nas pégadas de um pedagogo


synapse Posted by Hello

Parece-me do mais elementar desperdício não partir do que os alunos sabem para construir mais com eles. E nem estou a fazer a apologia de Malglaive (embora não negue ter um pendor construtivista).
Claro que há conteúdos mais densos ou mais objectivos e outros que permitem ou facilitam as ligações e a interactividade em sala.
Mas não me conformo com a ideia de que o professor parta para leccionar uma aula com o sentido de «encher» a cabeça dos alunos (às vezes, percebo de onde vem a ideia de «despejar» matéria). E que nem saiba bem o que leccionam os seus «vizinhos de semestre» ou de ano num curso que seria suposto entender-se como um todo. Ou que ganharia em entender-se globalmente, de modo holístico.

Mas nem estou a ser inaugural ou criativa…

“Ninguém ensina o que não sabe. Mas também ninguém, numa perspectiva democrática, deveria ensinar o que sabe sem, de um lado, saber o que sabem e em que nível sabem aqueles e aquelas a quem vai ensinar o que sabe. De outro, sem respeitar esse saber, parte do qual se acha implícito na leitura do mundo daqueles que vão aprender o que quem vai ensinar sabe”.

Palavras sábias de Paulo Freire (Pedagogia da Esperança).
É preciso que “quem sabe saiba que não sabe tudo” e que “quem não sabe não ignora tudo”.
Jogo que alimenta a inquieta curiosidade de saber.
Porque quem sabe pode sempre perceber que sabe pouco e precisa e pode saber mais.
E pode partir da descoberta do que os seus alunos sabem…

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efeméride(s) do dia

Assinalo hoje três nascimentos, duas mortes e um incidente famoso.

Em 1823, nasceu Ernest Renan, filósofo e historiador francês.
Da sua conferência Qu’est-ce qu’une nation ?, datada de 1882, escolhi o início da Parte III.

“Une nation est une âme, un principe spirituel. Deux choses qui, à vrai dire, n’en font qu’une, constituent cette âme, ce principe spirituel. L’une est dans le passé, l’autre dans le présent. L’une est la possession en commun d’un riche legs de souvenirs ; l’autre est le consentement actuel, le désir de vivre ensemble, la volonté de continuer à faire valoir l’héritage qu’on a reçu indivis. L’homme, Messieurs, ne s’improvise pas. La nation, comme l’individu, est l’aboutissant d’un long passé d’efforts, de sacrifices et de dévouements. Le culte des ancêtres est de tous le plus légitime ; les ancêtres nous ont faits ce que nous sommes. Un passé héroïque, des grands hommes, de la gloire (j’entends de la véritable), voilà le capital social sur lequel on assied une idée nationale. Avoir des gloires communes dans la passé, une volonté commune dans le présent ; avoir fait de grandes choses ensemble, vouloir en faire encore, voilà les conditions essentielles pour être un peuple. On aime en proportion des sacrifices qu’on a consentis, des maux qu’on a soufferts. On aime la maison qu’on a bâtie et qu’on transmet.
(…)
Une nation est donc une grande solidarité, constituée par le sentiment des sacrifices qu’on a faits et de ceux qu’on est disposé à faire encore. Elle suppose un passé ; elle se résume pourtant dans le présent par un fait tangible : le consentement, le désir clairement exprimé de continuer la vie commune. L’existence d’une nation est (pardonnez-moi cette métaphore) un plébiscite de tous les jours, comme l’existence de l’individu est une affirmation perpétuelle de vie.”
http://ourworld.compuserve.com/homepages/bib_lisieux/nation01.htm

Em 1902, nasceu John Steinbeck, prémio Nobel da Literatura no ano em que nasci. Sem esforço, recordo As Vinhas da Ira, A Um Deus Desconhecido, A Leste do Paraíso.
E em 1912, Lawrence Durrell, cuj nome decerto faz ocorrer alguns dos muitos títulos (escreveu mais de sessenta livros..) entre os quais o Quarteto de Alexandria.

Em 1941 morreu James Augustine Eloysios Joyce, que sempre me intrigou e me fez voltar a ler Ulisses por diversas vezes. Uma obra intertextual, interlinguística, intervocal, interdisciplinar, “monumento histórico de engenharia literária”, cujo tema, segundo o próprio autor, era a reconciliação com o pai. Joyce desenvolveu glaucoma, logo após o lançamento de “Retrato de Um Artista Quando Jovem” e morreu praticamente cego.

