Pensamento do dia

Qualquer um pode carregar o seu fardo, embora pesado, até anoitecer.
Qualquer um pode fazer o seu trabalho, embora árduo, por um dia.
Qualquer um pode viver mansamente, pacientemente, amistosamente, até que o Sol se ponha.
E isso é o que realmente a vida requer.

Stevenson

De finas linhas a contornos de força

Ela, em Marée Haute, escreveu sobre a fina linha…
Ah, as ténues fronteiras!, quão ténues linhas às vezes são!

Gosto de pessoas que erguem os olhos, além do meio metro à volta dos pés e não se confundem a si mesmas com o centro do Universo.
De pessoas que se debatem por consensos sem ficarem com a frouxidão de velas soltas ao vento.
Que ressoam com voz própria, dissonante se necessário fôr, sorrindo do status quo e da sua infertilidade.
Gosto de gente que se interroga e arrisca, que vive de bem consigo, mesmo porque (ou sobretudo por que) nem é nada fácil.

E traz-me à ideia If, o poema de Rudyard Kipling:

IfIf you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream — and not make dreams your master;
If you can think — and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on!”

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings — nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run
–Yours is the Earth and everything that’s in it,
And — which is more — you’ll be a Man, my son!

Em benefício da nossa língua, a tradução
declamada por João Villaret:

Se podes conservar o bom senso e a calma
Num mundo a delirar, para quem o louco és tu.
Se podes crer em ti com toda a força da alma
Quando ninguém te crê. Se vais faminto e nu
Trilhando sem revolta um rumo solitário.
Se à torpe intolerância, se à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bençãos de perdão.

Se podes dizer bem de quem te calunia,
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
Mas sem a afectação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor.
Se podes esperar sem fatigar a esperança,
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho,
Fazer do pensamento um arco de aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho.

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores!
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo ao amor dos teus amores.
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu!… jamais lhe deste!

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra e sem um termo agreste
Voltares ao princípio para construir de novo.
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo já afogado em crepúsculos
Só exista a vontade a comandar – Avante!

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre,
Se vivendo entre os reis conservas a humildade
Se inimigo ou amigo, poderoso ou pobre,
São iguais para ti à luz da eternidade.
Se quem conta contigo encontra mais que a conta,
Se podes empregar os sessenta segundos
De cada minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraia em séculos fecundos.

Então, ao ser sublime o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os templos, os espaços,
Mas ainda para além um novo sol rompeu
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te meu filho… Então serás um HOMEM!

Rudyard Kipling

(Imagem: Lu-Ping, River of clear water)
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leituras




















“The truth is that, in the process by which the human being, in thinking, reflecting, comparing, separating, and combining, first limits that unhistorical sense, the process by which inside that surrounding misty cloud a bright gleaming beam of light arises, only then, through the power of using the past for living and making history out of what has happened, does a person first become a person. But in an excess of history the human being stops once again; without that cover of the unhistorical he would never have started or dared to start.”

Nietzsche
On the use and abuse of History for Life
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gente que bloga…

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(Arte em papel)

Segui a pista e cheguei aqui. Sete razões por que os professores bloggam…
1- É divertido
2- Aproxima professor e alunos
3- Permite refletir sobre suas colocações
4- Liga o professor ao mundo
5- Amplia a aula
6- Permite trocar experiências com colegas
7- Torna o trabalho visível

