Alusivo ao dia

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Dia de Anos

Com que então caiu na asneira
de fazer na quinta-feira
vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
de quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
que fez a mesma tolice,
aqui o ano passado…
Agora, o que vem, aposto,
como lhe tomou o gosto,
que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
que nos trazem? Desenganos
que fazem a gente velho;
faça outra coisa; que, em suma,
não fazer coisa nenhuma,
também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
às vezes por brincadeira,
mas depois, se se habitua,
já não tem vontade sua,
e fá-los, queira ou não queira!

João de Deus

Esta é uma “interrupção” com leve toque narcísico… e o poema é alusivo porque nem é quinta feira (hoje, é sexta) nem são vinte e seis. Ainda assim, é dia de anos. Dos que se somam, e nem por isso se fazem. Com eles, fazemos os caminhos.
Celebro o 18 de Agosto com a alegria de quem vive e aprende – pois o tempo é realmente precioso…

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Sisifo, de M. Torga

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só a metade
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado
O logro da aventura
És Homem, não te esqueças!
Só é a tua loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

Com Sisifo, fica este blog provisoriamente suspenso para férias..

novas de (nova) vizinhança(s)

Um blogue a visitar e a comentar – Espiritualidade e Saúde.

Ah, e a desviar de lá, em consonância com poema aqui colocado há muiiito tempo:

Caminante No Hay Camino

Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.

Nunca persequí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles
,ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintar
sede sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse…

Nunca perseguí la gloria.

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar…

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.

Antonio Machado (1875-1939)