Em 2001 morreu Arturo Uslar Pietri, político, intelectual e escritor venezuelano.
A sua primeira novela, Las Lanzas Coloradas, narra os acontecimentos da Guerra da Independência venezuelana. Fez parte de governos, foi ministro da Educação, viveu exílio, fundou a Revista de Hacienda (considerada uma das primeiras publicações periódicas especializadas em Economia no seu país).
Professor de Economia Política na Faculdade de Direito da Universidade Central, fundou aí a Escola de Economia. Manteve na televisão um programa chamado “Valores humanos” (entre 1963-65 e 1975-79), abrindo a utilização deste meio de comunicação à divulgação da cultura. Vários prémios assinalam a sua obra.
Dos livros, destaco: A trilogia de Un retrato en la geografía, El laberinto de fortuna e Estación de máscaras (1962), Hacia el humanismo democrático (1965), La isla de Robinsón (1981), El hombre que voy siendo (1986), La visita en el tiempo (1990).

O incidente que referi, ocorreu em 1933, o incêncio do Reichstag.
Recordo que no dia 30 de Janeiro de 1933, Hitler assumiu a chancelaria, com von Papen como vice-chanceler. E que foi chamado porque Von Papen entendeu que podia controlá-lo melhor…!
O incêndio do Reichstag, de alguma forma, é visto como o acto fundador do III Reich.

Muito se escreveu sobre isso e de como foi o pretexto que Hitler usou para impôr a Hindenburg um decreto de emergência abolindo todas as liberdades fundamentais da República.
Nos dias que se seguiram, milhares de adversários dos nazis foram presos, a imprensa socialista e comunista foi proibida. A 5 de Março, os nacionais-socialistas obtiveram 51,8% dos sufrágios.

As cores da República foram substituídas por uma bandeira vermelha com a cruz gamada em negro e branco, símbolo do Partido Nazi. Todos os outros partidos foram dissolvidos e proibidos de se reorganizar. Quando morreu Hindenburg em 1934, Hitler acumulou as funções de chanceler e chefe de Estado. Um plebiscito confirmou esta decisão com cerca de 90% dos votos a favor.


PS – Muitos parabéns, AR, por mais um ano.
Possa ele ser grandiosamente feliz!

pensar é correr riscos


Bird of Paradise Posted by Hello

É quase inevitável que me ocorre que o pensamento é “um hóspede inquietante”.
Abre-se-lhe a porta e ele entra sossegadamente. Depois… torna-se “o vento do pensamento”, que pode pôr a esvoaçar uma série de ideias, conceitos, coisas julgadas-sabidas.

Estaremos de acordo (eventualmente) que pensar é um exercício de reflexão e de consciência. No «para quê», talvez ainda consigamos concórdia: pensar dirige-se em sentido retrospectivo (rever e analisar) e prospectivo (projectar para logo ou amanhã).
Debruça-se e refere-se aos valores que integramos, às condutas que temos, às atitudes que valoramos, às procuras que fazemos, em suma, aos perfis das pessoas em que nos queremos ir tornando. Re-olhamos os passados e inventamos os futuros… aliás, vários futuros por dia.
Julgo que pensar é trazer as coisas, que nos acontecem e que acontecem em nós, ao exercício da consciência.

Posto isto, pode acontecer que pensar ponha em causa, ou seja, interrogue o sentido do socializado, do que reproduzimos porque «sim», porque «sempre assim foi», porque «toda a gente faz assim» ou pelo que julgamos que esperam de nós.
Pode ainda acontecer que sejamos conguentes com o pensar e que, por via de termos pensado, modifiquemos (devagarinho, pois) os hábitos instalados. Aliás, isso seria a face visível do pensar (que o que pensamos, por si só, realmente não se vê – ou o dizemos, ou o escrevemos e, sobretudo, o agimos).
Daqui decorre uma certeza pequenina que pode ter o tamanho do mundo: pensar torna-se, então, “desinstalar”.
É o risco major, o maior de todos.
Também me parece que pensar não muda o mundo, nem nos torna mais sábios por si só.
Mas o que somos ou nos tornamos sem o pensar?!
Estou na linha do pensamento que medita (à maneira de Heidegger, que o distingue do pensamento que calcula), que “não é mais do que demorarmo-nos junto do que está perto e meditarmos sobre o que está mais próximo: aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora…”

Pensemos e sejamos capazes de trazer os “pensados” ao nível dos “agidos” e dos “vividos”. Isso, sim, seria subversivo, diriam os gregos. Julgo que se trata do caminho da congruência…

citando… sobre o conhecimento


PF3theSpot Posted by Hello

“(sabemos) que todo o conhecimento humano é integrado, é um todo, e que não faz sentido, nem sequer tem sentido mantê-lo separado, desconexo, descontextualizado. Sabemos hoje que não podemos falar com precisão de problemas puramente físicos, ou químicos, ou matemáticos, ou literários, ou musicais. Os problemas científicos com que nos defrontamos são sempre problemas que têm a ver com a realidade como um todo, ou como disse Popper, o problema do conhecimento (é um) problema de cosmologia. (…)
As matrizes que asseguravam a aparente certeza de muitas premissas diluiu-se; as coordenadas porque regíamos as nossas deduções científicas de vida, tempo e lugar emaranharam-se; as grelhas de percepções do mundo apertaram-se de tal modo que pouco ou nada conseguimos ver. A mudança certinha e programada, o chamado progresso evolutivo, a mudança na descontinuidade, transformou-se na mudança caótica, complexa, descontínua, incerta”.

