# 38 – Das palavras: “advogado do diabo”

… uso a expressão ocasionalmente e gosto de fazer o papel… hoje, perguntaram-me o que queria dizer, na origem, por issso, e porque me parece interessante, aqui fica a história:

O termo pertence ao vocabulário da cúria romana: “advocatus diaboli” é uma figura transposta para a linguagem popular, a partir do processo de santificação, de beatificação que se desenrolava perante a congregação do culto do Vaticano. O modelo é aquele a que se chamou “promotor fideii”, cuja missão era a de submeter a um teste de resistência os argumentos que defendiam a santificação de um defunto – advogava a favor, portanto.

O “advocatus diaboli” tinha interesse em impedir que mais um defunto ascendesse à comunidade de santos, apresentava cepticismo quanto aos milagres, procurava lacunas nas provas…

O que não resiste à ironia, porque o “agente do inferno” com os seus argumentos, negações e subversões, visava des-confirmar a dignidade de santo ou de beato num candidato proposto, de modo que acabava por dar lugar a um resultado válido, à luz do direito canónico. Ou seja, ao fim de contas, jogava contra mas fortalecia o jogo do adversário.

O ofício de “advogado do diabo”, estabelecido em 1587, foi abolido em 1983 (o que causou uma subida no número de canonizados – sugerindo que os Advogados do Diabo, de facto, reduziam o número de canonizações. Alguns pensam que terá sido um cargo útil para assegurar que tais procedimentos não ocorressem sem causa merecida, e que a santidade não era reconhecida com muita facilidade.

Hoje em dia o termo designa uma pessoa que discute a favor de um ponto de vista (e nem acredita nele) no sentido de esgrimir argumentos, testar a qualidade do argumento e identificar falhas ou erros na estrutura.

(A ler: O advogado do diabo, entre a ética e a sistemática (Peter Sloterdijk), em Para onde vão os valores?, Dir. Jérome Bindé, 2006)

3 thoughts on “# 38 – Das palavras: “advogado do diabo”

  1. Devia haver uma carreira de ‘advogado do diabo’, nestes tempos em que (quase) todos acham que têm sempre razão, contra (quase) todos os outros que desprezam as ideias diferentes… Que enredo!
    😉

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  2. E não é que concordo?🙂 é um papel importante, o do «advocatus diabolii»….
    porque obriga a procurar a fundamentação e a apresentar evidência (devia dizer prova…)

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  3. Pingback: “temos pena” | Conversamos?!...

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