binómios ou inquérito às virtudes dos estudantes

Quando falámos dos professores, caminhámos dos pecados mortais às virtudes capitais.
Porque são binómios. E se relacionam.
Do mesmo modo, concluídos os pecados dos estudantes, é altura de proceder em espelho e passar às virtudes. E, da mesma forma, ouvir opiniões e sugestões para a construção da lista…

conversamos?!

Ei-los que chegaram…

Seriam dez horas, no exterior do edifício; como em anos anteriores, parei a vê-los…
Reparo que sorriem, apesar das pinturas (que não ruprestes mas rudimentares) e suportam a instrucção do código da praxe, feita pelos tão bem trajados veteranos.
Vindos do secundário, de perto e de longe, trazem na bagagem interior os medos e as alegrias de uma meta (para a larga maioria, a meta-da-primeira-opção).
Não sabem ao que vêm mas vêm.. e de ar contente, como quem vai hastear bandeira em território inexplorado.
Suportam a fila das matrículas, a troça alegre dos que já estiveram no seu lugar. Olham, com admiração, o traje e a capa, os gestos dos habituées, as saudações e os gritos de reencontros.
Entre o embaraço e a excitação, têm passos hesitantes, de quem desconhece o roteiro.
São uma mão-cheia entre milhares que ficaram fora do sistema.
São uma mão-cheia entre os que acederam ao ensino superior, numa área de formação que os trans-formará.

Enquanto os ouvia cantar, fiquei a pensar que realmente não sabem o que os espera mas quando souberem, a exemplo de outros antes e de outros que virão depois, vão arregaçar as mangas, ter aulas 30 horas por semana e ensino clínico por 35, queixar-se e emocionar-se, protestar e arrepender-se, viver momentos de euforia e de desânimo, enfim, um universo de coisas naturais de quem vai crescendo e aprendendo. Sobretudo, de quem chegou ao curso de enfermagem, para fazer com outros, em colectivo, uma formação que também afecta cada um para dentro…
Trata-se de receber um jovem adulto e oito semestres (e, pelo menos, 4.600 horas) depois ver sair um recém-cursado que se deseja competente, num trajecto de curso e de vida, de crescer e de transformar-se, de encetar caminho rumo à excelência (em todos os sentidos).
Ei-los que chegam… e eis também porque vale a pena esperá-los e acolhê-los.

… poesia, sempre…

Na primeira noite
Eles se aproximam
Colhem uma flor de nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem :
Pisam as flores
Matam nosso cão
E não dizemos nada.
até que um dia
O mais frágil deles
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a lua e,
Conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada.

Maiakówsky