# 35 – Solidariedade

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Solidariedade, do latim, origem em solidum, sólido, designa apoio seguro, pela derivação de solus, chão.

Conta-se que um certo monge copista registou que um Bispo proferira um sermão utilizando a forma solitarius, sozinho, que foi transcrita como solidarius, que dá segurança. O erro era de uma letra apenas…

Há quem aponte que o latim jurídico já tinha a expressão in solidum, significando que em determinadas questões todos respondiam ou todos os bens estavam incluídos.

De qualquer forma, o vocábulo fez escala no francês – solidaire – cujo registo mais remoto se coloca no século XVI. Daí à solidariedade foi um pulinho e em 1723 encontramos o primeiro registro de solidarité com o sentido que temos hoje, na língua portuguesa. Atitude de apoio, de tornar sólido, de coesão.

Por mim, sigo a leitura de que a solidariedade é a união de simpatias, interesses ou propósitos entre os membros de um grupo. E, realmente, a solidariedade é escassamente virtuosa… “A solidariedade é um estado de facto antes de ser um dever; depois é um estado de alma (que sentimos ou não), antes de ser uma virtude ou um valor.” (Comte-Sponville)

O estado de facto é pertencer a um conjunto in solido, como se dizia em latim, isto é, “para o todo”. É o facto de uma coesão, de uma interdependência, de uma comunidade de interesses ou de destino. Ser solidários, nesse sentido, é pertencer a um mesmo conjunto e partilhar, consequentemente – quer se queira, quer não, quer se saiba, quer não – uma mesma história.

Como estado de alma, a solidariedade é o sentimento ou a afirmação dessa interdependência.

É óbvio que esses sentimentos são nobres. Mas serão por isso virtudes? Se a solidariedade é comunidade de interesses, das duas uma: ou essa comunidade é real, efectiva, e então ao defender o outro nada mais faço do que defender a mim mesmo; ou essa comunidade é ilusória, formal ou ideal, e então se luto pelo outro já não se trata de solidariedade (pois meu interesse não está em jogo), mas de justiça ou de generosidade.

“Em suma, a solidariedade é demasiado interessada ou demasiado ilusória para ser uma virtude.”

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