Eu diria dos apátridas que somos


human face Posted by Hello

A Sebastião Alba:

“Eu diria dos apátridas que somos
daquela pátria que nos sobra.
Diria daqueles que por amá-la
proscritos ficaram
proscritos morreram.
Diria do exorcismo de um povo
na beira-mar da aventura,
do medo que em nós germina,
da labareda do sonho,
do entardecer da agonia.
Diria da mordaça,
dos estropiados,
das flores precocemente emurchecidas
Diria também dos vagabundos
que nos calcorrearam
por dentro.
Diria ainda da História e da guerra
ali ao lado.
Náufragos irremediáveis dos mares da China
a que não fomos”

Eduardo Pitta, Poesia Escolhida

»» livros e leituras: "As lições dos Mestres"

“Após meio século de actividade docente em numerosos países e sistemas de ensino superior, apercebi-me da minha crescente incerteza quanto à legitimidade e às verdades fundamentais desta «profissão».Coloco a palavra entre aspas de modo a assinalar as suas raízes complexas em antecedentes religiosos e ideológicos. A profissão de «professor», também este um termo algo opaco, suporta todas as nuances possíveis entre, num extremo, a forma de vida rotineira e desencantada e, no outro, um elevado sentido de vocação. Compreende numerosas tipologias que vão desde a do pedagogo destruidor de espíritos à do Mestre carismático. Imersos como estamos em formas de ensino quase inumeráveis – elementar, técnico, científico, humanista, moral e filosófico -, raramente nos distanciamos o suficiente para reflectir sobre as maravilhas da transmissão de conhecimento, os recursos da falsidade e aquilo a que chamaria, à falta de um termo mais preciso e concreto, o mistério da função.”

George STEINER, As lições dos Mestres (Gradiva, 2005)

Partilho mais uns pózinhos:

“O que significa transmitir (tradendere) e de que modo – de quem para quem – é legítima essa transmissão? As relações entre tradition («o que foi transmitido») e aquilo a que os Gregos chamavam paradidomena («o que é transmitido neste momento») nunca são transparentes. Talvez não seja por acaso que, semanticamente, «traição» e «transmissão» não estejam assim tão dissociadas de «tradição». Em contrapartida, estas vibrações de sentido e de intenção, encontram-se fortemente presentes no conceito, igualmente complexo, de «tradução» (translatio). “

Steiner introduz centralmente as questões da oralidade.
O Mestre fala ao discípulo e a palavra falada é parte integrante do acto de ensinar. O professor tem consciência da magnitude da sua profissão.
E:

“Os perigos são proporcionais à exultação. Ensinar com seriedade é lidar com o que existe de mais vital num ser humano. (…) Um Mestre invade e pode devastar de modo a purificar e a reconstruir. O mau ensino, a rotina pedagógica, esse tipo de instrução que, conscientemente ou não, é cínico nos seus objectivos puramente utilitários, é ruinosa”. (p.25)

Steiner afirma que:
“Em termos estatísticos, o anti-ensino constitui praticamente a norma. Os bons professores – os que alimentam a chama nascente na alna do aluno – são talvez mais raros do que os músicos virtuosos ou os sábios (…) a maioria daqueles a quem entregamos os nossos filhos… pouco mais são do que amáveis coveiros. Trabalham para reduzir os alunos ao seu próprio nível de fatigada indiferença. Não «revelam» Delfos – obscurecem-no.
Em contrapartida, o ideal do verdadeiro Mestre não é uma fantasia ou uma utopia romântica inalcançável. Os mais afortunados entre nós conheceram Mestres genuínos” (p. 25)

Fico a pensar (e a ler).
Steiner aponta o papel dos «professores anónimos», isolados, que ao emprestarem determinado livro ou ao estarem disponíveis após as aulas, despertam talento, se tornam Mestres.

Olho para os caminhos que fiz até aqui, hoje, agora e identifico claramente as silhuetas dos que considero (que aceitei e reconheço como) Mestres. Dos que designaria como professores significativos no percurso de aprendizagem científica, filosófica, humana.

um género mortal

Os Filovírus, da família Filoviridae (vírus RNA) são um género de vírus particularmente mortal.
O primeiro filovírus de que se tem história é o MARBURG, cujo primeiro caso ocorreu em 1967 – com cientistas que trabalhavam na Alemanha, com macacos importados de África, e que foram contaminados.
O EBOLA foi isolado pela primeira vez em 1976 a partir de uma epidemia de febre hemorrágica que ocorreu próximo ao rio Ebola.
Anos depois, as narrativas descrevem um verdadeiro terror na cidade de Kikwit, em 1994.
Hoje, fala-se de serem 4 os Filovírus: o Marburg e três Ebolas (Zaire, Sudão e Reston).

