# 20 — glossário de palavras mui amadas: ética

* 1 – poesia
* 2 – aprender
* 3 – pensar
* 4 – metamorfose

* 5 – ética

A “reflexão filosófica sobre o agir humano”, arte de viver, “ética como amor-próprio”(Savater) fundamentada na procura de si e autoconstrução.
Trata-se, não de impôr renúncia ao que somos, antes pretender a melhor realização do que somos (e como tenho veia aristotélica, diria procurar activamente ser felizes). Contrariando a tradição de uma moral renunciativa, que se centra na superação ou extinção do amor-próprio (mais comumente conhecido por «egoísmo»), a perspectiva da ética como amor-próprio não implica a recusa ou o abandono do outro – antes pelo contrário, diria. Porque o que essencial é que sou eu não contra os outros mas porque há outros e o apego do eu a si mesmo, à sua própria conservação, benefício e desenvolvimento exige a sociabilidade e uma profícua relação com os outros.
E se o eu que sabe o que lhe convém, interioriza e reforça as razões da sociabilidade: por isso, e em última instância, é o seu autêntico fundamento. Entendo que não há solidariedade nem altruísmo que não partam do mais primário egoísmo, por muito que o transcendam e o superem – se fico feliz ao fazer o bem e fazê-lo bem, esse contentamento reverte para mim, em primeira instância. E o eu que se quer desenvolver e potenciar, não é nada sem o reconhecimento humano, sem a vinculação social ao outro.

Gosto da palavra e da ideia, particularmente na acepção grega do «local interior de onde brotam os actos do homem». Acresce que não há modelos nem referências em ética e cada um traça o seu caminho: mais, construimo-nos ao construir o nosso caminho, ao escolher os passos. E cada eu escolhe, na sua circunstância específica. Ainda que possa não dar conta ou des-valorar as opções que faz.

Por mim, gosto de pensar que tendo para uma ética de respeito por si e pelos outros (vinculada ao amor e recuperando S. Agostinho “ama e faz o que quiseres“), na dimensão da tolerância activa, do reconhecimento da profunda ignorância que temos – cada um acerca de si, acerca dos outros e do mundo em geral – e da responsabilidade de conhecer-se e cuidar-se, de procurar “o sentido de uma vida boa, com e para os outros, em instituições justas” (e cito Ricoeur).

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4 thoughts on “# 20 — glossário de palavras mui amadas: ética

  1. belo!
    Contudo, a interpretação de imperativos éticos é do que há de mais perigoso pois, muitas vezes, é o ninho da intolerância.
    Pense-se nas éticas católica e muçulmana para perceber o sentido do meu aviso.

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  2. Claro que sim, Luís. Mas nem é imperativo ético – será muito mais uma exigência de ética religiosa. E se cada um detém A verdade e tem a missão de converter os outros, pode ser verdadeiramente perigoso. Letal.

    Para fazer face a convicções fortes e opostas só mesmo uma tolerância activa… (apetece mesmo é um libelo contra a intolerância).

    boa semana

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  3. …”Certamente, é mais razoável sacrificar a vida às mulheres que aos selos, às velhas tabaqueiras, até aos quadros e às estátuas. Apenas, o exemplo das outras colecções deveria advertir-nos que mudássemos, que não tivéssemos uma só mulher, mas inúmeras…”
    ..será isto ético ou apenas moralmente condenável?

    A Moral é o conjunto de normas a que devemos obediência: a Ética é o sistema que gera estas normas.

    A Ética refere-se à teoria, enquanto a Moral se destina à prática.
    A Ética é MULHER, a Moral é HOMEM.

    A nossa posição moral é mais forte quando somos bem sucedidos na ligação entre as duas. Se soubermos o que está certo e o que está errado, seremos capazes de pensar o que é o bem e o que é o mal. Temos de conhecer as nossas opções, pesar os prós e os contras e encontrar a forma de raciocinar moralmente acerca das situações que temos de enfrentar, se quisermos justificar a razão das respostas que damos.

    Se temos dúvidas sobre a justeza do que pensamos fazer, talvez seja melhor não fazer nada. Se o que pretendemos fazer estiver certo, haverá sempre maneira de o justificar.

    Atenção contudo ao falso moralista: Um verme pisado, encolhe-se…..O falso moralista dirá que é subserviência,contudo eu acho que se trata de uma forma de inteligência, através de uma forma primitiva de compreensão da natureza humana.

    Afinal se nos comportarmos como animais, ou quase, a justificação é simples do ponto de vista Ético: nós somos animais!
    knulp

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  4. Pingback: “temos pena” | Conversamos?!...

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