virtudes capitais dos estudantes – # 4: a ousadia

1 – a humildade
2 – a irreverência
3 – a generosidade

4 – a ousadia

Foi proposta e repensei sobre ela. Ocorreu-me a divisa iluminista – «sapere aude», ousa conhecer. Mas já vai longe a ideia de que o conhecer traria a felicidade aos povos. E se «ser estudante» é algo que se assume para além da formação na academia, também pode ser verdade que estou a pensar da perspectiva do professor. De como se pode pregar (ainda que em silêncio) a mediocridade e o conformismo, coibir de ser ousado, inibir de correr o risco, vetar a criatividade e, até, o riso.

Ousadia é escapar à formatação (mesmo que com a roupagem da autoridade do professor). É atentar à subserviência intelectual, procurar o seu caminho, reflectir e descongelar-se para o mundo e os outros. É criar, inovar, ser capaz de adoptar outra prática, de interrogar o raciocínio à procura das falácias. Querer o mais interessante, de preferência com a curiosidade, a sensibilidade e o estímulo para se desenvolver correctamente. Porque ousadia é um caminho de ser muito mais do que de saber.

Quase faz lembrar a escolha de Neo (no Matrix): drageia azul ou vermelha?!

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  • (busto de Xenofonte, aqui)

“A vida é um teatro, é ao mesmo tempo uma comédia e uma tragédia e nós somos os actores. Uma observação trivial, decididamente inspirada pelas musas de algum outro homem. (…) Sófocles falou disto quando escreveu há uns anos,
Incontáveis são as maravilhas do mundo,
mas não há nenhuma mais maravilhosa do que o homem.
É seu o poder de atravessar os mares tempestuosos….
São seus a fala e o rápido pensamento…
Mas há poucas coisas que possam ser recitadas no palco que consigam igualar qualquer verdadeira história de homens que procuram erguer-se acima da simples passividade, homens que tomaram as rédeas da sua própria vida (…) Os homens vivem verdadeiramente e tão apaixonadamente como nos grandes dramas. Morrem com a mesma brutalidade, amam com a mesma ferocidade. Mas na vida real eles não usam máscaras de gesso das que são penduradas na parede após uma representação. As acções dos homens perduram além dos seus rostos e dos seus nomes, e os seus efeitos não são finitos e temporários mas envolvem os seus descendentes e os descendentes dos seus colegas protagonistas para que alarguem ainda mais os elos mais ténues para toda a eternidade.”

Michael Curtis Ford, A odisseia dos Dez Mil, p. 71

diferença de opiniões

No campo da ética existem duas opiniões conhecidas que, apesar de tentativas específicas, ainda ninguém conseguiu ligar: uma diz respeito ao fosso que existe entre o que é de facto e o que deve ser (facto e valor), e a outra (no âmbito do valor) entre forma moral e conteúdo moral. Parecem ser infrutíferas as tentativas de derivar o dever do ser ou o conteúdo moral da forma moral.”

Robert Nozick
Facto e valor

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“É o apoio do povo que confere poder às instituições de um país, e esse apoio nada mais é que a continuação do consentimento que deu origem às normas legais. De acordo com o governo representativo, é o povo que detém o poder sobre aqueles que o governam.
Todas as instituições políticas são manifestações e materializações do poder; estratificam-se e deterioram-se logo que o poder vivo do povo cessa de apóia-las.
Foi isso que quis dizer Madison ao observar que “todos os governos apóiam-se na opinião”, o que se aplica também às várias formas de monarquia não menos que à democracia. (“Supor que o governo da maioria funciona apenas em uma democracia é uma ilusão fantástica”, como salienta Jouvenel: “O rei, que é apenas um indivíduo solitário, tem muito maior necessidade do apoio da Sociedade em geral do que qualquer outra forma de governo”. Até mesmo o tirano, aquele que governa contra todos, necessita de quem o ajude a perpetrar a violência, ainda que seJam estas pessoas pouco numerosas.)
Entretanto, a força da opinião pública, isto é, o poder do governo, depende dos números; é ela “proporcional ao número a que se associa”, e a tirania, conforme descobriu Montesquieu, é portanto a mais violenta e menos poderosa forma de governo.
Certamente, uma das mais óbvias distinções entre o poder e a violência é que o poder tem a necessidade de números, enquanto que a violência pode, até um certo ponto, passar sem eles por basear-se em instrumentos.
O governo da maioria sem restrições legais, ou seja, uma democracia sem constituição, poderia agigantar-se na supressão dos direitos das minorias e agir com muita eficácia ao sufocar as dissensões sem qualquer uso de violência.
Porém isso não significa que a violência e o poder sejam uma mesma coisa.
A forma extrema do poder resume-se em Todos contra Um, e a extrema forma de violência é Um contra Todos. E esta última jamais é possível sem instrumentos.”

Hannah Arendt, Da violência