Até hoje, não se sabe quem ou qual é o hospedeiro do vírus e ao que se deve o aparecimento das epidemias, que desaparecem pouco depois.
Sabe-se que o vírus é transmitido por fluidos orgânicos infectados, como o sangue, a saliva, a urina, o esperma, as secreções nasais.
A incubação tem período entre 3 a 9 dias.
E mata por febre hemorrágica, com destruição dos tecidos.
Sabe-se que não se consegue tratar.
Só se podem tomar medidas de prevenção para a transmissão secundária.

“Measures for prevention of secondary transmission are similar to those used for other hemorrhagic fevers. If a patient is either suspected or confirmed to have Marburg hemorrhagic fever, barrier nursing techniques should be used to prevent direct physical contact with the patient. These precautions include wearing of protective gowns, gloves, and masks; placing the infected individual in strict isolation; and sterilization or proper disposal of needles, equipment, and patient excretions.In conjunction with the World Health Organization, CDC has developed practical, hospital-based guidelines, titled Infection Control for Viral Haemorrhagic Fevers In the African Health Care Setting.
The manual can help health-care facilities recognize cases and prevent further hospital-based disease transmission using locally available materials and few financial resources.”
http://www.cdc.gov/ncidod/dvrd/spb/mnpages/vhfmanual.htm

Dos casos do Uige, há meses (Outubro), o Marburg veio grassando.

Update da OMS http://www.who.int/csr/don/2005_03_29a/en/


Veio grassando e matando, até Luanda onde hoje (de acordo com o Público) se decretou quarentena de 21 dias.
Medidas de segurança epidemiológica num país com escassa rede de prevenção primária e poucos meios.
Medidas que me fazem lembrar a nossa insuficiente sapiência humana.

efeméride do dia

152 anos depois do nascimento de Van Gogh

Vincent William Van Gogh desafia os rótulos e as categorias.
A técnica de pinceladas firmes e carregada que criou, aplicadas sem hesitação, permitiu-lhe pintar rapidamente e produzir um vasto volume de obras (da última vez que li “mais de duzentos quadros em dois anos” tive de fazer uma média rápida…). Pintar, ao ar livre, claro.

Uma vida tortuosa e sofrida, em que entraram a pobreza, uma tentativa de suicídio, um período com Gauguin, um temperamento exaltado, um desentendimento e aposta que redunda em corte de uma orelha, a retirada voluntária para um hospício, a admissão de ter ataques de loucura, o tiro disparado para o peito.

Uma obra vasta em que destaco sempre os Girassóis, o Semeador e (cinco) Auto-retratos.

http://www.blue.fr/vangogh/
http://www.vangoghmuseum.nl/bisrd/top-1-1.html
http://www.artic.edu/aic/exhibitions/vangogh/slide_intro.html

TQM – Total Quality Management – e Educação

TQM parece-me uma proposta de virar o olhar e dar amplitude ao pensar para uma perspectiva de Qualidade Total.
Um processo de melhoria contínua da qualidade (raciocínio de onde vínhamos, com o benchmarking) tem de ser global e baseado numa avaliação sistemática, igualmente global, que supõe uma “cultura de qualidade”, a nível institucional.

Por isso, a TQM colide com a visão tradicional de «linha» e de controle de qualidade com “inspecções” – considera-se que a melhor estratégia é focar os processos (auditorias) em vez de ficar totalmente focado no «produto» ou nos resultados (muito embora, o “árbitro do sucesso” venha a ser a excelência do produto final).

Mas se a qualidade fôr redefinida em termos de sistemas e processos auditáveis, mais do que estritamente nos resultados…
… será que o efeito pode ser desenvolver iniciativas (e melhores práticas) que promovam os resultados mais do que definir os resultados standard das práticas?
E isto seria relevante para o ensino.
Até porque parece impossível encontrar pontos de consenso sobre o que é realmente a qualidade (isto é, a excelência) do ensinar e do «como é que se mede».

Poderíamos pensar em sair dos terrenos dos resultados quantitativos para um sistema de práticas – um sistema cujos principais elementos possam ser planeados, documentados, monitorados e auditorados. Aliás, a aplicar a Quality Assurance, trata-se de ver o ensino conceptualizado a partir das actividades e sistemas que podem ser “transparentes” para auditoria (cumprindo critérios de compreensão e documentação).

Também depende do que se vê como (da visão sobre) «qualidade» – há quem a coloque ao nível da aula, da experiência do professor – atrever-me-ia a dizer que ao nível operacional micro.
Ora, o que acontece se se deslocar para o projecto pedagógico da organização? para o projecto científico global?

