Pensamento do dia

O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.

M. Quintana

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leituras: em torno de Kant e da felicidade


Desde a Fundamentação da Metafísica dos Costumes que Kant parece ser (melhor, é) oponente à filosofia que faz da felicidade o objectivo e fundamento da moralidade.
Naturalmente, uma filosofia a priori não poderia depender de um conceito empírico nem uma filosofia que busca princípios práticos universais poderia assentar sobre uma noção, cuja definição depende do sentimento de prazer e desprazer de cada pessoa (aqui, agente).

Porque é que a felicidade não pode ser a finalidade da moralidade?
Na Antropologia do Ponto de Vista pragmático, ao discutir a faculdade de desejar e a sua relação com os sentimentos de alegria e tristeza, Kant recomenda a moderação dos sentimentos. O seu conselho, quase estóico, é acompanhado por uma estranha constatação: “Uma alegria exuberante não moderada por nenhuma preocupação com a dor e uma tristeza intensa e absorvente, não mitigada por nenhuma esperança, ou desgosto, são emoções que ameaçam a vida. Porém, pode-se ver pela lista de óbitos que mais pessoas perderam subitamente a vida devido à alegria imoderada do que à tristeza.” (p.76 ).

Ainda que estranha, essa é apenas mais uma afirmação de quem, muitas vezes, manifestou a sua oposição ao eudamonismo na ética – na Introdução da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Kant explica que a metafísica é um sistema de conhecimento a priori e, se (ou equacionando que) a doutrina moral fosse a doutrina da felicidade, seria impossível obter esses princípios.

Assim, Felicidade é uma alegria empírica e não significa nada além da satisfação dos desejos de cada um, sejam eles desejos naturais ou intelectuais: “Apenas a experiência pode ensinar o que nos traz alegria. Apenas os desejos naturais por comida, sexo, movimento e, (conforme a nossa disposição natural se desenvolve) por honra, por aumentar o nosso conhecimento etc pode nos ensinar, e a um numa maneira particular, no que encontrará essas alegrias”

Kant reforça que, em matéria de prazer, não é a fonte que importa, mas…. isso, sim, “quão intensa, quão duradoura, quão facilmente adquirida e quantas vezes repetida”, ou seja, a gratificação.

Vejamos então que:
# A razão não pode nos ensinar o que é a felicidade, porque não podemos dar-lhe uma definição a priori, independente da experiência.
# Mesmo um juízo a posteriori não possuiria nenhuma generalidade, visto que cada um obtém felicidade de acordo com sua susceptibilidade aos diferentes prazeres da vida.
Pode-se ser feliz com a riqueza, beleza, prazeres intelectuais, uma vida contemplativa, nenhum tendo prioridade em relação ao outro na definição de felicidade ou de vida virtuosa. Assim, Kant faz uma distinção radical entre o domínio da felicidade e o domínio da virtude, abrindo mão de resolver esta dicotomia pela estratégia estóica, ou seja, pela redefinição de felicidade.


“Felicidade é o estado de um ser racional no mundo para o qual a totalidade de sua existência tudo acontece segundo seu desejo e vontade e depende, consequentemente, da harmonia da natureza com a finalidade total do agente, assim como do fundamento de sua vontade”(Crítica da Razão Prática, 5:124)

A realização da felicidade virá, portanto, da satisfação do nosso desejos, sejam eles quais forem. Schneewind realça que o problema de como atingir a felicidade, para Kant, é o problema de como satisfazer nossos desejos, o que não está em nosso poder, ou seja, não depende de nós.

O cumprimento das exigências da lei moral não nos concederá, por si só, nenhuma felicidade, a não ser por uma conexão absolutamente contingente. Para um ser finito, não há, portanto, nenhuma correspondência necessária entre felicidade e moralidade, visto que tal ser não é causa da natureza:
“Consequentemente, não há o menor fundamento na lei moral para uma necessária conexão entre moralidade e felicidade de um ser que pertence ao mundo como parte dele e, portanto, dependente dele, o qual, por esta razão não pode, pela sua vontade ser a causa dessa natureza. Na medida em que se trata de sua felicidade, ele não pode pelos seus próprios poderes fazer com que a natureza se harmonize de acordo com os seus princípios práticos. “(5:125)

Um ser finito que pertence ao mundo e dele depende não pode ser a causa da natureza.
Não tendo o total conhecimento do mundo, nem o poder de fazer com que os eventos empíricos correspondam ao seu desejo, a felicidade escapa à vontade deste ser finito (cada um de nós).
Ora, aquilo cuja realização escapa à vontade do agente não poderia fornecer um objectivo para a moralidade, visto que não está em seu poder alcançá-lo.
Como resultado, a felicidade não pode ser o objetivo da vida moral, visto que é dependente de bens contingentes, o que a torna um campo instável e frágil para fundamentar a moralidade.

