by Hello

Sempre que olho estas figuras, lembro-me do simbólico e dos afectos.

De narrados e de vividos. De velas com esta forma, acesas aos pés de uma santa (num hospital, sim). E de alguns poemas.

Poema do coração



Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,

e também a Bondade,

e a Sinceridade,

e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.

Então poderia dizer-vos:

“Meus amados irmãos,

falo-vos do coração”,

ou então:

“com o coração nas mãos”.

Mas o meu coração é como o dos compêndios.

Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)

e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).

O sangue ao circular contrai-os e distende-os

segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece

ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados,

e uma lâmina baça e agreste, que endurece

a luz dos olhos em bisel cortados.

Parece então que o coração estremece.

Mas não.

Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,

que esse vento que sopra e ateia os incêndios,

é coisa do simpático.

Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!

Vamos à lição!

Em quantas partes se divide o coração?



António Gedeão, Poesias Completas

utilização das distâncias: a proxémica

Hall admite a existência de diversas personalidades situacionais num mesmo indivíduo, no decurso dos diferentes tipos de relações (íntimas, pessoais, sociais e públicas), em função da gestão do espaço, da distância, ou melhor, da proxémica.

Na distância pública (3,60 – 7,50m e mais) , ao nível da percepção, existe uma visão global mas afastada do corpo e sem se observar pormenores da cara. As particularidades comportamentais são a voz elevada e o discurso formal – estamos perante circunstâncias oficiais ou conferências, num «ver de longe».

Na distância social (1,20-3,60m) há uma sensação mais nítida da presença corporal do outro, a necessidade de manter o olhar para manter o contacto. As particularidades comportamentais são a voz ligeiramente elevada e a impossibilidade de ter um controlo físico sobre o outro.

A distância social permite as trocas verbais mas o impacto do olhar fica diminuído e o contacto físico está interditado. Por outro lado, as mensagens de conteúdo afectivo são difíceis de transmitir.

É a distância de trabalho entre muitas pessoas, sem desconforto nem indelicadeza, a distância de reuniões. Noto, por exemplo, que os auditórios e as salas de aula apresentam a «mesa do professor» a uma determinada distância da primeira fila.

Na distância pessoal (45cm – 1,20) há uma impossibilidade de uma visão global do corpo do outro e a percepção precisa do rosto. A particularidade comportamental decorre de existir a possibilidade de ter controlo sobre o outro.

É a distância dos contactos próximos ou íntimos e de conversa sobre assuntos pessoais.

A utilização da distância pessoal pode ser ambígua – por um lado, aumenta a percepção da presença (é perceptível a intensidade do olhar, as variações da voz, a respiração, a expressão facial) e pode favorecer a relação; por outro lado, pode provocar uma sensação de mal-estar, irritação, afastamento ou ansiedade, dependendo da relação entre os intervenientes.

Na distância íntima (contacto – 45 cm) a visão é muito próxima e “deformada” (nariz alongado, aumento da íris…) e junta-se a percepção do cheiro, do calor da pele, do ritmo respiratório. As particularidades comportamentais são a voz baixa ou murmúrio, a comunicação não verbal transmitida na palavra e o contacto físico ou a sua eminência domina provavelmente a consciência dos envolvidos. As circunstâncias são de reconforto ou protecção, de acto sexual ou de luta. Esta distância favorece a proximidade afectiva – os gestos de cuidado situam-se na esfera da distância íntima. Está descrita a sensação de desconforto e desagrado quando esta distância é «quebrada» por desconhecidos (como numa carruagem muito cheia do Metro…).

A proxémica é influenciada pelas dimensões sociais, culturais e individuais, naturalmente.

Tocar as pessoas implica quebrar os limites territoriais do outro lado – que são fluidos e pessoalizados.

Às vezes, com gente que fala «muito em cima», sentimo-nos como que agredidos no espaço pessoal.

Assim como com pessoas que mal conhecemos e que nos tocam, nos «batem» com uma familiaridade inexistente e cega.

Se para mim a distância íntima pode ser agradável no diálogo com uma pessoa, pode ser potencialmente agressiva e ameaçadora ou simplesmente desagradável com outra.

Quem diz para mim, diz para qualquer um…

A consciência do espaço e a gestão da distância são ferramentas de trabalho – existe uma proxémica adequada para informar, admoestar, advertir, tocar.

Aliás, passar-se-ia daqui aos tipos de toque com imensa facilidade. Mas não agora…

Hoje, agradeço mentalmente às duas estudantes que me fizeram reler Hall e deixo-me a pensar na proxémica, sendo certo que cada um procura preservar a integridade do seu espaço.

citando… sobre a pluralidade humana



Pipewort Posted by Hello

A pluridade humana, condição básica da acção e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da acção para se fazerem entender. Com simples sinais e sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e idênticas.



Ser diferente não equivale a ser outro – ou seja, não equivale a possuir essa curiosa qualidade de «alteridade», comum a tudo o que existe e que, para a filosofia medieval, é uma das quatro características básicas e universais que transcendem todas as qualidades particulares. A alteridade é, sem dúvida, um aspecto importante da pluralidade; é a razão pela qual todas as nossas definições são distinções e o motivo pelo qual não podemos dizer o que uma coisa é sem a distinguir de outra.”

H. Arendt, A Condição Humana

Bolonha, de novo: duração dos graus



Spirit Nurse, Army Nursing History in Pictures

Posted by
Hello

Um «toque» no Processo de Bolonha: não… não vou falar das competências, das metodologias, da restruturação dos cursos, da qualidade, da formação ao longo da vida, das mudanças propostas e dos desafios colocados. Nem vou expressar aquelas preocupações (básicas) de que encontremos forma de mudar pouco. Adiante…

A proposta de 4 + 2, contante no Relatório, relativo à Enfermagem, suscita-me dúvidas.

