Pensamento do dia

Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova…

Mário Quintana

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o mais feio e o mais sábio


Refiro Sócrates muitas vezes e tenho-o como um dos maiores vultos do pensamento. O filósofo por excelência, como afirma Hannah Arendt.

Terá nascido em 470 (ou em 469 AC) num subúrbio de Atenas.

Filho de um escultor (Sofronisco) e de uma parteira (Fenareta), assumiu a profissão do pai e transformou a da mãe em paixão intelectual (integrando aqui a ideia do método maêutico).

Acreditava que se as pessoas entrassem em diálogo podiam encontrar as suas próprias verdades.

Auto-designou-se como moscardo e parteira, porque queria incomodar e ajudar as ideias a nascer.

Corajoso em combate – serviu como hoplita (soldado da infantaria) e participou na Guerra do Peloponeso, nas batalhas de Potidéia, de Délion, em que os atenienses foram vencidos pelos tebanos, e na batalha de Anfipolis, na Trácia. Relevo ter salvo Alcibíades numa batalha e noutra ter carregado Xenofonte, gravemente ferido, aos ombros.

Não se afirmou como filósofo, pois dizia não ter nada para ensinar e «sei que não sei» é uma escassa premissa para o ensino. Nem escreveu nenhum livro, pelo que o que sabemos (ou julgamos saber) dele foi-nos transmitido por terceiros. Particularmente por Platão e Xenofonte.

Era muito feio (aliás, em O Banquete, Alcibíades considerou–o extremamente feio, que se parecia com um sátiro ou um sileno e que era como aquelas estátuas de silenos que se abriam e que continham imagens de divindades, pois o rosto de Sócrates escondia a mais bela das almas).

Sendo considerado o homem mais feio de Atenas, era, simultaneamente, tido como o homem mais sábio do mundo antigo. Assim o afirmou a pitonisa do oráculo de Delfos…

Argumentador rigoroso, bem-humorado, que usava facilmente a ironia.Sentava-se ou passeava ou banqueteava-se, à conversa com amigos, discípulos, com quem aparecesse. Está descrito um notável auto-controle, a ingestão de vinho sem se embriagar assim como a resistência aos prazeres sensuais.

Igualmente notável a sua força moral – que exemplifico com um episódio. Atenas venceu uma batalha naval – Arginusas (em 406 aC) – e com a tempestade, os dez generais atenienses regressaram sem trazer os corpos dos soldados mortos, o que era, na altura, um crime punido com a morte.

Conta-se que Sócrates foi o único prítane responsável pela Assembleia que se opôs a que julgassem os generais em bloco, num só processo, pois o julgamento devia ser individual, um a um. Quem ia sendo linchado era ele, pela fúria do povo, que queria um só processo (e morte) para todos os generais.

Com 50 anos foi ao oráculo de Delfos, e apropriou-se da máxima escrita na entrada do templo, como lema para a vida: «conhece-te a ti mesmo».

Teria 55 anos (em 415 aC) quando se casou com Xantipa – senhora de um proverbial feitio irascível, no dizer de Xenofonte “a mais insuportável das mulheres passadas, presentes e vindouras“. Há uma história pouco apurada, relacionada com Mirto, antes, durante ou depois de Xantipa. Assim, e sem arriscar de quem, teve 3 filhos – Lamprocles, Sofronisco e Menéxeno.

Em 399, três cidadãos – Anito, Meleto e Licon – acusam-no de corromper a juventude e não reconhecer devidamente os deuses. A ideia é curiosa: dizer algo como pensa por ti, não obedeças aos deuses por tradição, procura as tuas convicções é corromper… é subversivo.

Sempre achei que Sócrates correu um alto risco ao defender-se a si próprio – da defesa ficou o texto de Platão, entitulado «Apologia de Sócrates».

Os acusadores pediram a pena demorte. Por pressão de Platão e dos outros amigos, Sócrates aceitou contra-propôr uma multa de 30 minas, que Platão e os outros se comprometeram a pagar.

Foi condenado à morte pela cicuta. Os amigos e discipulos – liderados por Críton – prepararam uma rota de fuga e asseguraram os meios para a evasão da prisão.

Sócrates recusou, declarando não querer desobedecer às leis da cidade e à decisão.

As suas últimas palavras foram:
“Críton, devemos um galo a Esculápio: pagai a dívida e não vos esqueceis”.

Tinha 71 anos.

Teve duas formas de escapar: ao julgamento se tivesse desistido da filosofia e à condenação se se tivesse evadido. Recusou ambas.

Convicção de um homem que se proclamou “cidadão do mundo”.

De quem terá afirmado: “é melhor suportar a injustiça do que praticá-la” e “seria melhor para mim que a minha lira ou um coro que eu dirigisse estivesse desafinado, e que multidões de homens discordassem de mim do que eu, sendo um, estivesse em desarmonia comigo próprio e me contradissesse”.

Socrates Life and Times, Kanna Philip
Socrates Life and Philosophy, Enciclopaedia Britannica