do fim de vida

 

A morte faz parte da vida e é imperativo conferir qualidade e dignidade ao processo de morrer. Nos últimos tempos foi-se tornando claro que há muito a fazer do ponto de vista do acompanhamento e dos cuidados, quando nada existe a fazer do ponto de vista do tratamento e cura. Neste contexto, o objectivo dos cuidados de saúde é paliar, obter melhor qualidade de vida e preservar, não a integridade corporal ou a saúde, mas a dignidade humana.

Associados ao Fim de Vida, surgem temáticas como a eutanásia, a distanásia, a decisão de não reanimação.  Que precisam de ser distinguidas, sendo que:

eutanásia: a acção que tem como primeira e principal consequência a interrupção deliberada da vida de alguém, que se encontra próximo da morte ou numa situação irreversível, e que pede a morte;

distanásia:  o prolongamento do tempo de morrer, através da utilização de meios de tratamento desproporcionados ou inúteis. Alguns autores utilizam o conceito de “encarniçamento terapêutico” ou “obstinação terapêutica”;

abstenção de terapêuticas inúteis ou desproporcionadas: a decisão de não iniciar ou de interromper tratamentos que não trazem benefício para o doente e que, pelo contrário, implicam desconforto e sofrimento. A grande questão que pode ser colocada é a de saber o que é de facto inútil e como medir os riscos e benefícios.

Frequentemente, esta questão prende-se com a decisão de iniciar, ou não, manobras de reanimação cardiorrespiratória em doentes graves – e leva-nos à reflexão sobre a decisão de não reanimar. A morte é hoje definida como a cessação irreversível das funções do tronco cerebral, sendo que a paragem da função cardiocirculatória e respiratória, por si só, não significa a morte de uma pessoa, já que essas funções podem ser artificialmente substituídas, como acontece frequentemente. A necessidade do estabelecimento de limites coloca-se com maior acuidade quanto mais meios existem, ou, como diria um dos pensadores nacionais da Bioética, nem tudo o que é tecnicamente possível, é eticamente adequado.

6 thoughts on “do fim de vida

  1. Todas estas temáticas suscitam interrogações muito complexas e começo a recear que a insuficiente discussão sobre estes assuntos possa de alguma maneira condicionar práticas clínicas reprováveis do ponto de vista ético.

    Fiquei impressionada com os testemunhos que Hennezel apresenta nas suas obras, nomeadamente no que se refere ao problema da “morte roubada”, em que o profissional pode ser tentado a procurar por essa via desembaraçar-se de um doente mais complicado, ou simplesmente libertar uma cama… Também a eutanásia económica ou o preconceito racial, étnico e contra idosos preocupa…

    Quanto à eutanásia (a pedido do doente), é importante que, particularmente nós, enfermeiros, estejamos despertos para o que está escondido num pedido para morrer (do doente ou da família), pois muitas vezes o pedido não é um verdadeiro pedido (como diz Hennezel, “querer não é desejar”) e pode estar a esconder o medo de ser maltratado; podemos até estar perante erros de comunicação pelo entendimento pessoal que fazemos das palavras dos outros, interpretações essas que podem já estar a ser condicionadas pelo nosso próprio sofrimento ao assistirmos à morte das outras pessoas.
    Podemos pensar que, se vários estudos internacionais têm demonstrado que, à medida que se foram melhorando os cuidados paliativos, foram diminuindo os pedidos de eutanásia e suicídio assistido, então é porque vale a pena depositar o nosso olhar um pouco mais além no horizonte e não ficarmos pela actualidade.

    Penso que tudo isto merece um reflexão muito abrangente, que chegue a todos os que estão envolvidos nos cuidados às pessoas em fase terminal da vida e à sociedade em geral. Nesta discussão os enfermeiros têm um papel muito importante para impedir que se arrepie caminho.

    VV

    PS
    Soa bem melhor a decisão de não reanimar do que a ordem de não reanimar. É mais inclusiva.

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  2. Muito interessante, vou “levar” para discutir com os meus alunos do curso de Animação que estão a trabalhar com idosos.
    Abraço
    ~CC~

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  3. A VV e CC, obrigada pelos comentários.

    Considero que as questões do Final de Vida dizem respeito a todos, deviam ser discussão de cidadania, em que os profisisonais pudessem ter um contributo mas não a exclusividade das decisões.

    Como em outros aspectos, o que diz respeito á sociedade e aos cidadãos, não devia ficar nas mãos de uns poucos, devia ser discutido em busca de amplos consensos. Nisto, estou completamente de acordo com Habermas…

    E considero perigosa a confusão entre recusa de tratamento e eutanásia, ou entre suspensão de medidas desproporcionadas e eutanásia.
    Ademais, as questões levantadas pela IVG e pela «expressão da vontade» da mulher, pensadas em ligação ao início de vida, não podem ser discutidas em relação ao final da vida??

    CC, depois, gostava de saber como foi :))

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