Pensamento do dia

Não se possui o que não se compreende.

J.W. Goethe

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apreensões do quotidiano I

Cara amiga, hoje é para si que escrevo. Não sobre as coisas fáceis da vida nem sobre as mais penosas, nada de grandes espaços ou de arrojos audaciosos. Apetece mais quedar sobre detalhes e pormenores (que deviam chamar-se, às vezes, «pormaiores») e sobre os pesos que se carregam nos dias.

Às vezes, quando se nos apresentam redes de «nãos» e queremos respeitar os interditos, temos de ser criativos. E encontrar modos diferentes de expressar o que se anseia ou o que preocupa.

Os torvelinhos dos dias e das mudanças, das esperanças e das desilusões, nem sempre (ou raramente) nos são exclusivamente destinados – ou melhor, não temos de os enfrentar sózinhos, por maior determinação que tenhamos. Em momentos dificeis, como em horas de alegria, partilhar e dividir são meios vitais de sobreviver e prosseguir.

Ademais, é igualmente precisa coragem para se ser capaz de decidir que precisamos de ajuda. Ou, em plural, de ajudas, diversas nos timbres, daqueles que se preocupam, dos que se solidarizam, dos que constituem redes de afectos, dos que se formaram para aconselhar e ajudar. No quotidiano, quando se fica triste ou infeliz, quando se sente pressionado ou encostado a uma parede que não parece possível escalar, não é o isolamento que pode ajudar a resolver. Para as apreensões do quotidiano, quando o mundo (diria Weber), fica “despojado de magia”, é preciso restabelecer as pontes e reconstruir o optimismo. Com toda a ajuda que se possa cativar :). A minha não precisa pedir, conta com ela.

Flores da brancura silvestre, da paz.

Poesia, sempre…

Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade

Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega

Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero

Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente

Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia.

[Fernando Tordo]

(Foto Ian Britton)

organizações altamente fiáveis

De acordo com Hines et all (2008), há 5 conceitos chave para considerar as organizações como «Highly Reliable Organisation», ou seja «Organizações altamente fiáveis», a saber:

1. Sensitivity to operationsSensibilidade aos processos – os líderes de hospital e o pessoal precisam de estar conscientes e em alerta face aos sistemas e processos que afectam os cuidados aos doentes – “A consciência é a chave para a anotação e a prevenção dos riscos”

2. Reluctance to simplify – Relutância em simplificar. Enquanto consideramos bons os processos simples, as explicações simplistas para o fracasso (pessoal não qualificado, a falta de treinamento, fracasso de comunicação, etc.) são “arriscadas” porque negam a complexidade da prestação de cuidado.

3. Preoccupation with failure – Preocupação com as falhas. As ‘quase-falhas’ devem ser examinadas como evidência que o sistema está a trabalhar efectivamente e não necessariamente como prova que o sistema tem de ser melhorado a reduza além disso o risco.

4. Deference to expertise – Deferência com a perícia. Os líderes e os supervisores devem “escutar e responder ao discernimento do pessoal que sabem como os processos realmente são realizados e os riscos que os doentes realmente enfrentam.” Sem tal abertura cultural, a organização altamente fiável não é realizável.

5. Resilience – Resiliência. Todos os líderes e o staff devem der treinados e preparados a saber como responder quando ocorrem falhas no sistema.

Como se sabe, os erros dos profissionais são apenas uma parte do problema da segurança dos clientes. A investigação já demonstrou que quando existe um erro, existe uma causa e falhas no modo como o sistema funciona são nucleares na maior parte dos problemas. A segurança dos clientes é um assunto de todos os settings de cuidados, incluindo hospital, comunidade e domicílio.

(fonte: WERN, Workgroup of European Nurse Researchers, “Patient Safety in Europe”, Abril 2008)

Num estudo de Clarke, Lerner e Marella, sobre o papel dos líderes das organizações de saúde na área da segurança, caracterizam as organizações fiáveis e consideram que o que as distingue é:

  1. O compromisso da liderança que a segurança é prioridade, uma pré-condição, não um objectivo competitivo; é responsabilidade do sistema, não dos indivíduos; recursos adequados devem estar disponíveis para fazer as tarefas.
  2. Uma cultura de segurança que presta atenção à tarefa, achata a hierarquia, encoraja as pessoas a falar das preocupações.
  3. Treino regular, particularmente treino de equipa, para que cada um saiba dos objectivos e das tarefas de cada um.
  4. Métodos efectivos de comunicação, que disponibilizem a informação que as pessoas precisam de saber, onde e quando a necessitam. Erros acontecem quando as pessoas têm falta de consciência situacional ou de modelos mentais partilhados.
  5. Standardização, em tornos dos percursos clínicos, das melhores práticas, das guidelines e práticas seguras, de modo a que os desvios ou as variações indesejadas sejam óbvias. Segurança dos resultados advém da replicabilidade dos processos.


John R. Clarke, Jeffrey C. Lerner and William Marella – The Role for Leaders of Health Care Organizations in Patient Safety. American Journal of Medical Quality 2007; 22; 311.