O enquadramento conduz à proposta: 1º. Ciclo com a duração de 8 semestres; 2º. Ciclo com a duração de 4 semestres (onde se incluem os CPLEE – Cursos pós-graduados de especialização – não conferentes de grau académico, com a duração de 2 ou 3 semestres; Cursos pós graduados de especialização com trabalho de investigação e Cursos de mestrado em Enfermagem).

Face a isto, equaciono o que caracteriza o 1º ciclo e o 2º ciclo, quais as perspectivas, como se enquadra, o que existe estudado. Releio o relatório do Projecto Tuning. Já nem olho o Trends. Revejo as competências definidas para o enfermeiro de cuidados gerais (que hão-de estar presentes no perfil final de competências dos cursados). Salto de Bolonha, com paragens em Salamanca e Praga, para Berlim.

Estaremos de acordo com alguns consensos, de que destaco:

“1 – A enfermagem portuguesa é referência e modelo para os países europeus. Sendo Portugal olhado como modelo pelos outros países da Europa, em termos de enfermeiros, não existem modelos à nossa volta.

Ou seja, a situação concreta da Enfermagem em Portugal aponta a inexistência de situações europeias análogas, pois o acesso à profissão não se faz pelo ensino superior – tal desloca a discussão, em termos europeus, uma vez que Bolonha se refere a graus académicos do ensino superior em enfermagem.

Objectivamente, não é isto que está em discussão na Europa. Portanto, não partimos todos, no espaço europeu, ao mesmo nível nem das mesmas perspectivas. Não é possível discutir Bolonha desenraizado do contexto sociocultural do nosso país. E é preciso perceber que a enfermagem como profissão tem de ser discutida independentemente de Bolonha.

(…)

3 – Qualquer que seja a estrutura dos cursos e a duração dos ciclos, tem de ser garantida a autonomia da actividade profissional; não basta a simples existência de «competências profissionais» – elas têm de ser firmadas num exercício autónomo.

(…)

5 – Reforça-se a ideia que harmonizar difere de uniformizar. Por isso, vale atentar aos cenários possíveis e equacionar o que poderá ser, legitima e profissionalmente, mais adequado à realidade ao contexto da enfermagem em Portugal.”



As recomendações, no seio da Enfermagem europeia, apontam que a duração do primeiro ciclo de formação seja de quatro anos, “tempo mínimo necessária para que o processo de apropriação, por parte do aluno, das competências indispensáveis ao início do exercício profissional decorra a par dum processo de desenvolvimento pessoal em direcção a um nível de maturidade psicossocial e moral que permita a utilização do eu como instrumento terapêutico.

Pelo momento ontogénico em que se verifica este processo e pelas competências cognitivas, instrumentais e sócio-relacionais exigidas pela Ordem dos Enfermeiros e legitimadas no quadro do International Council of Nursing (ICN), não é possível que este processo tenha condições de sucesso em três anos, conclusão a que já se chegou em 1999 e que fundamentou o Decreto-Lei 353/99 que reorganizou o modelo de formação em Enfermagem.
” (Relatório)

Medida de excepção, prevista pelo MCIES é a adopção de estruturas de cursos de primeiro ciclo de oito semestres.

Daí, a proposta de 4 + 2, mantendo as orientações do segundo ciclo.

A mim, parecer-me-ia mais pertinente e ajustada a proposta de 0+5, pois, um ciclo de formação longo, um mestrado contínuo de cinco anos.

Releio os papéis e noto as diferenças entre as propostas – do grupo do CCISP, do grupo do MCIES e da Ordem dos Enfermeiros. Nesta fase, vou-me dedicar a outro assunto do mesmo Processo, pode ser que ilumine…

O contributo a deixar no www.mcies.pt tem prazo até 31 de Janeiro.

Bergen (mais uma estação…) ocorrerá em Maio deste ano! Até lá, muita água….

leitura do dia

De início foi o título que me chamou: “Filosofia em tempo de terror”. O subtítulo esclarece mais um pouco: “Diálogos com J. Habermas e J. Derrida”. A proposta do livro é tentadora – discutir o 11 de Setembro e o terrorismo global numa reavaliação crítica dos ideais políticos do Iluminismo.

Alias, a tese é essa mesma:

“tanto os ataques do 11 de Setembro como a variedade de reacções diplomáticas e militares que estes provocaram implicam uma reavaliação da validade do projecto e ideais do Iluminismo”.

Jacques Derrida afirma:

“O que me daria mais esperança após todas estas convulsões seria uma diferença potencial entre uma nova figura da Europa e os Estados Unidos. Digo isto sem eurocentrismo. É por isso que falo de uma nova figura da Europa. Sem renunciar à sua memória, servindo-se dela na verdade como recurso indispensável, a Europa poderia fornecer uma contribuição essencial (…) Mas persisto no uso deste nome “Europa”, ainda que entre aspas, porque, na longa e paciente desconstrução necessária à transformação do que há-de verificar-se, a experiência que a Europa inaugurou na época do Iluminismo (Lumières, Aufklärung) na relação entre o político e o teológico, ou antes, o religioso, ainda que desiquilibrada, não concretizada, relativa e complexa, deverá ter deixado no espaço político europeu marcas absolutamente originais.. ”

(p.188-189)

… o quase…

A propósito de um comment no post anterior, trago para aqui:

O quase

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto.

A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados.

Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”

Luís Fernando Veríssimo