Ainda assim, que a felicidade seja contingente e escape à vontade do agente não é, todavia, o único empecilho a tomá-la como objetivo da moralidade. Kant sustenta ainda dois outros pontos:
1- A felicidade não pode ser universalmente definida;
2 – Mesmo que houvesse concordância sobre o que constituiria a felicidade, esta unanimidade levaria mais facilmente a discórdia do que a harmonia.

Na Fundamentação, Kant distingue entre imperativos de destreza e de prudência: os primeiros obrigam uma ação como necessária para a realização de um fim, para os últimos, este fim é a felicidade. Ainda que a felicidade seja indubitavelmente a finalidade dos seres racionais, é impossível dar um conceito determinado desta: “É uma lástima que o conceito de felicidade seja um conceito indeterminado, de forma que, ainda que todo ser humano queira alcançá-lo, ele não pode nunca dizer de forma determinada e consistente consigo mesmo o que ele realmente quer e deseja”.(4:419)

A ideia de que não se pode produzir a própria felicidade parece mais aceitável que a ideia de não sabermos em que deve consistir a felicidade. É razoável pensar que, mesmo que nós não tenhamos poder para produzir os fins que queremos, sabemos o que queremos e o que contará como uma vida boa e valiosa.

Uma outra razão para a felicidade não poder ser universalmente definida é dada na Crítica da Razão Prática: Kant explica que a felicidade de cada pessoa depende das suas fontes particulares de prazer.
Consequentemente, o que conta como objecto de prazer para alguém pode não ser um objecto de prazer para uma outra pessoa. Além disso, o que produz prazer e desprazer pode mudar com o tempo:
“Aquilo no qual cada um coloca sua felicidade depende de um sentimento particular de prazer e desprazer de cada um, e, mesmo num mesmo sujeito, de necessidades que mudam conforme este sentimento muda”(5:25 ).

A ausência de um consenso do que é desejável não é a única razão pela qual a felicidade não pode ser objecto da moralidade, pois mesmo que os sentimentos de prazer e desprazer pudessem ser universais, não haveria harmonia.
Suponhamos que as pessoas tenham os mesmos sentimentos de prazer e desprazer e que desejem os mesmos objectos. Disso resultaria, não a harmonia, mas o conflito.
Um consenso sobre o que é universalmente fonte de prazer seria pior do que a ausência de consenso.

A felicidade, portanto, não nos poderia dar uma lei universal – sendo o objecto do prazer o mesmo ou não. A sua relação com um objecto empírico e particular de prazer e alegria, a incapacidade de seres finitos em promover seus próprios fins e o conflito que resultaria se pudéssemos definir a felicidade univocamente, todas esses factores parecem tender a banir o termo felicidade do domínio moral.

Porém, Kant resgata a felicidade como objecto da segunda parte da Fundamentação da Metafísica dos Costumes. E a isso volto noutro dia…


(sobre o assunto,
BORGES, Maria de Lourdes – Felicidade e Beneficência em Kant. In Revista Filosofia. Ano VI, Número 50, Junho 2001)

som de fundo: Unwritten

Depois de Sauvage Garden, a companhia de fundo de Natasha Bedingfield

I am unwritten,
Can’t read my mind
I’m undefined
I’m just beginning
The pen’s in my hand
Ending unplanned

Staring at the blank page before you
Open up the dirty window
Let the sun illuminate the words
That you could not find
Reaching for something in the distance
So close you can almost taste it
Release your inhibitions

Feel the rain on your skin
No one else can feel it for you
Only you can let it in
No one else, no one else
Can speak the words on your lips
drench yourself in words unspoken
Live your life with arms wide open
Today is where your book begins
The rest is still unwritten ,yeah

Oh, ohI break tradition
Sometimes my tries
Are outside the lines, oh yeah
We’ve been conditioned
To not make mistakes
But I can’t live that way oh, oh

Staring at the blank page before you
Open up the dirty window
Let the sun illuminate the words
That you could not find
Reaching for something in the distance
So close you can almost taste it
Release your inhibitions
Feel the rain on your skin
No one else can feel it for you
Only you can let it in
No one else, no one else
Can speak the words on your lips
drench yourself in words unspoken
Live your life with arms wide open
Today is where your book begins

The rest is still unwritten
Staring at the blank page before you
Open up the dirty window
Let the sun illuminate the words
That you could not find
Reaching for something in the distance
So close you can almost taste it
Release your inhibitions

Feel the rain on your skin
No one else can feel it for you
Only you can let it in
No one else, no one else
Can speak the words on your lips
drench yourself in words unspoken
Live your life with arms wide open
Today is where your book begins
Feel the rain on your skin
No one else can feel it for you
Only you can let it in
No one else, no one else
Can speak the words on your lips
drench yourself in words unspoken
Live you life with arms wide open
Today is where you book begins
The rest is still unwritten
The rest is still unwritten

(Lyrics)

poema do dia

Ao fim são muito poucas as palavras
que nos doem a sério e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
que tocam nosso coração e menos
ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
que em nossa vida a sério nos importam:
poder amar alguém, sermos amados
e não morrer depois dos nossos filhos.

Amalia Bautista
Trípticos Espanhóis