de filosofia, e vida, e enfermagem…


Life Passenger deu um certo tom de mote… aproveito a frase e parto dela:
“Sou Enfermeiro e isso acima de tudo é uma filosofia de vida…”

Inteligir filosoficamente o mundo e a vida implica a capacidade de bem-pensar e reflectir… Mesmo que nos lembremos de Erasmus (o homem de «O elogio da loucura») e que
na sua debilidade, saibam os mortais: não podem transpôr os limites da sua inteligência“.
O que a Filosofia faz diferente é ter a vida por objecto, a razão por meio e a felicidade por fim.
E pensa-se (filosofa-se) para procurar o sentido, para se enfrentar o “combate” vital pela lucidez.

A enfermagem aproxima-se (perigosamente, diria sorrindo) de um modo de vida, em que se entende o cuidado pelo outro como a finalidade de promover o seu bem-estar. Dizia V. Henderson que fazemos pelas pessoas o que elas fariam por si mesmas se tivessem o conhecimento, a força ou a vontade para tal.

Sou enfermeira e sei que a intervenção de enfermagem não está centrada nem circunscrita à situação de doença ou à satisfação de uma necessidade humana específica. Sobretudo, estamos sempre em presença do Outro, e prestar cuidado é uma situação sempre única, que diz respeito a uma pessoa na singularidade da sua trajectória de vida.
Por isso afirmo que a finalidade da enfermagem não é científica nem técnica mas moral, e com sentido ético – que centrada no bem estar das pessoas, nos processos de viver a sua vida até à morte.
Estou, como Wittgenstein, convencida de que todos os valores só valem na medida em que servem a dignidade humana e promovem a sua causa.


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estrelícia


Chamam-lhe Flor do Paraíso, Estrelícia, ou, a minha preferida, Flor-de-Ibis. É mais do que uma mera imagem, esta flor. Ícone de uma metáfora.

Por falar nisso, Peirce dispensou pouca atenção ao tema das metáforas. Contudo, ainda que escassas , as suas referências ao assunto trouxeram à tona uma questão da iconicidade que pode enriquecer pesquisas e debates acerca da função cognitiva das metáforas.
Ícone é um signo do qual se exige apenas uma qualidade representativa característica: a de operar, por semelhança (resemblance, likeness), como signo de um objecto real ou possível, sem, seguindo a terminologia de Peirce, com este manter conexão dinâmica. “Semelhança” para Peirce presume a existência ou possibilidade de existência, de propriedades comuns entre signo e objeto; e é por esse compartilhamento próprio de atributos que a mente é afectada, incitada ao acto de interpretação. Ícone puro é sempre uma expressão de qualidade de semelhança, despida de informação factual, positiva.

Voltando atrás, uma Flor-de-Íbis é, para mim, muito mais do um ícone… próximo do cruzamento entre a função cognitiva e expressiva das metáforas. De flor-ave.
De nome botânico Strelitzia reginae, a “ave-do-paraíso”, de flores belas e exóticas, protegidas por uma bráctea em forma de barca. Associa a durabilidade ao colorido, o que é, em si mesmo, algo igualmente raro…

violetas…

Violetas… prometidas para hoje, a quem afirmou preferi-las aos amores-perfeitos.

Flores transmitem(-me), além da beleza e do perfume, ideias de fragilidade e de precaridade.
O belo pouco duradoiro, mas, talvez por isso mesmo, mais tocante, quando a ideia de «que bonita!» se junta com a «que pena, dura tão pouco!»; junto-lhe a de «que bom que existe, ainda que por momentos!». As flores (como outras coisas) não valem pelo quanto mas per si.

dois tipos de conhecimento


Uma abelha envergonha, pela qualidade de suas colmeias, a habilidade de muitos arquitetos. Mas o que distingue o pior dos arquitetos da abelha mais habilidosa é que ele construiu a célula na sua cabeça antes de a construir na colmeia” (Marx)

O conhecimento é a posse e o exercício das faculdades intelectuais e sensoriais. Dito assim, o «mecanismo director» é o pensamento conceptual. E criar e manusear representações simbólicas é traço humano, assim o afirmou Cassirer.
Sem símbolos e sem linguagem, o pensamento mantém-se a um nível rudimentar e não pode ser transmitido através do grupo, a outros ou a outras gerações. Por isso, são justamente as faculdades intelectuais que permitem a concepção no imaginário e o desenvolvimento do entendimento que se tem das coisas e dos factos – neste sentido, o conhecimento subjaz a todo o desenvolvimento.

O conhecimento não é só o que está “acumulado” no intelecto dos homens, adquirido pela experiência e pela aprendizagem. Pode fazer-se um discernimento quanto às «formas de aparência» do conhecimento:
– empírico, adquirido através da experiência e que informa o “como fazer” das coisas sem os “porquês”,
– científico, de fundamento epistemológico, onde se busca saber, além do “como”, a razão (ou as razões) pela qual.

Estes dois âmbitos do conhecimento são aprofundados por Marglin (1990) para “caracterizar diferentes formas de saber”. E questionados largamente por Boaventura de Sousa Santos, até pelo facto do conhecimento empírico se constituir, hoje, como conhecimento relevante. Mas posso ir muito mais atrás, aos gregos. E à diferença entre a techne e a episteme.

A techne é um conhecimento pessoal, de uso rotineiro, não segue princípios estruturados e depende da intuição. É o caso clássico do artesão que não descreve conhecimento uma vez que os resultados esperados são atingidos através do seu método próprio não documentado. Na realidade, é um conhecimento implícito e, principalmente, restrito a um determinado contexto de acção, isto é, diretamente ligada à prática que se tem com alguma coisa.

A episteme é o conhecimento baseado em dedução lógica a partir de princípios, onde nada deve ser deixado ao acaso ou à imaginação, mas antes seguindo-se uma rigorosa metodologia. Trata-se do conhecimento científico e, portanto, articulado – analítico, universal, cerebral, teórico e impessoal (afirma Marglin).

Os métodos de produção, de uso e de transmissão destes dois tipos de conhecimento são, naturalmente, diferentes.
O conhecimento técnico é dependente da criação e das descobertas informais e aleatórias, baseados em processos de tentativa e erro, enquanto que o conhecimento científico só se torna válido e aceite após a verificação metódica do seu conteúdo em confronto com o que deverá explicar.
Da mesma forma, enquanto o conhecimento técnico é transmitido de modo informal, o conhecimento científico só pode ser transmitido adiante através de canais formais de comunicação. O conhecimento científico fica directamente ligado à aprendizagem formal (escola, universidade, livros, artigos, etc) e o conhecimento técnico ao informal (learning-by-doing e learning-by-using).

Se a transmissão do conhecimento científico é mais complexa, é, ao mesmo tempo, mais fácil.

(imagem aqui)

Pensamento do dia

“…O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista. Sou antes de tudo uma exaltada, com alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”

Florbela Espanca