Ruben de Freitas Cabral
O novo voo de Ícaro. Discursos sobre a Educação, p.31-32

enlutados


Capa ed. francesa Posted by Hello

Dei hoje conta, numa aula, que a morte de Marie-Françoise Collière pode ter passado quase despercebida. Transcrevo a notícia do SIDIIEF – Secrétariat des infirmières et infirmiers de l’espace francophone.

La communauté infirmière en deuil
Nous venons d’apprendre avec tristesse le décès de Madame Marie-Françoise COLLIÈRE, grande infirmière française, survenu le 30 janvier dernier.
Elle est connue sur le plan international pour ses travaux de réflexion et de recherche sur les fondements culturels des soins ainsi que pour ses conférences et articles parus dans la presse spécialisée. Elle a écrit notamment : “Promouvoir la vie : de la pratique des femmes soignantes aux soins infirmiers” aux éditions Masson.

Vous trouverez ci-dessous le dernier message qu’a voulu laisser Mme Collière aux infirmières, infirmiers et étudiants infirmiers :

Sachez que j’ai pu par mon expérience de vie me conduisant jusqu’à la mort, constater qu’il suffit d’une rupture comportementale ou gestuelle dans la continuité des soins, pour que toute la qualité du travail d’une équipe soit détruite.
Il suffit d’un « mouton noir » pour que la fragilité de celui qui quitte la vie soit confrontée au désarroi, voire au désespoir le plus abrupt.
Les meilleures compétences techniques professionnelles sont annulées par la rupture du respect interpersonnel et prive la personne soignée de parole pour se défendre, car apparaissent alors les réalités des représailles et de la persécution dans les soins.
A chacun je demande de se centrer sur les forces de vie, sur la mobilisation des ressources vitales, dans le respect de l’individu et de l’humanité, pour promouvoir les soins et promouvoir la vie.


Marie Françoise COLLIERE


(sa parole écrite par Annie DENAYROLLES le 22 Janvier 2005)
http://www.sidiief.org/6_0f.htm

efeméride do dia


Toulouse-Lautrec Posted by Hello

Escreveu poemas dispersos, que Silva Porto reuniu num livro único, a que chamou “Livro de Cesário Verde“(1887).
Nascido a 25 de Fevereiro de 1855 (celebram-se hoje 150 anos do nascimento!), é conhecido pela sedução por Lisboa, pelo realismo de escrita objectiva e quotidiana. Morreu com 31anos, com tuberculose.

É conhecido “O Sentimento dum Ocidental”, de que transcrevo uma parte

IV : HORAS MORTAS
O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!…
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas

…………………………………………………………………..

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

Cesário Verde

Poesias completas
em http://www.olharliterario.hpg.ig.com.br/cvpoesiascompletas.htm

a responsabilidade social das organizações

Uma organização representa um conjunto de pessoas e serviços que têm (devem) criar valor.
Se assim fôr, o cerne está (mais do que em problemas de custos de afectação de meios materiais e humanos ou coordenação dos factores de produção) na coordenação das pessoas e valores.
As recomendações dos pensadores da moral foram, durante muitos anos, encaradas como ideias muito bonitas mas incompatíveis com uma prática onde vigoram as leis da concorrência e do lucro. Mais ao menos ao tempo em que a ética e a economia se desaguisaram…

Hoje, reinterroga-se se a principal função de quem lidera (e de quem gere) não será vincular as pessoas – externas e internas, ou seja, clientes e funcionários – e se a principal responsabilidade de uma organização não será a social.
Curiosamente, o Livro Verde “Promover um Quadro Europeu para Responsabilidade Social das Empresas” (2001), definiu-a a responsabilidade social como “a integração voluntária de preocupações sociais e ambientais por parte das empresas nas suas operações e na sua interacção com outras partes interessadas”. Assumir a responsabilidade social constitui um desafio à gestão, a uma gestão económica, social e ambiental.

Com as devidas ressalvas na analogia, referentes ao campo específico de acção, julgo que o mesmo se aplica às organizações de ensino.
Vejo em ambas uma cidadania no colectivo – pois que implica uma forma coerente e integrada da actuação global da organização, ou seja, o desenvolvimento da qualidade, a adequada informação e formação, a consulta e a participação dos funcionários, o respeito e promoção dos direitos sociais e ambientais e a qualidade dos produtos e serviços.

Organizações socialmente responsáveis, na dimensão interna valorizam os recursos humanos, promovem um ambiente de qualidade e o diálogo social. Na dimensão externa, destacam-se pela produção de bens ou serviços de elevada qualidade, fiabilidade e segurança.
Daqui é um «saltinho» às organizações qualificantes e organizações que aprendem…