Evidente virar a pergunta para si: por que bloggo eu?…
Ajuizo que será porque
1 – começou por ser um desafio de interactividade (também “técnico”, um tipo específico de saber-fazer) lançado por um amigo na época em que tinha uma homepage – e havia/há muitas coisas por-saber
2 – gosto de conversar e escrever, pelo que o blog concilia e alia ambos, de um modo peculiar;
3 – leio outros blogues e penso nas opiniões (quando valem), imbrincando-me no mesmo génera de teia, estando igualmente em linha (podia ler sem ter um blog) e estabecendo contactos que seriam inviáveis ou impossíveis no quotidiano;
4 – e, em consequência, potencia desenvolvimento e(m) intercâmbio com outros, que passam de desconhecidos a próximos (ou distantes) virtuais, ainda que se não conheçam presencialmente;
5 – promove a expressão de opiniões, na liberdade da blogoesfera, e a criatividade pessoal, independentemente de ser com nome real ou nickname; e, em consequência, visibilizar-se (o que pode ter verso e reverso, nem sempre positivo)
6- permite ter um grande caderno de anotações interactivo, a que acedo em qualquer lugar, em vez do que usava antes;
7 – acreditar que a blogoesfera pode ser uma biblioteca especial, um jardim de ideias, um viveiro de opiniões e de horizontes renovados. E é um tipo especial de comunicação…
———- ainda que, sem dúvida, possa transformar-se numa adição… tanto pelo hábito auto-alimentado e auto-gratificante de navegar de blogue em blogue como por ter sentido da ausência quando não se bloga. Conversamos?!

passeio pela(s) vizinhança(s)

Dia de passeio matinal pelos blogues da(s) vizinhança(s), com o sabor de quem regressa a sítios onde há algum tempo não vai. Destaco:

– de caminho por Que Universidade, seguindo a recomendação do MJMatos, a chegada a Para que a Universidade possa dar à luz sem arder. Pois relamente, como lá se afirma, Ninguém faz omoletas sem ovos… Ninguém faz universidades sem aquilo que os gestores qualificam como política de excelência e que os pensadores políticos clássicos inventariaram como a procura do melhor regime.
Por outras palavras, sem professores melhores e sem alunos com mais qualidade, não há MIT que nos valha, nem sábio ministro que nos compense.
E o título evoca o processo um dia sonhado por Guerra Junqueiro para aquilo que era a universidade portuguesa do respectivo tempo: incendiá-la para ver se ela poderia dar à luz uma qualquer luz.

– de Reformar o Ensino Superior, o destaque de JVC a duas entrevistas a não perder – e o reforçar (aqui) de uma das afirmações:
“Em Portugal, considero que as falhas maiores estão na organização, na gestão e na exigência – no bom sentido, porque a sociedade tem direito a exigir bons resultados do investimento dos seus impostos. Sei que estas afirmações são polémicas, mas foi este o discurso que sempre tive e pelo qual fui eleito Reitor.”

– de UniverCity, pela pena de LMoutinho, uma citação feliz – “Para manter a sociedade dinâmica é necessário capacidade crítica, daí que as escolas devam ensinar os estudantes a assumir uma posição crítica. No entanto, a capacidade crítica pode também servir para desafiar o capital.”
Incentivar a pensar pode ser mesmo perigoso, dir-se-ia mais, subversivo – e, curiosamente, é um dos principais ganhos e fundamental razão de ser…

– na Vida de Professor, a janela da Ana Cristina, pertinente pergunta dos estudantes ou das pessoas a quem se dá atenção quando não fazem bem – Se só existo quando me porto mal… então por que motivo me hei-de portar bem?

em a Educação do meu umbigo, em entrada extensa de Paulo Guinote sobre «o bom professor é…», em jeito de Apostilha, virada para a versão final do Ministério – a avaliação dos docentes tornou-se agora um emaranhado burocrático a fazer lembrar a primeira versão do estatuto disciplinar dos alunos que foi aprovada nos anos 90. A concepção básica está errada e a sua exequibilidade prática é, no concreto de muitas situações, bem demonstrativa do que uma imaginação de gabinete pode fazer numa loja de cristais.

– no Jardim das cores, um elenco de razões para ser professor e blogger (a Rute escreve Bloguista) – das sete que coloca, no global, retiro a ideia de uma pergunta de tipo existencial – «porque bloggo eu?». Sim, tem um ligeiro aroma a Hamlet, «bloggar ou não bloggar, eis a questão…»

– e se JNA tem razão, pois sim, a filosofia e a matemática distinguem-nos dos outros primatas, o exercício de bloggar entra onde? Conversamos?!