Sendo resultado de vários processos, a TQM é fruto das relações aos diversos níveis entre as pessoas envolvidas – professores, funcionários, estudantes, extensão em projectos à comunidade. Toda a gente conta, ou melhor, todos os processos e intervenientes contam…

Riscos? Bom, oiço falar na «empresarialização» e fico a pensar na analogia da escola com uma empresa. E é analogizável?! Ou não?! (matéria de desvio, ainda que interessante…)

Os processos de certificação dos hospitais, por exemplo, pelo King’s Fund ou pela Joint Comission, obrigaram a rever e a documentar processos. E o processo é global…
Pode ser separada a ferramenta da lógica empresarial?
Julgo que sim… visto de onde me é dado ver.
Quem é auditorado? a organização no todo.

O que daí resulta? propostas de melhoria e prazos para corrigir, por exemplo.
Metas? avaliar, chegar à certificação, desenvolver…

Lockwood (1992) definiu 14 pontos de efectiva aplicação do TQM nas escolas, por analogia ao enquadramento da gestão. Tomo a liberdade de não os traduzir…

1 Aim at creating the best quality students who will take up meaningful positions in society.
2. Have managers who become leaders for change.
3. Abolish grading and the harmful effects of rating students.
4. Provide learning experiences to create quality performance
5. Minimize the total cost of education by working to improve the relationship with student sources and the quality of students coming into your system.
6. Consistent]y strive to improve the service provided to students.
7. Institute on the job training for all: teachers, administrators and students.
8. Institute leadership rather than “boss management.”
9. Create an environment that is free from coercion and fear.
10. Encourage team-teaching and, by so doing, eliminate the barriers between teachers or departments.
11. Eliminate competitive slogans, exhortations and pull-out programs since these breed adversarial relationships.
12. Eliminate work standards (quotas) as well as adherence to the “normal curve” model.
13. Change the focus in education from quantity to quality and by so doing remove barriers that deprive students, teachers and school administrators of their pride in workmanship.
14. Involve everyone in transforming the school into a quality environment.

E de os comentar, no global…

Diria que a missão primeira é de um olhar para diante, de pensar que os estudantes terão lugares significativos na sociedade, que quem gere assume liderança, que se procuram experiências qualificantes de aprendizagem e desenvolver metodologias activas para professores e estudantes (como o on-job-training)…
Ah, e como gosto de um ambiente livre e aberto, do brio em trabalhar-naquele-sítio e do trabalho em equipa (team-teaching) que possa (também) tornar conhecidos e familiares os vizinhos (e as metodologias) do departamento do lado.
Provocativos: a abolição de rankings e de slogans de competição.
O desafio é transformar a escola num ambiente de qualidade – do ponto de vista científico e pedagógico, acrescentaria.

Continuo a pensar que TQM, QA e Benchmarking são conectáveis.
TQM é uma concepção macro, que utiliza certas ferramentas…

Para uma olhadela mais atenta

Code of practice for the assurance of academic quality and standards in higher education
http://qaa.ac.uk/academicinfrastructure/codeOfPractice/default.asp

Total Quality Management and Invitational Theory: Common Ground
http://www.invitationaleducation.net/publications/journal/v21p29.htm

Applying Total Quality Management In Academics
http://www.isixsigma.com/library/content/c020626a.asp

Ronald Pollock’s Online Resources about Quality Managemente & Performance Excellence
http://www.gslis.utexas.edu/~rpollock/tqm.html

Institutional audit: England and Northern Ireland

volto breve…


dormindo Posted by Hello

São só uns dias mas vou de férias!
aqueles momentos paradigmáticos de lazer, de ócio, de descanso…

Vamos à etimologia para esclarecer estas palavras, que têm sentidos diversos?
Lazer, de origem no francês antigo, vem de «leisir», algo como «ser permitido», em ligação ao «licere» latino, de onde obtemos a palavra «licença».
Portanto, lazer é licença, é liberdade – especificamente, estar liberto de trabalho e dos deveres. Liberdade de fazer o que apetecer.

Algo que é desejável, as férias trazem o ocioso, o passeio, o vaguear…
Do latim, férias significam “os dias de suspensão dos trabalhos oficiais”.
Portanto, folga ou repouso, descanso.
Por isso se pode instalar diferença entre lazer e descanso.

Curiosamente, os gregos entendiam o ócio como uma oportunidade de desfrutar o que faz prosperar o espírito humano: as artes, a reflexão, o conhecimento, o aprofundamento das amizades, a procura da excelência.
Será mesmo um «lugar-comum» que a cultura requer lazer (e que a civilização é negócio, a negação do ócio, pelo que nesta matéria se confrontam, por exemplo, os gregos e os romanos).
As férias podem reunir, em uso corrente, o lazer e o descanso, as longas conversas e os jantares tardios, as discussões literárias e desportivas, a liberdade de fazer o que apetece… e o que alimenta o espírito humano. Ou seja, trabalhar para e com fins mais elevados.

Volto terça… para cumprir os prometidos.